quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Quebra-Pau no Samba

Numas destas viagens demoradas em rápido avião me deparei com uma revista de bordo com matéria que chamou atenção, a qual vou postar alguns trechos com os devidos créditos.

Texto: Bruno Hoffmann – Revista Brasil. Almanaque de Cultura Popular Ano 10
Agosto 2008 Nº 112. Desenho – Nássara – (publicado na capa do disco Polêmica com músicas de Noel Rosa e Wilson Batista).

Coloquei alguns vídeos e links para ilustrar o assunto.

Zeca Zines

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BRIGA DE BAMBA TAMBÉM DÁ SAMBA

A música brasileira reservou momentos para históricas discussões musicais. Seja por brigas verdadeiras, desavenças de pontos de vista ou por mera brincadeira, compositores criaram sambas que caíram no gosto popular. Neste Especial, reunimos alguns deles. Não sentenciaremos o resultado, papel que fica ao cargo do leitor. A nossa conclusão é que, em todas as batalhas, quem saiu ganhando foi a música brasileira.

WILSON – VS. - NOEL

No início dos anos 1930, Noel Rosa ouviu um samba chamado “Lenço do Pescoço”, gravado por Silvio Caldas. A canção era uma lavada exaltação à malandragem, com versos como: Eu passo gingando / Provoco e desafio / Eu tenho orgulho de ser tão vadio.
Apesar de várias de suas composições se mostrarem simpáticas aos malandros, resolveu responder ao compositor, o jovem e então desconhecido Wilson Batista.

Mas musicalmente. Nascia “Rapaz Folgado”, em que clama ao autor que compre sapato e gravata e deixe de lado a vida boa.
O que poderia parecer apenas “um chega pra lá” a um iniciante tinha, na verdade, outras motivação: O aspirante havia se envolvido com Juraci Correia de Morais, ou Ceci, o maior e mais conturbado amor da vida de Noel.

Wilson que de besta não tinha nada, viu na polêmica um atalho para o sucesso. Compôs então “Mocinho da Vila”: Injusto é seu comentário / Fala de malandro quem é otário.
E Noel decidiu dar um basta. Escreveu a definitiva “Feitiço da Vila”: Lá, em Vila Isabel / Quem é bacharel / Não tem medo de bamba / São Paulo dá café / Minas dá leite / E a Vila Isabel dá samba.
Acreditava que assim calaria de vez seu adversário. Estava enganado. O incansável Wilson compôs “Conversa Fiada”, obrigando Noel a replicar com a desmoralizante “Palpite Infeliz”: Pra que ligar a quem não sabe / Aonde tem o seu nariz? / Quem é você que não sabe o que diz?

E Wilson perdeu as estribeiras. Emendou a nada sutil “Frankenstein da Vila”, em alusão ao defeito que Noel tinha no queixo: Entre os feios és o primeiro da fila / Todos reconhecem lá na Vila / Essa indireta é contigo.

Aí Noel se magoou. Há quem diga que, furioso, foi de banca em banca comprar todos os exemplares do Jornal da Modinha, que havia publicado a letra.
Indagado se não teria passado dos limites, Wilson desconversou: “Noel era homem, não há mal algum em chamar homem de feio”.
Os dois ainda trocaram farpas com “João Ninguém”, de Noel, e “Terra de Cego” de Wilson.
Mas a briga que rendeu algumas das mais saborosas músicas da nossa história tinha chegado ao fim.


CECI – VS. – NOEL – A Dama do Cabaré

Juraci, que atendia pelo nome artístico de Ceci, era dançarina da boate Apolo, um lugar pouco familiar da Lapa, região central do Rio.
Noel, assíduo freqüentador, a conheceu em 1934 e nunca mais pensou seriamente em outra mulher - nem mesmo em sua própria esposa.
Viveram um amor complicado, mas que gerou grandes sambas (a música novamente agradece).
“Dama do Cabaré”, “Eu sei Sofrer”, “Pra que Mentir”, são apenas algumas delas.
Em “O maior castigo que eu te dou”, Noel sintetizou a relação de amor e ódio: O maior castigo que te dou / É não te bater / Pois sei que gostas de apanhar / Não há ninguém mais calmo do que eu sou / Nem há maior prazer / Do que te ver me provocar.

A derradeira canção destinada a Ceci foi “Último Desejo”, escrita quando o poeta da Vila já estava debilitado pela tuberculose, doença que o mataria antes de completar 27 anos.
No leito de morte, cantarolou a canção, nota por nota, para Vadico, um de seus mais freqüentes parceiros. E pediu que entregasse uma cópia a Ceci. O amigo levou a letra da música à amada de Noel e, ao se despedir, achou por bem esclarecer: “Acho que ele te castiga um pouco nesse samba, Ceci”.

OS ADVERSÁRIOS SE UNEM

No auge da polêmica entre Wilson e Noel, os compositores se encontraram em um bar ao lado dos Arcos da Lapa. O clima foi amistoso. Wilson abriu um sorriso e disse: “Noel, tenho mais uma aqui pra você”, e cantou “Terra de Cego”. O músico ficou intrigado com a melodia, que considerou muito boa. Propôs, então, uma parceria. Sentou-se na mesa e, pouco tempo depois, estava pronta “Deixa de Ser Convencida”: Deixa de ser convencida / Todos sabem qual é seu velho modo de vida.
A única parceria entre ambos foi destinada a quem? Sim, a ela, Ceci.



Maysa Cantando - Meu Último Desejo de Noel Rosa -acompanhada de Rildo Hora na Gaita
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DALVA – VS. – HERIVELTO – Teu mal é comentar o passado.

Um amor conturbado e sambas inesquecíveis. Dalva de Oliveira e Herivelto Martins eram casados, mas viviam em pé-de-guerra. As discussões não se restringiam ao lar: eram ecoadas pelas ondas do rádio. A briga pública começou quando Dalva cantou “Errei, Sim”, encomendada a Ataulfo Alves: Manchei teu nome / Mas foste tu o culpado / Deixava-me em casa / Me trocando pela orgia.
http://br.youtube.com/watch?v=7xfKqSf0BXA

Em resposta, Herivelto compôs “Cabelos Brancos”: Não falem dessa mulher perto de mim (...) Por ela vivo aos trancos e barrancos / Respeitem ao menos os meus cabelos brancos.
E os sambas brotavam, para deleite dos ouvintes-fãs-fofoqueiros.
Ainda foram criadas, para Dalva cantar, “Fim de Comédia”, de Ataulfo Alves, E “Que Será”, de Rossini Pinto.
Herivelto respondeu com mais dois sambas: “Caminhemos” e “Segredo”. Ironicamente neste último, exige mais descrição por parte da cônjuge: Teu mal é comentar o passado / Ninguém precisa saber o que houve entre nós dois...



Dalva de Oliveira - cantando Neste Mesmo Lugar de Armando Cavalcanti e Klécius Caldas - TV TUPI
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CHICO – VS. – TROPICALISTAS – Nem toda loucura é genial.

Em 1967, um artista começava a se tornar unanimidade nacional, como definiu à época Millôr Fernandes. O jeito tímido, o ar de genro ideal e os caprichados sambas tradicionais diferenciavam Chico Buarque da turma que pretendia revolucionar a música brasileira: a Tropicália.

Por isso, passou a ser tachado de antiquado pelo movimento. Em resposta aos tropicalistas, Chico escreveu um artigo no jornal Última Hora sob o título “Nem toda loucura é genial, nem toda lucidez é velha”.
E muitos viram em “Essa Moça Tá Diferente” o contra golpe mortal. Na canção, a personagem anseia se modernizar a qualquer custo, desdenha de tudo que pareça velho, mas “samba escondida, que é pra ninguém reparar”.




Chico Buarque - cantando Essa Moça tá Diferente

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ERNESTO – VS. – ADONIRAN – Se não tem mancada, não tem samba, Arnesto.

Ele ficou com a fama de quem convida para o samba em sua própria casa e, apesar disso, não comparece. Não há quem desconheça a história, embora sua identidade tenha sido preservada pelo inconfundível sotaque italianado de Adoniran Barbosa.
Em sua defesa, Ernesto Paulelli – ou Arnesto – garante que nunca convidou ninguém para samba algum. Tornou-se amigo de Adoniran em 1939. O Sambista prometeu que lhe faria um samba, pois havia gostado da sonoridade do nome. Anos depois, a novidade corria as emissoras de rádio: O Arnesto nos convidou / prum samba ele mora no Brás / Nóis fumo e não encontrêmo ninguém.

“Olha lá, mulher, esta música é pra mim!”
Ao encontrar o compositor, agradeceu a homenagem, mas comentou que já estava meio cansado de tanto ouvir piadinhas. Adoniran justificou: “Se não tem mancada, não tem samba, Arnesto”.




Adoniran Barbosa - Cantando Samba do Arnesto

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