sábado, 28 de novembro de 2009

Viva Paulinho da Viola



Homenagem no programa Som Brasil a este grande mestre da Música Brasileira

“As pessoas dizem que sou tímido, mas eu gosto muito é de ouvir, e nunca quis aparecer como artista. Nunca me senti cantor, mas tenho a preocupação de usar o canto para revelar o meu trabalho, minha composição. E o samba, como toda arte e cultura, tem a sua dinâmica própria. Não pode ficar parado no tempo”, afirma Paulinho da Viola, homenageado de ‘Som Brasil’ no dia 27 de novembro de 2009

Foi o Rio que passou em minha vida




Coração leviano




Só o tempo



Onde a dor não tem razão




Bebadosamba


quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Nosfell Sladinji the grinning tree (des mots de minuit)


Exposição Massafeira Livre - 30 Anos

Está acontecendo no Campus da UECE - Universidade Estadual do Ceará a Exposição Massafeira 30 Anos.
Coordenação: Michel Platini Fernandes, Diretor Técnico do Museu da Imagem e do Som do Ceará – MIS-CE
Realização: Alunos do Curso “Museu, Patrimônio Cidade” realizado pelo Departamento de História da Universidade Estadual do Ceará (UECE)
Local: Universidade Estadual do Ceará (UECE) – Campus do Itaperi
Data: 16 a 20 de Novembro de 2009
Horário de visitação: 16h às 20h
Com palestras, esposição e exibição de vídeos e documentários, display de cartazes, capas, fotos, matérias de jornais, etc., e shows com novas bandas cearenses cantando o repertório do disco Massafeira e suas próprias composições.
VALE DAR UMA CONFERIDA -
Iniciou dia 16 novembro com uma mesa de abertura com a participação de Wagner Castro, Ana Léa Bastos e Pedro Rogério, que pesquisaram sobre os músicos cearenses e os movimentos musicais dos anos 1970 e 1980 no Ceará.
Ainda tem dois dias pra quem queira visitar, o público que já compareceu desde a abertura, atesta que está bastante interessante.

domingo, 15 de novembro de 2009

Fagner x Caetano: A Luta do Século

Nota de Zeca Zines:

Central da Música, foi um dos primeiros sites de sucesso criado em abril / 2000 por Diego Sana, (Vitória / ES), com seções inteiras de entrevistas, artigos, matérias, resenhas e colunas sobre música, com vários colaboradores de todo o Brasil. O CDM terminou no início de 2004, mas deixou uma grande quantidade de conteúdo sobre música e foi premiado por duas vezes pelo iBest.
Em homenagem aos seus criadores e colaboradores, Zeca Zines pinça uma das matérias realizada pelo colaborador Ednaldo Calahani e indica a seguir o link onde vocês podem encontrar uma parte das matérias regatadas por seu criador Diego Sana.

_______________________________________________________________

Fagner x Caetano: A Luta do Século


Texto publicado originalmente na Central da Musica

Por Ednaldo Calahani em 11/5/2003 – 11:23:28


A rivalidade mais famosa da música brasileira foi entre Emilinha e Marlene. Na porta da rádio Nacional do Rio, multidões de fãs das duas cantoras trocavam insultos, e muitas vezes se engalfinhavam para decidir quem era a melhor. Só que elas, na verdade, eram bem amigas, e se divertiam com a disputa que, enfim, só fazia aumentar a popularidade de ambas.

Bem diferente foi a rinha real entre dois galos bravos da MPB, que quase chegou às vias de fato, e na qual os fãs pouco se envolveram. Retomá-la aqui tem o objetivo de refrescar-lhes a memória, ainda que com o fogo dessa contenda cujos estilhaços se fixaram no nosso inconsciente musical coletivo.

Tudo começou em 1972, Médici no governo, quando Fagner, posando de anti-João Gilberto, lançou sua primeira gravação (“Mucuripe”) no Disco de Bolso do Pasquim; curiosamente, do outro lado vinha Caetano, com “A Volta da Asa Branca”. Logo em seguida, pela antiga Philips, saiu seu primeiro LP, apadrinhado por famosos como Chico e Elis, e logo eleito “favorito do verão” pelo circuito alternativo carioca. Foi um pisão no calo dos baianos, que logo fizeram valer seu status quo na mesma gravadora, reavivando então uma rivalidade geográfica do tempo do império. Nessas, vendo-se boicotado no circo armado, Fagner foi passar uma temporada em Paris, só voltando a gravar em 1975, na Continental, o “Ave Noturna”, mais experimental ainda que o primeiro disco.

No ano seguinte, o amigo Belchior, também pela Philips, estourou com seu LP “Alucinação”, atingindo marcas de vendagem e popularidade nunca alcançados pelos baianos. Isso não foi nada, comparado com a menção explícita a Caetano nas letras: o “antigo compositor baiano”, que dera “a idéia de uma nova consciência”, e que agora estava “em casa, guardado por Deus, contando seus metais” (em “Como Nossos Pais”).

A meu ver, era como um repente, um desafio à pasmaceira e omissão política que exalava dos ex-tropicalistas, mas não foi assim que eles entenderam a coisa. Reagiram, de novo, por baixo do pano, e Belchior, mesmo com o estrondoso sucesso comercial, teve que se mudar para a WEA.

Fagner, filho de pai sírio e fiel às amizades, não se conformou com a nova puxada de tapete, e não deixou barato nas entrevistas: disse que Caetano “já era” (uma expressão comum na época), e que devia ter ficado em Londres. Caetano, cujo fraseado vocal e traços físicos também não disfarçam a quota de sangue sarraceno que lhe corre nas veias, chamou Fagner de “mau-caráter”.

O clima pesou, e Chico, amigo comum, tinha que ter cuidado em não convidá-los para a mesma festa. Bem que ele tentou jogar água na fervura, mas o racha já estava feito.

A verdade é que o Caetano pós-Londres estava “numas de deixar rolar”. Depois de fracassar com o genial “Araçá Azul”, gravou, em 1975, dois belos discos que se complementavam (“Jóia” e “Qualquer Coisa”), recebidos pela crítica com bocejos, e que também venderam pouco.

Quando emergiu o então chamado Pessoal do Ceará (Ednardo, com o Pavão Mysteriozo, de 1974, Fagner e Belchior), sua maré criativa estava em baixa.

No episódio da briga, alguns críticos tomaram o partido dos cearenses. Aí, em 1977, Caetano lançou “Bicho”, exaltando a moda “disco” que aportava no Brasil, e veio o bombardeio: em plena ditadura, que não largava a rapadura, onde já se viu louvar a alegria! Era o tempo das “patrulhas ideológicas”.

Para Caetano, polemista arguto, não foi difícil dar olé na habitual estreiteza mental da crítica. Nas entrevistas e shows desse disco e do seguinte (“Muito”), ouvimos sua voz de trovão em discursos irados. O problema é que ele aproveitou o súbito poder conquistado para uma revanche com seus desafetos.

Elis, que sempre gravou Caetano em seus discos, mas que fez coro contra o “Bicho”, nunca mais foi perdoada (vide o modo jocoso como é referida no livro “Verdade (??) Tropical”).

Fagner, por seu turno, teve que a partir daí se desdobrar para retomar seu espaço na mídia e no mercado. Ironicamente, a partir de “Noturno” (da novela global Coração Alado, em 1980), ele, cujas ambições não o faziam se contentar em ser mais um “maldito”, se tornou um grande vendedor de discos.

Caetano, mesmo estando empatado na quantidade de temas de abertura para novelas, só veio a ter um êxito comercial notável recentemente, com a pérola brega “Sozinho”, de Peninha.

Diz Rita Lee que ele sempre viveu do sucesso da butique da irmã, Betânia. Por outro lado, sua “fina estampa” lhe garante um cachê bem maior para shows.

O livro “Nada será como antes”, de Ana Maria Bahiana (editora Civilização Brasileira, 1980), traz entrevistas elucidativas, da época, com as duas partes. Na matéria de Caetano, Ana cita que chegou a considerá-lo um “deus”, na época em que ela precisava de deuses.

Também tive meu tempo de achá-los “deuses”, ele e o Fagner, agora não mais.
Só que a grande maioria dos críticos, depois da fragorosa derrota diante do “Bicho”, adotou uma postura de passividade bovina, outorgando comodamente a Caetano a incumbência de traçar, ao seu bel-prazer, a “linha evolutiva da MPB”, como ele mesmo gosta de falar.

Assim, Barão Vermelho, Djavan, Carlinhos Brown, RPM, Lenine, Marina, Chico César, Chico Science, Arnaldo Antunes, a despeito de seus méritos, só passaram a ser “bons” depois do crivo do baiano. Na outra face, ai daquele que, em qualquer época, tenha desagradado o menino de Santo Amaro da Purificação.

De Vandré a Makalé e ao maestro Júlio Medaglia, todos levaram sua alfinetada vudu.
Luiz Gonzaga, outrora referencial da Tropicália, depois que gravou dois vigorosos discos com Fagner, só mereceu citações lacônicas.
Até Gil deve ter tomado seu puxão de orelhas, depois da parceria com Belchior em “Medo de Avião n. 2” (1980). Ruy Castro, te cuida…

O que mais me incomoda nisso tudo é que o Pessoal do Ceará, um grupo tão ou mais criativo que o da Tropicália, e que inclusive levava adiante a proposta tropicalista, foi posto pra escanteio por conta dessa bravata.

Mesmo aqueles cujo som revela cristalinamente sua influência (caso de Lenine e Chico César), parecem ter vergonha de admiti-la em público.

Num especial da MTV, comandado por Gil, sobre a música de todas as regiões do Brasil, pintaram de Carla Perez a Tom Zé, outro que teve o tapete puxado por discordar do clã baiano.

Porém, assim como no site “Expresso 2222”, nenhuma vírgula de referência a Fagner, Ednardo e Belchior (sem falar nos músicos como Robertinho do Recife e Manassés), artistas que tiveram e tem sucesso comercial sem nunca abrirem mão da qualidade e da inventividade.

Faltou-lhes habilidade política para se fixarem como medalhões da MPB?
Pode ser.
Ednardo, que nunca entrou diretamente na briga, mas que acabou recebendo as balas perdidas, dá “bananas pra todo esse auê”, em “Tecer Novo Mundo”, do disco “Libertree” (1984).
Talvez sábio seja ele, ou Luiz Gonzaga, para quem “na dança do cossaco, não fica cossaco fora”.

http://www.sanainside.com/arquivos-do-central-da-musica/colunas/dr-piranha-fagner-x-caetano-a-luta-do-seculo/

_______________________________________________________________

Não faz parte da matéria acima, mas Zeca Zines insere duas músicas de Ednardo sobre o assunto, Tecer Novo Mundo gravado no disco Libertree (1984) EMI-Odeon, e Desconcerta-te gravada no disco Ednardo (1979) CBS :

Tecer Novo Mundo
Ednardo

Emergência real pra geléia geral
Tá nas raias do maracujá
E quem tomar, meu amigo
As delícias dos fruto da flora
Vai ver que a fauna se arranja
Dando até uma canja ao show bizz da tv
Bananas ao vento, já faz tanto tempo
Bananas pra todo esse auê

Desde quando alguém já falou
Pindorama país do futuro
O sistema computa, computa, computa
É mais outro tijolo no muro
Virou jaula da farra da fera
Marginália pro ano 2000

A prova dos nove da alegria
Segura a vida, agarra Luzia
Tudo o que for maravilha
E venha junto ver o nascer do dia
Noves fora um, noves fora dois, noves fora mil
O computador não segura
O meu coração tão Brasil


Desconcerta-te
Ednardo

Já foi mais, agora é menos
Mesmo que ainda queira ser muito
Esse menino caviloso fala à toa dessa alegoria
Alegre ou triste sempre vamos juntos
E você não me conhece?
Mas meu corpo e o meu verbo insiste
E resiste ao chute dos polidos sapatos
Que você disfarça em alpercatas de rabicho

Meus dedos pisados nessa violência
Sangraram nos gumes das pedras
Que você nunca sacou
Sacou, sacou?
E ainda tocam a desarmonia desse acordar
E a minha voz lampeja nas manhas
Desse poluído lar
Luminando raios, luminando raios
Que antes tarde do que que nunca
Acontece coração
Tece e trança tua teia, meu irmão
Mas desconcerta-te
Tudo garante o fácil, a falsa calmaria
Dessa atitude sadia
Longe de tudo vadia
Minha emoção
Vamos até o fim

sábado, 17 de outubro de 2009

Som Brasil - TV Globo - Ednardo, Amelinha, Belchior

Ednardo Amelinha Belchior no Som Brasil 1994 - TV Globo
Parque do Cocó - Fortaleza - Ceará.

Neste período o programa Som Brasil era gravado ao Vivo, durante mega shows em diversas cidades brasileiras e depois fazim um condensado de uma hora que era transmitido em rede nacional em horário nobre.
Neste show de Fortaleza os produtores calculam uma estimativa de 80 mil pessoas assistindo ao Vivo, o que depois se multiplicou por milhões de telespectadores.


Pavão Mysteriozo - Ednardo



Terral - Ednardo

As participações de Ednardo, Amelinha, e Belchior neste memorável show foram com várias músicas cada um, sendo que duas foram ao ar: Pavão Mysteriozo (Ednardo) com Ednardo; e Terral (Ednardo) com Ednardo convidando Amelinha e Belchior para interpretarem juntos.

Neste show participaram também várias outros artistas e bandas do Ceará, Rio Grande do Norte e da Bahia, mas a recepção do púbico a estes três artistas brasileiros nascidos no Ceará, levou o público ao delírio, momento que prestou reverência espontânea em maravilhosa coreografia popular realmente emocionante e inesquecível.

Participaram da Banda de Ednardo grandes músicos cearenses: Manassés; Cristiano Pinho, Eugênio Matos, Luiz Duarte, Carlinhos Ferreira, Nilton Fiore, Aroldo Araújo, e ainda teve a participação de componentes do maracatu cearense.

OBS - Zeca Zines notou que nos créditos de abertura do vídeo Terral com Ednardo Amelinha Belchior, registra o show no ano 2004, mas na realidade foi em 1994. Fica a ressalva.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Ednardo - Cauim - Disco e Filme
















Sempre inovador, o cantor e compositor Ednardo, lança em 1978 o disco Cauim pela gravadora Warner Bros., com a característica de ser totalmente acústico, é o primeiro disco de sua geração com este formato, depois relançado no ano de 2001 em CD, no projeto do baterista dos Titãs – Charles Gavin – Warner Arquivos.

Os arranjos primorosos são de autoria de Ednardo, Pepeu Gomes e Wilson Cirino.
Os músicos convidados por Ednardo são excelentes entre eles, vindos do grupo Novos Baianos: Pepeu Gomes, Jorginho Gomes, Waldir Gomes, o paulista Ife (Luiz Carlos Franco Tolentino), o cearense Cirino, e o gaúcho Sérgio Boré, entre outros.

Com apurado trabalho gráfico, o disco original tem capa dupla, realizado por Brandão, poeta, compositor e arquiteto (Antonio José Soares Brandão), e parceiro de Ednardo em várias músicas deste disco e que também assina o design, grafismos e desenhos pinturas, com Arte Final de Ruth Freihof e fotos de Mário Luiz Thompson e Francisco Régis.

Um ano antes, entre 1977 / 1978, Ednardo realiza o filme homônimo – Cauim, em 16 mm., P / B – média metragem de 45 minutos, todo filmado em Fortaleza, com Direção, Produção e Roteiro do próprio Ednardo, lançado em 1978 junto ao disco Cauim, em várias capitais brasileiras.


Este filme projetado durante shows de lançamento de Cauim 1978, em telas formadas por redes brancas, formando um visual inusitado naqueles tempos.
Ao chegar em Brasília, o filme foi aprendido pela repressão da ditadura militar e devolvido, no final do show com várias cenas picotadas. Mas mesmo assim foi projetado no show.

O filme Cauim é um documentário / ficção, sobre Maracatu Cearense onde Ednardo evoca a formação e afirmação da etnia cearense e brasileira – Índia, Branca e Negra e também aborda a Confederação do Equador, movimento cultural / político, que ainda na época do Império desejava estabelecer a República no Nordeste Brasileiro - Ceará, Pernambuco, Bahia, Piauí.

Aura Edições Musicais, produtora de Ednardo, está telecinando o filme CAUIM para em 2010 lançar em DVD incluindo Making Of do filme e Entrevista com Ednardo falando sobre o processo de realização.


Neste disco CAUIM, Ednardo inclui CANÇÃO DOS VAGALUMES, música especialmente composta para peça de teatro PUTZ A MENINA QUE BUSCAVA O SOL, dirigida por Augusto Pontes, da Autora russa / brasileira Tatiana Belinky, com cidadania brasileira e residente no Brasil, que já ultrapassou a marca de 120 livros editados, nos quais se dedica a literatura infanto -juvenil com link de leituras para todas idades.

FICHA TÉCNICA DO DISCO:

Direção Artística - Marcos Mazola
Produzido por Guti Carvalho
Técnicos de Gravação - Carlos Duttweller / Vitor
Estúdio de Gravação - Transamérica - Rio de Janeiro
Mixagem - Guti Carvalho / Carlos Duttweller / Ednardo
Assistente de Produção - Gastão Lamounier
Auxiliares de Estúdio - Franco / Cláudio
Capa e Desenhos - Brandão
Foto da Capa - Mario Luiz Thompson
Foto da Contra Capa - Francisco Régis
Arte Final - Ruth Freihof

MÚSICOS

Arranjos - Ednardo / Pepeu Gomes / Wilson Cirino
Violões - Ednardo / Pepeu Gomes / Wilson Cirino
Violão Sétimo - Waldir Gomes (Novos Baianos)
Guitarra Acústica - Pepeu Gomes (Novos Baianos)
Bateria - Jorginho Gomes (Novos Baianos)
Contra Baixo - Luiz Carlos Tolentino - Ife
Baixo Tuba - Teles
Percussões - Sérgio Boré / Jorge José

Todas Músicas Editadas por - Aura Edições Musicais Ltda.
Exceto: Rasguei o teu retrato

RELAÇÃO DAS MÚSICAS DO DISCO

1. C'lareou -Ednardo
2. Meu Violão é um Cavalo - Ednardo
3. Amor de Estalo - Ednardo e Brandão
4. Duas Velas - Ednardo e Brandão
5. Rendados - Ednardo e Tânia Araújo
6. Rasguei o teu Retrato - Cândido das Neves (Índio)
7. Cauim - Ednardo
8. Bloco do Susto - Ednardo
9. É Cara de Pau - Ednardo e Brandão
10. Terezina 40 Graus - Ednardo
11. Canção dos Vagalumes - Ednardo

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Zoombido - com Ednardo e Paulinho Moska

Gravado em março de 2009, no Rio de Janeiro – Estúdio Palco, e exibido nos dias 20, 21 e 22 de Agosto pelo Canal Brasil.

Este excelente programa criado e desenvolvido por Paulinho Moska e sua Equipe, já entrevistou mais de uma centena de artistas, compositores e intérpretes brasileiros.

Em cada um deles os participantes relatam seus inícios musicais e outros momentos de sua carreira e cantam 3 músicas, além de realizarem uma música coletiva feita por 26 artistas que serve de mote à cada uma das temporadas.

Esta temporada na qual Ednardo participa com mais outros 25 artistas chama-se: “A canção não pode parar”


Parte 1.



Parte 2.


Parte 3.

domingo, 16 de agosto de 2009

Rock na Cena Cearense



A cena cearense do rock em suas diversas tendências possui mais de 350 Bandas atuantes.

Em pesquisas recentes encontramos muitos que são originais, mas em outra grande quantidade, existem os repetidores e covers.

Zeca Zines vai tentar fazer uma radiografia desse pessoal. Vamos começar com com vários clips e informações em suas entrevistas, partindo do princípio do Programa Rock Cordel, um festival anual promovido pelo Centro Cultural do BNB, mas também de várias outras cenas pertinentes a esta cena.

Montage é um dos mais de 350 grupos da cena musical cearense que faz opção pela interpretação híbrida entre o inglês e o português com vistas de desenvolver seus trabalhos no exterior.

Formado pela dupla Daniel Peixoto, Leco Jucá, e neste vídeo acompanhado por Ricardo Lisboa, o Montage surgiu em 2005 na Cidade de Fortaleza. Residindo no eixo Fortaleza - São Paulo, o Montage já viajou para se apresentar na Europa.

Neste vídeo a participação especial de Carlos Eduardo Gadelha, guitarrista da Banda Quarto das Cinzas, também de Fortaleza.

Montage

Floor! Floor! Floor!



Entrevista com Daniel Peixoto - Cantor do Montage




Cidadão Instigado - Fernando Catatau

O Pobre dos Dentes de Ouro




Cidadão Instigado - Urubú

Entrevista com Fernando Catatau

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Procura-se Belchior



Zeca Zines leu uma matéria curiosa no site Palma Louca
http://www.palmalouca.com.br/artes/artes.jsp?id_artes=600 escrito por Mariana Filgueiras e que coloca um cartaz de - Procura-se Belchior... para seu conhecimento copiamos...

________________________________

Na garupa de uma moto a caminho de Tianguá, no norte do Ceará, o primo de segundo grau Robério Belchior dá a sentença: "Belchior encerrou a carreira. Está bem de saúde, de finanças, mas decidiu não gravar mais ou fazer shows. Há mais de um ano que nem nós, da família, temos contato com ele. Só uma irmã, Ângela, que de vez em quando recebe telefonemas. Ninguém sabe nem onde mora, só que parou com tudo". Do celular, falando mais alto do que a ventania, Robério diz não fazer idéia do motivo. "Não sei se foi problema de cabeça, se cansou, sei que ninguém consegue mais contato com ele".

Belchior sumiu. Nem os amigos, parentes, fãs, ex-sócio, gravadora, nem o Google sabem o paradeiro deste que integra a lista afetiva dos maiores compositores do Brasil, autor do maior sucesso na voz de Elis Regina, "Como nossos pais" e de hits dos anos 70, como "Apenas um rapaz latino-americano", "Velha roupa colorida" e "A palo seco". Aos pedidos de shows que recebe de todo Brasil, o antigo empresário, Georges Jean, tem mandado o cantor Guilherme Arantes no lugar. "Olha, se você achar o Belchior, por favor me passe o contato, porque eu estou atrás dele há dois anos", apela Georges, pelo telefone.

Ex-sócio e amigo de longa data, o músico e escritor Jorge Mello está chateado: "Estou morrendo de saudades. Você imagina o que é trabalhar com uma pessoa na mesa ao lado por 18 anos e de repente essa pessoa sumir?". A última vez que estiveram juntos foi em 2007, em um show no Teatro José de Alencar, Fortaleza. "Acho que ele deve ter tido alguma crise de cabeça, deve estar estressado, não quer mais falar com ninguém e saiu de Campinas", arrisca Mello, referindo-se à última morada de Belchior.

Talvez tenha ido para longe. "Alguns amigos dizem que ele foi embora para a Holanda", lembra a amiga e radialista Josy Teixeira, autora de uma dissertação de mestrado sobre as letras de Belchior, que acabou virando livro. "Até 2006, mais ou menos, nós tínhamos muito contato por causa da minha tese, mas nunca mais consegui falar com ele. E eu preciso falar, porque recebi um email de uma suposta produtora proibindo um show que faríamos com músicas dele na festa de lançamento do livro. Paguei o Ecad direitinho para liberar os shows e quero saber exatamente que história foi essa". O amigo Célio Camerati, ex-sócio de Belchior no selo Camerati, conta que recebe pelo menos três ligações por semana de jornalistas e produtores de shows em busca do compositor. "Se eu tivesse qualquer pista, eu passaria, pode acreditar. É o que digo a todos".

Não fosse Tom Zé ter reconhecido o indefectível bigodão perdido na platéia de um show que fez em Brasília em março deste ano, os milhares de fãs que mantêm sites e comunidades no Orkut em busca do cantor já teriam até pensado que – toc, toc, toc – "Bel", como chamam, bateu as botas. Vestido com uma saia estampada à "calçadão de Copacabana", Tom Zé avistou o cabra, parou o show e o chamou ao palco. Meio tímido e bastante cabeludo, Belchior subiu e não fez feio. Entoou, vozeirão em dia, uma versão de "Sweet mystery of life". Tom Zé, em reverência, foi assistir da platéia.

A letra da música escolhida já dava uma pista de que Belk’s, outro apelido, não quer mais saber de festa: "Minha vida que parece muito calma/ tem segredos que eu não posso revelar...". A gritaria insandecida dos fãs obrigou-o a cantar um trechinho de "A palo seco". Nem bem terminou a primeira estrofe (que era, aliás, outra pista: "Se você vier me perguntar por onde andei, no tempo em que você sonhava / De olhos abertos, lhe direi: amigo, eu me desesperava..."), agradeceu os aplausos e sumiu de novo. Não deu nem tempo de perguntar se tem email.

O desaparecimento de Belchior foi repentino. Desde o sucesso nos anos 70, quando foi gravado por gente do quilate de Elis Regina, Roberto Carlos, Vanusa, Jair Rodrigues, até meados dos anos 2000, o cantor fazia cerca de cem shows por ano, em todo o Brasil. Em 40 anos de carreira, lançou 15 discos. Em 1983 lançou uma gravadora própria, a Paraíso Discos, e em 1997 criou o selo Camerati, que lançou discos antológicos de José Miguel Wisnik e do Grupo Rumo. Belchior, cujo nome deve ser pronunciado como "Agenor", "Claudionor", e não como "suor" ou "Christian Dior", tinha até uma casa de cultura com seu nome, em Fortaleza, e aparecia esporadicamente em programas de TV. Uma carreira sólida, portanto.

O estilo sincero dos versos, as milhares de referências intertextuais, a voz forte (e o bigode, claro) transformaram Belchior em ídolo "cult". Em 2006, dublou o mágico Zás-Trás no desenho animado "Garoto Cósmico", com Vanessa da Matta, Raul Cortez e Arnaldo Antunes. Um doce para quem adivinhar qual música o pequeno mágico cantava. No mesmo ano, a canção "A palo seco" foi gravada pelo Los Hermanos (o que mais poderia ser mais cult em 2006?). Os também bigodudos, e barbudos, levaram Belk’s a tiracolo para seus shows. Um sucesso absoluto.

Mas o Bob Dylan tropical deu cabo de tudo. Já tinha fechado a Casa de Cultura e Arte Belchior, no ano anterior, desfez a sociedade do selo Camerati, desativou o site oficial, trocou telefones. As apresentações começaram a rarear. Alguns poucos shows no interior do país, uma aparição constrangida no Jô Soares, em 2008, com uma entrevista limitada a canjas batidas e piadinhas do apresentador (Quando Belchior canta a música "Divina comédia humana", por exemplo, no verso "Aí um analista amigo meu...", Jô emenda: "Aí um analista me comeu...").

Ao público, nenhuma novidade. Em outubro, participou de um festival de música em Canela, no Rio Grande do Sul, que muitos fãs acreditam ter sido a derradeira apresentação. Em dezembro, Belchior fez outra curiosa aparição-relâmpago na TV: durante uma reportagem do Jornal Nacional sobre o MORHAN (Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase), quem aparece ali, atrás da repórter? Ele mesmo, jaquetão de couro, bigodão imponente. Olha ali, apareceu de novo! Foi dar uma força à campanha em prol das vítimas de hanseníase e passou batido na notícia. Dali, sumiu mais uma vez. E o MORHAN teve de chamar outro garoto-propaganda para suas campanhas. Ficou o Ney Matogrosso. "Nós gostaríamos muito de continuar com o apoio do Belchior, mas não conseguimos mais falar com ele", comenta uma funcionária do grupo.

Os fãs criaram sites e comunidades no Orkut, onde compartilham todo filete de notícias sobre o ídolo. Uma já conta mais de 12.400 "belchianos". Fizeram até uma espécie de abaixo-assinado virtual pedindo um DVD do "Bel": "Até o Créu tem DVD!", protestam. Mas notícias do seu paradeiro, nada. Indignado com a falta de informações sobre o ídolo, André Lins, de Recife, inaugurou no último mês o site Sempre Belchior, que mantém por conta própria. André leva o hobby como uma ideologia: "Se cada fã fizer sua parte para divulgar a Música Popular Brasileira, dentro de alguns anos o nosso cenário musical será outro, e bem melhor". Se o Belks aparecer, então, melhor ainda.

Por Mariana Filgueiras, do Palma Louca, especial para o Pernambuco.com

______________________

Para ilustrar, a seguir o vídeo citado na matéria em show de Tom Zé em Brasília quando convida Belchior a participar e ele canta a versão
Sweet Mystery of Life



Belchior - "Divina Comédia Humana" - 1982



Observação de Zeca Zines - Interessante notar que o baiano Tom Zé, também vários anos esquecido por seus pares artisticos da Bahia, soube reconhecer no cearense Belchior seu devido valor e prestar um preito de gratidão e reconhecimento a este grande artista brasileiro.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Vídeos de Julia Limaverde

PRÓXIMA ESTAÇÃO





Perturbando o silêncio de sua viagem, desconvencionalizando.


Realizado no Metrô de São Paulo.



ARNALDANÇA





Realizado no show de Arnaldo Antunes em Recife.



COM TATO





Realizado durante workshop de contato improvisação do israelense Tal Avni, em São Paulo.





2012






Metáfora apocalípitica sobre como o ser humano está sufocando a terra com lixo, poluição, concreto. Um rosto que seca, um planeta que sofre com o aquecimento e mudanças climáticas. Um alarde sobre o futuro próximo.


Realizado no Rio de Janeiro.


Julia Limaverde é Cineasta, Produtora, Atriz, e nestas áreas realiza importantes trabalhos. Em sua filmografia e trabalhos, estão registrados vários momentos profissionais.


É bacharelada em Artes Cênicas na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - UNIRIO e bacharelanda em Filosofia na Universidade Estadual do Rio de Janeiro – UERJ; Idealizou e produziu a Mostra do Filme Livre, que acontece anualmente desde 2002 no Centro Cultural Banco do Brasil, e está completando sua 9ª edição em 2010;

Produziu diversos curtas-metragem realizados através da WSet Produções, Ateliê da Imagem, Curta o Curta, Fundição Progresso e Centro Cultural Banco do Brasil no período de 2002 a 2005;



Produziu eventos “Festa do Filme Livre” no Plano Paralelo em 2003, o “Cortejo MFL” nas ruas do centro do Rio de Janeiro em 2004, “Curta com Samba” na Melt em 2005;

Em 2007 produziu a banda João Grilo e Cozinha Brasileira em turnê pelo Rio de Janeiro;

Produziu os documentários “Bhakti Shiatsu” em 2003, “Sentidos da Máscara” em 2008 e em 2009 está participando no projeto Livro, CD e DVD “Massafeira 30 Anos - Som Imagem Movimento Gente”, e vem desenvolvendo trabalhos de produção junto ao artista Ednardo produzindo shows e ativamente nas gravações de imagens para documentários e DVD do artista, entre os quais Shows em Fortaleza, Natal, Rio de Janeiro, e outras cidades.


Registros de sua Filmografia:


2008 - Arnaldança

2008 - Sentido da Máscara


2007 - 2012


2005 - Eliseu


2004 - Dois Argumentos Para Um Filme Verdadeiramente Livre


2004 - Nos Andaimes


2004 - Nozes


2004 - O Ovo Colorido


2004 - Triângulo


2004 - Uma Noite com Aderbal Lacerda (Seu Criado)


2003 - Viralata


2003 - Bhakti Shiatsu


2002 - Batizado


2002 - Malabares

domingo, 26 de julho de 2009

Beiramar - Ednardo - Massafeira - 30 Anos

Beiramar - Ednardo - Show Massafeira - 30 Anos

Fortaleza 29 Maio 2009 - Praça do Ferreira

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Nomes e Fotos de Participantes MASSAFEIRA



RELAÇÃO PARCIAL DE PARTICIPANTES DA MASSAFEIRA 1979 / 1980

Com informações gentilmente colocadas à disposição pela AURA EDIÇÕES MUSICAIS, pelos Artistas e Produtores da Massafeira, anos 1979 e 1980, conseguimos, após detalhada pesquisa, recompor a relação dos nomes de participantes, suas áreas de atuações, especialidades e locais de origem.

Pela lista de participantes e suas áreas de abrangência, nota-se a importância da Massafeira, para todos os participantes e público geral naquele momento em Fortaleza, na Artes, Culturas, Costumes e Músicas Brasileiras.

Possívelmente, faltam nomes, na lista (por Ordem Alfabética), ou necessidade de correções, ao reconstituir registros de evento de tal magnitude, atualizações sempre serão bem-vindas.

Solicitamos aos participantes e público, contribuir com informações, fotos, vídeos, filmes, registros, etc., completando dados.

São mais de trezentos e cinquenta nomes, das mais diversas áreas de manifestações das artes, culturas e costumes de uma grande parte do Brasil, que pela primeira vez, naquele momento, se uniram espontaneamente, e até então única, esta energia foi levada ao público, sem filtros e disponibilizadas ao acesso de todos.

http://www.ednardo.art.br/masspart.htm


FOTOS DE ALGUNS PARTICIPANTES

Fotos de vários momentos Massafeira, (preparação 1978) - Show lançamento do disco Cauim - Ednardo. Massafeira Livre, (1979) quatro dias de Shows - Teatro José de Alencar, Fortaleza.

Massafeira Livre estúdios de gravação CBS Rio de Janeiro, (junho e julho 1979).

Shows de lançamento do disco duplo Massafeira em quatro dias (outubro 1980), no Teatro José de Alencar.

Existem muitos registros de fotos realizadas por diversas pessoas que ainda não estão neste album, quem quiser contribuir para o acervo que é de todos sobre um dos maiores momentos artisticos que envolveram áreas da música, poesia, artes plásticas, cinema, literatura, teatro, artesanatos, comidas típicas, cultura popular e diversas outras formas de manisfestações, basta enviar para Zeca.Zines@gmail.com que a seguir estará no álbum.

Grande parte de fotos foram realizadas por Gentil Barreira, também participante da Massafeira.


http://picasaweb.google.com.br/Zeca.Zines/MASSAFEIRALIVRE#

terça-feira, 21 de julho de 2009

A Memória Musical Cearense












Existem muitas formas de olharmos para a história da música cearense. É possível observarmos as trajetórias e produções de seus artistas, músicos, compositores, cantores, arranjadores, produtores culturais, etc. Este viés nos leva a uma análise micro-social e nos mergulha em uma diversidade riquíssima. O ângulo macro-social, por outro lado, permite perceber eventos que aparecem como marcadores, é como se fossem âncoras que nos levam a momentos que catalisam pensamentos, tendências, sonhos e se traduzem em unidade.

O Massafeira Livre que reuniu mais de uma centena de artistas nos dias 15,16, 17 e 18 de março de 1979 no Theatro José de Alencar certamente é um evento que figura em nossa história como um marco, assim como outros discos e eventos que merecem nossa atenção, por exemplo: “I Festival de Música Popular Aqui no Canto” - 1969, que gerou um disco de mesmo nome.


Este é o irmão mais velho com 40 anos de idade que já contava com a arte da capa do poeta e arquiteto Antônio José Soares Brandão, o mesmo que pintou o carneiro no cartaz de divulgação e disco do aniversariante 10 anos mais novo - o Massafeira.
Neste mesmo ano nasce um irmão gêmeo bi-vitelino, o “Soro”, um projeto coletivo iniciado em Fortaleza com Francis Vale e que agregou um grande número de artistas de vários lugares do Brasil sob o comando de Fagner.



O período 1969-1979 revela dez anos de intensa produção musical do Ceará para o Brasil e para o mundo. Alguns outros discos também nos servem de referência para compreendermos melhor esse período: o “Disco de bolso do Pasquim” editado pela revista histórica Pasquim que, em 1972, deu uma projeção muito maior para o nome de Fagner.

Pasquim era uma edição impressa produzida por jornalistas de esquerda que veiculavam as idéias consideradas de vanguarda naquele período. O objetivo era reunir um artista consagrado com um estreante, no primeiro número o “novato” era João Bosco ao lado de Tom Jobim e o segundo registrou de um lado Caetano Veloso cantando “A volta da Asa Branca” de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira e do outro lado do compacto Fagner cantando sua parceria com Belchior, Mucuripe.

A boa recepção que Fagner obteve com Mucuripe chegou ao conhecimento de Elis Regina que gravou a música no mesmo ano pela Phonogram. O reconhecimento ao artista cearense rendeu-lhe um contrato com a gravadora Philips em 1972, quando foi convidado para registrar mais quatro músicas em um compacto: de um lado Fim do mundo, em parceria com Fausto Nilo, e Cavalo Ferro, em parceria com Ricardo Bezerra, do outro lado Quatro graus de latitude, em parceria com Dedé Evangelista, e Amém, amém, com letra e música de Fagner.

Ainda em 1972, Ednardo, Rodger e Téti gravam pela Continental o disco Meu Corpo Minha Embalagem Todo Gasto na Viagem, que tem como sub-título o nome que nos serve de referência para identificação desta geração de artistas: “Pessoal do Ceará”. Importante registrar que essa expressão não foi escolhida pelos próprios artistas, inclusive alguns preferem não utilizá-la, mas é recorrentemente evocada para identificá-los.

O fato de serem projetos coletivos não significa uma harmonia de acordes perfeitos, constituídos apenas por consonâncias. O sentido do trabalho em grupo é diametralmente oposto, pois se enriquece pela diversidade de pensamentos, posicionamentos, idéias que transbordam do mesmo caldeirão cultural. São releituras da antropofagia modernista de 1922. A harmonia musical cresce com a tensão dos acordes dissonantes, na variação dos timbres, na comunicação entre as diversas linguagens.

Hoje, continuamos em plena aprendizagem, ouvindo vozes diferentes que geram tensões que pedem o repouso da tonalidade modernista, mas os tempos pós-modernos já estão vibrando e anunciando que todos os timbres, ritmos, andamentos, percepções diversas de realidade podem e devem expressar suas melodias.

Relembremos esses marcadores de nossa história musical: I Festival de Música Popular Aqui no Canto, Massafeira Livre e Soro.

Pedro Rogério
Especial para O POVO
01 Mai 2009

PEDRO ROGÉRIO é Professor da Universidade Federal do Ceará. Pesquisador, cantor, compositor e radialista. Mestre e doutorando em Educação Brasileira pela UFC. Publicou o livro Pessoal do Ceará: habitus e campo musical na década de 1970

Imagem da capa do disco MASSAFEIRA lançado em outubro 1980

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Massafeira Livre - 30 Anos


Ednardo - Folia ou Pressa de Clésio Ferreira e Augusto Pontes.

Massafeira Livre - 30 Anos

Música: CARNEIRO Ednardo e Augusto Pontes



Cavalo Ferro - Fagner e Ricardo Bezerra - Com Ednardo Teti e Rodger Rogério

Show MASSAFEIRA 30 Anos - 29 Maio 2009 - Fortaleza - Praça do Ferreira

Massafeira Livre - Show comemorativo de 30 anos do movimento com: Ednardo, Teti, Rodger Rogério, Manassés, Régis Soares, Rogério Soares, Chico Pio, Lucio Ricardo, Calé Alencar, junto aos Músicos: Luis Miguel, Carlinhos Patriolino, Nilton Fiore, Carlinhos Ferreira, Glauco Foguinho, Rômulo Santiago, Denilson Lopes, Tony Maranhão.

Fortaleza - 29 Maio 2009 - Praça do Ferreira.

Música - Reizado de: Graco / Stélio Valle / Augusto Pontes

segunda-feira, 29 de junho de 2009

MASSAFEIRA LIVRE - ROCK.DOC



Um dos Documentários que estão sendo realizados este ano de 2009, sobre MASSAFEIRA LIVRE, este acima feito pelo SUBVERCINE com alunos do curso ROCK.DOC do Ponto de Cultura ABC Digital - Fortaleza Ceará, durante eventos comemorativos de 30 Anos do Movimento Massafeira em conjunto com o Pessoal do Ceará.

Zeca Zines aplaude com entusiasmo!


Patativa do Assaré

Recita Caboclo Roceiro e Menino de Rua



PESSOAL DO CEARÁ

VIVA Fortaleza Especial 1968 - Movimentos Culturais


domingo, 17 de maio de 2009

Homenagem a Augusto Pontes


































O Blog Zeca Zines, faz Homenagem mais que merecida ao grande filósofo, poeta, autor, publicitário e agitador cultural da cena cultural e musical cearense e brasileira - Francisco Augusto Pontes.

Autor de mais de 200 letras, apenas umas 12 músicas onde contribuiu com suas letras e genialidade, são conhecidas do público ou gravadas, entre as quais: Carneiro e Água Grande em parceria com Ednardo; Lupiscínica em parceria com Petrúcio Maia; O Lago e A Mala em parceria com Rodger Rogério; Velho Demais e Sopa de Saudade e Palmito em parceria com Zeca Bahia; e outras inéditas com um dos fundadores da Tropicália, o baiano Piti que estava residindo em Fortaleza com o qual fez a parceria Caminho do Mar.
Também realizou parceria com os compositores do grupo piauiense residente em Brasília: Climério - Pelada; E Clésio - Folia ou Pressa; e existem outras com o Clodo e também O Mundo Mudar e Pancada do Mar em parceria com Rodger Rogério.

É conhecida a história que várias de suas frases e pensamentos geniais, foram utilizadas por muitos sem o devido reconhecimento de parceria tais como na música e letra de Mucuripe, onde consta apenas como de Fagner e Belchior; e também na letra e música de Apenas um Rapaz Latino Americano, onde consta apenas a autoria de Belchior - ambas sem citarem a parceria fundamental de Augusto Pontes, quando justamente estas frases poéticas - "Vida, Vento, Vela - Leva-me Daquí"; e Eu sou apenas um rapaz, latino americano, sem dinheiro no banco e sem parentes importantes" - foram fundamentos e esteios principais na construção destas duas músicas e letras, o LEIT-MOTIV.

Assim como estas situações, existem muitas outras.

Em homenagem a esta grande figura humana, Zeca Zines transcreve de forma condensada uma sequencia de matérias publicadas sobre Augusto Pontes, que nos deixou recentemente, para que muitos outros saibam sobre sua importância cultural tanto para o Ceará quanto para o Brasil.

_____________________________________


Paulo Linhares - Especial para o Jornal O POVO - 16 Maio 2009
Ex - Secretário de Cultura do Estado do Ceará que substituiu o então Secretário de Cultura - Augusto Pontes durante o período da gestão do Governador Ciro Gomes.


O RAPAZ LATINO AMERICANO


Augusto Pontes foi o melhor pensador contemporâneo do Ceará.
Numa época cheia de celebridades fúteis e fátuas, nada mais dúbio do que a concordância imposta a nós pela homenagem momentânea.
Principalmente aqueles que encontraram em vida uma concordância permanente com o público. Não é o caso de Augusto. O que caracterizou seu pensamento foi exatamente nunca ter se reconciliado candidamente com o mundo em que viveu.
Sua acidez, ironia e verve desconcertante o faziam um permanente desafiador de ideias feitas. Como na doutrina grega das paixões, que incluía a cólera entre as emoções agradáveis, mas situava a esperança e o medo entre os males, Augusto Pontes demolia o bom senso careta dominante no campo intelectual com uma cólera quase santa.
Em todos os momentos. Basta lembrar quando Augusto era professor da Universidade Nacional da Brasília e a burguesia estudantil, filha do poder, brincava de fazer revolução, numa assembleia estudantil.
Convidado a discursar, Augusto disse que a única coisa que eles, inconfessadamente, gostariam de reivindicar, era mais vagas no estacionamento da universidade.
A cólera de Augusto Pontes contra a ignorância bem situada era cheia de humor, e o tipo de riso atônito que provocava tentava realizar a sua reconciliação com o mundo.
Sim, mas se seu humor o ajudava a encontrar o seu lugar no mundo, não o levava a vender sua alma a ele. Era um pensamento que sempre provocava incômodo, pois jamais se reconciliava com o óbvio.
Se o seu gênio não combinava com o dos homens com o gosto acertado, ele não abandonava o sólido terreno do real. No pensamento de Augusto Pontes, a têmpera desconstrutivista se associava a uma curiosa objetividade cheia de detalhes.

O que nunca permitia que sua atitude intelectual o levasse a perder de vista a relação com o mundo e o estatuto real das coisas do mundo que ele atacava. Assim, as famosas “pontes para a comunicação” e as “pontes para a cultura”, fundamentos teóricos que ele divulgava em todo espaço público, colocavam seu pensamento longe da ideia de um indivíduo fechado.
Elas possibilitam afirmar que sem Augusto Pontes não existiria a atitude ousada e avisada que permitiu Ednardo, Belchior, Fagner, Rodger, Teti, etc., em seus melhores momentos, se transformassem em artistas muito maiores.

O texto da música Carneiro, imortalizada por Ednardo, é a mais perfeita tradução do campo cultural cearense: “Amanhã se der carneiro/vou mimbora daqui pro Rio de Janeiro. As coisas vem de lá... E vou voltar em vídeo tapes e revistas multicoloridas. Pra menina meio distraída repetir a minha voz: Que Deus salve todos nós e Deus salve todos vós”.

O impasse da vida artística digna num Estado pobre.
A centralização da indústria cultural sudestina.
A vontade humana, demasiadamente humana de conquistar plateias.
A súplica cearense por uma salvação tardia.
Tá tudo na letra Carneiro.

Com suas “Pontes para a comunicação”, Augusto nos ensinou a partir de sua cátedra real da Scala Publicidade, a melhor agência de propaganda que o Ceará já teve, que nossa propaganda poderia ter a nossa cara, sem ser piegas, autocomplacente, atrasada.

Augusto desafiou a caretice da nossa esquerdolatria ironizando as viúvas da ditadura, quando ninguém tinha coragem de fazê-lo.
Augusto desafiou a caretice universitária fazendo tremer os pilares das verdades bem conhecidas, onde quer que imponham os olhos.

Mas a crítica de Augusto nunca tomou partido em prol de uma irrascibilidade política desantenada com o mundo cearense.

Ele nunca acreditou no moralismo pequeno burguês udenista da pequena denúncia, e sempre incentivou o pensamento largo, ousado, apontando numa perspectiva capaz de nos salvar da miséria intelectual que nos livraria da miséria econômica.
Sua obsessão com a superação desta pobreza atávica intelectual e artística nunca o levou a usar nem a muleta do pauperismo, da tal cultura popular, nem a lógica coercitiva do pensamento acadêmico bem comportado.

Dizia sobre os primeiros que o mérito do cego não está no guia e para os outros criou um projeto de Escola de Comunicação - a Ecoa - que um dia será a grande base teórica para as mudanças que precisamos fazer nos cursos de comunicação.

Que Augusto tenha morrido pobre, sofrendo com os impasses duma cidade medíocre e bárbara, num dos períodos mais obscuros de sua vida urbana, só me leva a lembrar algumas frases de Hanna Arendt. “A história conhece muitos períodos de tempos sombrios, em que o âmbito público se obscureceu e o mundo se tornou tão dúbio que as pessoas deixaram de pedir qualquer coisa à política além de que mostre a devida consideração pelos seus interesses vitais e liberdade pessoal”.

Os grandes homens são raros, como as obras primas. O rapaz latino americano de sua famosa carta “sou apenas um rapaz latino americano, sem dinheiro no bolso, sem parente importantes”.... se foi.

Mas seu pensamento vai fertilizar nossa terra, porque, parafraseando W. Benjamin, ele se manteve sempre como alguém que consegue ficar à tona num naufrágio, capaz de subir ao topo de um mastro que já desmorona.
E dali ele teve uma oportunidade de fazer sinais que nos levarão à salvação.
-
PAULO LINHARES também é publicitário e diretor de conteúdo e marketing da TV O POVO.


____________________________
AUGUSTO PONTES - O GURU AOS 70

Dalwton Moura
Diário do Nordeste - Caderno 3 - 2006


Jornalista, publicitário, compositor, ex-secretário de Cultura, Francisco Augusto Pontes chega hoje aos 70 anos.
Em entrevista ao Caderno 3, rememora passagens da infância na Fortaleza das lâmpadas pintadas de preto, em plena Segunda Guerra, dos tempos de universidade, da reunião dos que viriam a ser conhecidos como “Pessoal do Ceará”.
A publicidade na década de 70, a Massafeira Livre, os caminhos da cultura e os encontros e desencontros dos músicos cearenses - entre o sucesso nacional e o desconhecimento no próprio quintal - também entraram na prosa, bem-humorada e saborosa pelas tiradas características que fazem de Augusto um referencial para várias gerações.

Com a palavra, o guru:

Caderno 3 — Vai ter festa para essa data especial, ou você prefere ficar mais tranqüilo nessas ocasiões?

Augusto Pontes— Não, não vai ter festa não (risos)... É um dia normal. Às vezes o pessoal aparece, a gente se encontra. Mas não tem começo certo não...

— Fazendo 70 anos, que lembranças você tem da sua infância em Fortaleza? O que mais marcava na cidade, naquela época?

Augusto— Eu nasci na antiga Vila Maciel, perto da Serrinha, no caminho de Maranguape. Papai tinha lá um sítio. Acho que ainda deve ter o lugar, um nome tão simpático.
Mamãe veio pra cá, morar em Fortaleza. Sempre morei por aqui. Só morei aqui e, já bem depois, nos anos 70, por ali, em Brasília e em Teresina.
O que me lembro mais de Fortaleza naquele tempo é que a gente tinha que pintar de preto as lâmpadas incandescentes, do lado que dava para o mar, por causa do negócio da guerra.
Eu morava na praia, ali na Tenente Benévolo, e as casas usavam esse artifício. Todo mundo tinha que fazer isso.
Papai, muito habilidoso, gostava de fazer essas coisas. Lembro dos primeiros passeios na Praça do Ferreira e na Gentilândia, onde tinham os pontos de encontro, a turma do futebol. Tinha os times do Gentilândia, do Peñarol, o próprio Ceará ficava perto, o 24 de Maio, que a sede era na Marechal Deodoro. Do outro lado, o (estádio) Presidente Vargas.

— E os primeiros contatos com os livros, como se deram? Por influência da família?

Augusto— É, os primeiros contatos foram muito cedo, em casa, com meu pai, que me apresentou Machado de Assis, Monteiro Lobato, Humberto de Campos... Lembro de ter lido bastante no Seminário da Prainha, onde passei um ano só, mas também foi o suficiente.
Fiz o primário no 7 de Setembro e de lá fui pro Seminário. Passei só um ano, por incompatibilidade de gênios (risos)... Sempre fui muito à vontade, e com aquela disciplina não consegui continuar.
Mas valeu o ano que estudei lá, valeu pelo primário bem feito. Aí a gente não precisa estudar mais nunca, né? Você aprende a ler e a saber o que está lendo...

— E como foi que você descobriu a música?

Augusto— Nas serestas. Tinha muitas serestas naquele tempo, muitas. E o rádio também, os auditórios de rádio, que eu gostava de ir, a PRE-9, a Rádio Iracema... O rádio tinha um “cast” grande de cantores, músicos. As rádios tinham orquestra.
Tinha muito também as quermesses, e muitos regionais, muitos cantores. A música era muito presente na vida de Fortaleza. Tinha os trios, os grupos vocais que se formavam, os Vocalistas tropicais, Quatro Ases e um Coringa, Trio Nagô, Trio Jangadeiro, até o Trio Irakitan tinha um integrante cearense. Já os discos só vieram depois que o comércio, o “marketing” trouxe. O primeiro toca-disco em casa, lembro que foi muito tardiamente. Tinha mais era rádio, as novelas de rádio, como “Penumbra”, “Renúncia”, “O Direito de Nascer”, com trilha.

— Você trabalhou em rádio...

Augusto— É, depois do Seminário fui fazer técnica de contabilidade, e virei perito contador. Mas até hoje tenho dificuldade em fazer imposto de renda, como todo mundo (risos).
Mas eu trabalhei em rádio sim, muitos anos. Escrevia programas, fui diretor artístico da Uirapuru, da Dragão do Mar, trabalhei na Rádio Nacional de Brasília.
Por conta disso até eu fui fazer o curso de jornalismo, pra poder ter o direito de ser jornalista. Não engolia muito bem esse negócio de ser jornalista prático.

— E a publicidade, Augusto? Você trabalhou naquela que é considerada por muitos uma espécie de “época de ouro” da publicidade cearense, em que havia mais romantismo, mais charme na atividade. Era isso mesmo, ou há uma certa mitificação nisso?

Augusto— Acho que não. A década de 70 foi realmente a melhor época da publicidade aqui.
A Scala, a Mark, a Slogan, a Terraço, em todas as grandes agências eu trabalhei.
Lembro de trabalhar inclusive com o grande Gilmar de Carvalho, muito modesto, que a custo se tornou redator, porque achava que não era, apesar de ser gênio, de ser um grande escritor.

Agora, tinha mais romantismo na publicidade daquela época. Era muito mais intuitiva, muito mais artística. E tinha muitos casos curiosos também.

Lembro de um deles, em que mandaram retirar uns outdoors do óleo Pimentel, que diziam “Quem assina o que faz garante muito mais”. E o Moisés Pimentel era candidato nas eleições. O outdoor mostrava um carro de supermercado e uma lata. Era quase uma urna e um voto (risos).Tinha aqueles anúncios famosos do Bento Alves, do Macarrão Fortaleza, “Quando a comida é boa, ninguém quer largar”... Esse quase vai proibido também.

Outro, de TV, tinha uma cozinheira cantando: “É só uma pitada de sal nesse programa insosso”, e anunciando o sal Marissol. A TV queria proibir, porque mangava da própria TV. Ficaram chateados, reclamaram, e aí gentilmente, tiraram o anúncio.

Uma coisa tão inocente! Lembro que a Coelce, a Teleceará anunciavam muito nessa época.

Tinha também o sabão Pavão: ´Uma mão lava a outra com perfeição e as duas lavam tudo com Pavão´. Enfim, a publicidade era uma atividade muito romântica, era uma alegria fazer.

Eu fiz muitos textos, muitos jingles. Hoje, os publicitários se acham muito geniais.

Naquele tempo a gente saía pra beber, convivia mais.

Não sinto saudade do futuro

Caderno 3 — Não sei se isso veio a partir da publicidade, ou se foi o inverso, mas uma das suas maiores características é a facilidade para bolar “slogans”, títulos, frases. Como surgiu esse hábito?

Augusto Pontes — Eu atribuo essas coisas à proximidade com o povo, com a vida. Acho que não é nada especial meu não. Era uma característica não só minha, mas de muita gente. É uma coisa da nossa cultura.

— Mas frases clássicas como “Quando a mesa cresce, a cultura desaparece”, que se conta que você dizia quando juntava gente demais no Bar do Anísio, têm uma assinatura sua...

Augusto — É verdade... Nos coquetéis de lançamento de livro era “A cultura em álcool imersa, logo dissipa e dispersa” (risos). Essas frases sintetizam as coisas. "O sertanejo é antes de tudo um forte. Avalie no Rio Grande do Norte" (risos).

Agora, o pessoal inventa muita coisa e atribui a mim. Tem muita coisa que dizem que eu dizia, e eu nem pensei.

— E as frases usadas no meio musical, como “Meu corpo, minha embalagem, todo gasto na viagem”?

Augusto— Essa, que acabou dando título ao primeiro disco dos cearenses (o LP conhecido como “Pessoal do Ceará”, lançado em 1973 por Ednardo, Téti e Rodger Rogério), era de uma letra enorme que eu tinha, e que só musicaram algumas partes.

“Vida, vento, vela, leva-me daqui”, o final do “Mucuripe” (clássico de Fagner e Belchior). Tinha algumas frases que eram usadas pela turma, “Eu sou apenas um rapaz latino-americano”, na música do Belchior... Eu considero isso uma homenagem, não faz mal nenhum terem usado não.

Nunca pedi parceria por isso. São todos grandes amigos, é natural que um use uma frase ou outra.
Sempre digo que o plágio é um atestado de humildade.

Porque, se eu vou fazer uma canção, eu não consigo usar uma frase de outro. Agora, o nosso amigo Aldir Blanc fez uma música e chamou “Lupiscínica”, e não colocou “Lupiscínica 2”.

Aí é outra coisa. É chato, dói, porque ele inclusive grafou igualzinho. Aí fiquei chateado.

— O Rodger Rogério e o Petrúcio foram os primeiros parceiros?

Augusto— O meu primeiro parceiro foi o Rodger sim. Depois o Petrúcio. Com o Rodger fiz inicialmente “Mundo, mudar” e “A pancada do mar”. Acho que eu tinha uns 26 anos por ali. Ele entrou na universidade cedo, eu entrei tardiamente. Tinha ficado muito tempo sem estudar, abandonei ali no primeiro ano colegial. Depois voltei e fiz de tudo.— Que impulso te levou a ser compositor popular?

Augusto— Não teve nada assim... Eu achava bonitas aquelas músicas e queria fazer também. Tive a sorte de encontrar parceiros, e acho que levava jeito. Lembro de toda aquela música, do rádio, das quermesses, dos cantores.
Depois, a bossa nova foi uma grande influência pra gente. Fazer música passou a ser um interesse não só meu, mas de muita gente em Fortaleza.

— Chama a atenção a diferença de linguagem, o salto estético daquela geração. Se não eram propriamente um grupo, como muita gente faz questão de lembrar, vocês compartilhavam dessa intenção de fazer uma música diferente, moderna?

Augusto— Era, havia essa vontade. Isso vinha muito da literatura. Graciliano, Guimarães, Clarice Lispector, aquela invenção de palavras. Tanto que, como criadores de música, somos anteriores aos baianos.
Mas quando os baianos surgiram, aconteceram (fizeram sucesso), ficamos entusiasmados. Havia esse desejo de fugir daquela coisa mais antiga da canção popular. Um desejo de incluir outros sentimentos, cantar o amor, a terra e a vida misturados...

E fomos incentivados por muitas coisas, havia um movimento de criação em todo o Brasil, com o Cinema Novo, o teatro... Isso refletiu em toda a turma de cantores e compositores que se chegou entre a Universidade, a Praça do Ferreira, o TJA e o Bar do Anísio.

— Mas quando é que o ato de fazer música deixa de ser apenas essa criação mais descompromissada e passa a ser uma pretensão artística e profissional?

Augusto— Acho que desde muito cedo a gente tinha intenção. Tem a música, né: “Amanhã se der o carneiro, carneiro / Vou-me embora daqui pro Rio de Janeiro”.
Agora, quando todo mundo foi, em 74, por ali, essa parte é um pouco triste. Eu até me ausentei da composição, dei um recessozinho.
Porque tornou-se uma coisa mecânica, meio de vida. Aí tinha todos os ingredientes dos interesses.
Éramos uns 300, né, mas ficaram resolvendo as coisas só com uns três ou quatro. Aí não dava, né?
Três ou quatro eram os baianos, que agora são 300. É o contrário.

— Havia, então, muita desunião entre os integrantes do chamado “Pessoal”?

Augusto— Não sei se desunião, acho que nem hoje tem desunião não. O que houve com os cearenses foi que, antes deles ganharem dinheiro, brigaram. Brigaram, se separaram. Aí diminuiu da turma toda pra três rapazes.
Três rapazes não davam conta! Começa a pintar cachê, a vaidade de aparecer, uns se achando melhores que os outros. Qualquer canção, quando desponta, é muito bonita, toca mais que outra que ninguém conhece.
Isso é o que me salva um pouco, porque “Carneiro”, “Lupiscínica” nunca saem de moda.

— Você se ressente de não ser mais reconhecido pelo público, não ter sua obra mais visitada?

Augusto— Ao contrário: eu me acho mais conhecido do que mereço. Não me ressinto disso não. Acho que é isso mesmo. Acho que tá tudo bem, tá tudo certo.
Não tenho saudades do futuro. Fiz até uma brincadeira: digo que não tem presente, ou é passado ou é futuro.
Até na Secretaria de Cultura, usava esse eixo: passado, presente, futuro.

— Você recebeu muitas críticas na sua gestão na secretaria. Faz uma autocrítica, ou se sentiu perseguido?

Augusto— Ali, qualquer pessoa que se debruçar vai compreender. A secretaria era muito ligada a negócio de coquetel, beletrismo. Aí mudou: entrou a culinária, a música popular, o folclore, o artesanato.
Virou cultura mesmo, e a arte foi pro seu lugar de crítica da cultura.
Os meus amigos mais chegados ficaram decepcionados, um até me disse que eu desconheci os amigos. E eu explicava: “Você é meu amigo, mas não é amigo do secretário”.

Mas eu acho que valeu a pena meu sacrifício ali, minha dedicação. Eu não soube fazer direito, mas quem veio depois soube fazer.
Quando o Ciro (Gomes) me convidou, senti a responsabilidade: “Mas rapaz, secretário de cultura, eu nunca fui”. E ele: “E eu nunca fui prefeito”. Aí calou minha boca.
Eu era muito crítico, mas acho que me dei bem. Muitos compreenderam, elogiaram. Mas críticas tinha que haver, pelo rumo da cultura no País.

— E a Massafeira: seria possível algo semelhante hoje?

Augusto— A Massafeira foi um movimento que explodiu. Ninguém é autor dele. Todos participaram. Era uma explosão da vida. Era muita gente criando, muitas coisas lindas, uma vontade de fazer. Esse é outro papel que eu acho que deve caber a uma secretaria de cultura: não querer programar, e sim incentivar. Deixar que as pessoas programem. Dali saíram vários artistas, Lúcio Ricardo, Mona Gadelha, Stélio Valle, grandes nomes, mas que ficaram espremidos.

Como atualmente tem muitos intérpretes e instrumentistas incríveis no Ceará, mas a tendência é ficar só um fazendo sucesso. Agora, independente disso, com certeza poderia haver hoje em dia algo parecido com o que a Massafeira foi em 79. Só falta alguém coordenar, sem ser pra mostrar só as suas obras.
Daria pra fazer uma coisa forte nacionalmente, pra dar um sossegozinho aos baianos. Eles trabalham demais (risos).

— Pra completar, como é que você lida com esse título de “guru”? E o que o guru tem como objetivo, daqui por diante?

Augusto— Que guru, nada! Nunca ocupei esse lugar. Ao contrário: gurus são esses homens cultos do Ceará. Eu soube me aproximar deles. Mas nunca me achei guru.
Eu sempre tive foi tendência a ligar as pessoas, aproximar quem nem sonhava em se encontrar. Os amigos de hoje são os de sempre, o Rodger, o Francis (Vale, cineasta e produtor), o Fausto (Nilo, compositor), que é minha grande inveja. Eu queria ser o Fausto Nilo, quando eu crescer (risos).

Hoje, com 70 anos, moro com duas das minhas quatro filhas, e quero é viver mais. É muito bom estar vivo nesse momento, o País sendo feito, as pessoas reclamando, mas sem parar pra entender, né?
Se houver uma crise de sinceridade, aí melhora tudo. Imagina as pessoas confessando que não sabem fazer tudo, admitindo que precisam do outro. Olha que sonho! Antigamente era assim, e a gente fazia as coisas.

(DM)

sábado, 14 de março de 2009

Incoerência católica

Artigo publicado em 14 de março de 2009 no jornal Folha de São Paulo, pelo escritor e médico Dr. Drauzio Varella.


http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1403200923.htm

------------------------------------------------------------------------------------

Os males que a igreja causa em nome de Deus vão muito além da excomunhão de médicos


AOS COLEGAS de Pernambuco responsáveis pelo abortamento na menina de nove anos, quero dar os parabéns. Nossa profissão foi criada para aliviar o sofrimento humano; exatamente o que vocês fizeram dentro da lei ao interromper a prenhez gemelar numa criança franzina.Apesar da ausência de qualquer gesto de solidariedade por parte de nossas associações, conselhos regionais ou federais, estou certo de que lhes presto esta homenagem em nome de milhares de colegas nossos.
Não se deixem abater, é preciso entender as normas da Igreja Católica. Seu compromisso é com a vida depois da morte. Para ela, o sofrimento é purificador: "Chorai e gemei neste vale de lágrimas, porque vosso será o reino dos céus", não é o que pregam?

É uma cosmovisão antagônica à da medicina. Nenhum de nós daria tal conselho em lugar de analgésicos para alguém com cólica renal. Nosso compromisso profissional é com a vida terrena, o deles, com a eterna. Enquanto nossos pacientes cobram resultados concretos, os fiéis que os seguem precisam antes morrer para ter o direito de fazê-lo.
Podemos acusar a Igreja Católica de inúmeros equívocos e de crimes contra a humanidade, jamais de incoerência. Incoerentes são os católicos que esperam dela atitudes incompatíveis com os princípios que a regem desde os tempos da Inquisição.

Se os católicos consideram o embrião sagrado, já que a alma se instalaria no instante em que o espermatozoide se esgueira entre os poros da membrana que reveste o óvulo, como podem estranhar que um prelado reaja com agressividade contra a interrupção de uma gravidez, ainda que a vida da mãe estuprada corra perigo extremo?

O arcebispo de Olinda e Recife não cometeu nenhum disparate, agiu em obediência estrita ao Código Penal do Direito Canônico: o cânon 1398 prescreve a excomunhão automática em caso de abortamento.

Por que cobrar a excomunhão do padrasto estuprador, quando os católicos sempre silenciaram diante dos abusos sexuais contra meninos, perpetrados nos cantos das sacristias e dos colégios religiosos? Além da transferência para outras paróquias, qual a sanção aplicada contra os atos criminosos desses padres que nós, ex-alunos de colégios católicos, testemunhamos?

Não há o que reclamar. A política do Vaticano é claríssima: não excomunga estupradores.
Em nota à imprensa a respeito do episódio, afirmou Gianfranco Grieco, chefe do Conselho do Vaticano para a Família: "A igreja não pode nunca trair sua posição, que é a de defender a vida, da concepção até seu término natural, mesmo diante de um drama humano tão forte, como o da violência contra uma menina".

Por que não dizer a esse senhor que tal justificativa ofende a inteligência humana: defender a vida da concepção até a morte? Não seja descarado, senhor Grieco, as cadeias estão lotadas de bandidos cruéis e de assassinos da pior espécie que contam com a complacência piedosa da instituição à qual o senhor pertence.

Os católicos precisam ver a igreja como ela é, aferrada a sua lógica interna, seus princípios medievais, dogmas e cânones. Embora existam sacerdotes dignos de respeito e admiração, defensores dos anseios das pessoas humildes com as quais convivem, a burocracia hierárquica jamais lhes concederá voz ativa.
A esperança de que a instituição um dia adote posturas condizentes com os apelos sociais é vã; a modernização não virá. É ingenuidade esperar por ela.

Os males que a igreja causa à sociedade em nome de Deus vão muito além da excomunhão de médicos, medida arbitrária de impacto desprezível. O verdadeiro perigo está em sua vocação secular para apoderar-se da maquinária do Estado, por meio do poder intimidatório exercido sobre nossos dirigentes.

Não por acaso, no presente episódio manifestaram suas opiniões cautelosas apenas o presidente da República e o ministro da Saúde.
Os políticos não ousam afrontar a igreja. O poder dos religiosos não é consequência do conforto espiritual oferecido a seus rebanhos nem de filosofias transcendentais sobre os desígnios do céu e da terra, ele deriva da coação exercida sobre os políticos.

Quando a igreja condena a camisinha, o aborto, a pílula, as pesquisas com células-tronco ou o divórcio, não se limita a aconselhar os católicos a segui-la, instituição autoritária que é, mobiliza sua força política desproporcional para impor proibições a todos nós.

quinta-feira, 5 de março de 2009

100 Anos de Patativa do Assaré

Hoje, 5 de março, o poeta Patativa do Assaré completaria 100 anos.

A terra e o homem sertanejo transfigurados em poesia pôs o sertão cantado no centro dos temas políticos cruciais para o Brasil, no secúlo XX. “Sobre política eu faço é ironia, é crítica”.
A frase está registrada no livro Patativa, poeta pássaro do Assaré, do pesquisador e professor da Universidade Federal do Ceará, Gilmar de Carvalho.

Quase quatro década antes, Patativa deixara escrito na autobiografia que escreveu para o livro Inspiração Nordestina, em 1956: “Não tenho tendência política, sou apenas um revoltado contra as injustiças que venho notando desde que tomei algum conhecimento das coisas, provenientes talvez da política falsa, que continha muito fora do programa da verdadeira democracia”.

Mesmo sem partido, Patativa do Assaré foi um poeta engajado do seu jeito. Não teve causa social a partir dos anos 60 do século XX que Patativa não tivesse tratado em sua poesia. Cantou a reforma agrária muito antes de se ligar a militantes das Ligas Camponesas e de surgir o Movimento dos Sem Terra, fez versos contra a ditadura militar e pelas Diretas Já.

E foi, sim, o maior cantador das desigualdades sociais do Brasil. O realismo dos versos não embelezaram a feiura da pobreza que até hoje assola bolsões nos centros urbanos e rurais.


POÉTICA DA LIBERDADE
http://www.opovo.com.br/opovo/vidaearte/860567.html

__________________________________________


Brasi de Cima e Brasi de Baxo
(Trecho)

(Cante lá que eu canto cá)


Meu compadre Zé Fulô,
Meu amigo e companhêro,
Quage um ano que eu tou
Neste Rio de Janêro;
Eu saí do Cariri
Maginando que isto aqui
Era uma terra de sorte,
Mas fique sabendo tu
Que a miséra aqui no Su
É a mesma do Norte

Tudo o que procuro acho.
Eu pude vê neste crima,
Que tem o Brasi de baxo
E tem o Brasi de Cima
Brasi de Baxo, coitado!
É um pobre abandonado;
O de cima tem cartaz,
Um do ôtro é bem deferente:
Brasi de Cima é pra frente,
Brasi de Baxo é pra trás

Aqui no Brasi de Cima,
Não há dô nem indigença,
Reina o mais soave crima
De riqueza e de opulença;
Só se fala de progresso,
Riqueza e novo processo
De grandeza e produção.
Porém, no Brasil de Baxo
Sofre a feme e sofre o macho
A mais dura privação.

... ... ...

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Ginga Pop - MARACATU

Nasceu na África, chegou ao Brasil nas caravelas, meteu-se nos matos e mocambos, mesclou-se com tapuias e tupis. Começou como história real, virou devoção religiosa e já conta mais de século de vida profana, renovando-se a cada carnaval. Nas últimas décadas, extrapolou os três dias de Momo, entrou para a universidade e faz parte da contemporânea cena musical


Eleuda de Carvalho
da Redação - Jornal O POVO - 05 de Fevereiro de 2005


Minha embaixada chegou. Deixa meu povo passar. Meu povo pede licença. Pra na batucada desacatar (Assis Valente, carnaval de 1934)


Coisa de negro. De negro e branco. De negro, branco e índio.
Totalmente brasileiro, o maracatu é uma das mais bonitas expressões musicais, cênicas e coreográficas do nosso carnaval.
Em especial, no Ceará e em Pernambuco.

Maracatu - O nome, dúvidas de filólogos. Mário de Andrade, o poeta modernista e profundo pesquisador da música popular brasileira, sugere uma origem ameríndia.
Mescla de maracá, o instrumento musical e religioso de tapuias e tupis, e catu, que significa lindeza. Ou, ainda, de mará, guerra. Guerra bonita. Guerra de brincadeira. Resquício das inúmeras, violentas lutas de negros e índios, nesta imensidão do Novo Mundo, contra o domínio de Portugal.


Porto de Ceuta, 1415.

As naus portuguesas chegam ao litoral norte da África pela primeira vez. A viagem faz parte do grande projeto ibérico de reconquista, isto é, da expulsão dos mouros da península.
Porém, os lusitanos não se conformaram em somente tanger os muçulmanos do seu território.

Com apoio da igreja católica, se investiram de cruzados e desbravaram o mundo, a converter infiéis. Já em 1444 acontece a primeira venda pública de escravos em Lisboa.
Dois anos depois, os portugueses aproavam no golfo da Guiné. Negócio rendoso, este da escravaria.


Para o rei e para o papa. Em 1452, o apresamento dos negros da África é reforçado por bula de Nicolau V, que escreveu ao monarca de Portugal: ''Nós lhe outorgamos, pelos presentes documentos, com nossa autoridade apostólica, plena e livre permissão de invadir, capturar e subjugar os sarracenos e pagãos e qualquer outro incrédulo ou inimigo de Cristo, onde quer que seja, como também seus reinos, ducados, condados, principados e outras propriedades e reduzir essas pessoas à escravidão perpétua''.


Em 1482, o navegador Diogo Cão chega ao reino do Congo.
Escreveu uma carta ao rei: ''Na era da criação do mundo de 6881, do nascimento de Nosso Senhor, o mui alto, mui excelente e príncipe el-rei D. João II mandou descobrir estas terras e pôr este padrão por Diogo Cão, escudeiro da sua casa''.

Cão envia uma embaixada de quatro dos seus homens ao manicongo, o rei, na capital de seu reino, a cidade de Mbanza. Como não voltassem, prendeu o mesmo tanto de negros e os levou a Portugal, para serem catequizados e devidamente batizados.

Voltando em 1484, mandou um deles a Mbanza, ao encontro do manicongo. Um cronista da época registrou: ''Todos os grandes do reino estavam em Mbanza. Os portugueses entraram na cidade. O rei estava sentado num trono de marfim colocado sobre um estrado. Coube aos frades entregar ao rei os presentes do monarca português - louças e talheres em ouro e prata; alfaias do culto; pratos de ouro e prata; brocados em peças, panos de seda; veludos de carmezim; painéis de boa pintura; rabos de cavalo guarnecidos de prata. Finalmente surgiu uma cruz de prata, benzida pelo papa Inocêncio VIII. Os portugueses ajoelharam-se. O rei, que tinha o tronco nu, um rabo de cavalo a pender-lhe do ombro esquerdo e manto de damasco a tapar-lhe os pés, inclinou-se. Seguiu-se depois uma ruidosa festa, à maneira africana''. É desses encontros que vem a tradição da embaixada.



Nem todos os manicongos foram tão receptivos quanto aquele. Até porque Portugal não respeitava os tratados nem a receptividade dos nativos. Aprisionavam membros da casa real. Destruíam aldeias e cidades. Tomavam o ouro, o marfim, as peles preciosas. Um clima de revolta no ar. Por volta de 1600, o reino do Congo tem à frente uma rainha, Nginga Nbandi, ou simplesmente rainha Ginga.

Ela foi batizada com o nome de Ana de Souza em 1622 mas, não suportando os desmandos da coroa portuguesa, morreu guerreando em defesa de seu reino. É esta rainha guerreira que vai virar o símbolo principal, embora encoberto, das festas de coroação dos reis do Congo, o Auto dos Congos - brincadeira permitida pelo portugueses tanto em Portugal quanto na imensa colônia da América. Festejo com toda a pompa no adro das igrejas de Nossa Senhora do Rosário. Um momento de saborear a liberdade e a glória perdidas na escravidão. A festa liberava os negros, ao menos por um dia.

Do auto dos congos dos séculos 17 e 18, surgiram os maracatus. No Ceará, há registro deles desde o século 19.
Entraram século 20 adiante, animando os carnavais. Hoje em dia existem em Fortaleza os maracatus Az de Ouro, onde pontifica a figura majestosa do mestre Juca do Balaio; o Vozes d'África, Nação Iracema, Nação Baobab (de Raimundo Praxedes), o Rei de Paus, o Rei Zumbi, o Kizomba (onde brinca Descartes Gadelha) e o estreante Nação Fortaleza.

O maracatu mereceu registros de pesquisadores como Mário de Andrade, Câmara Cascudo e do maestro Guerra-Peixe. Em meados dos anos 60, Jorge Mautner compôs ''Maracatu Atômico'', gravado por Gilberto Gil.

Na década de 70, Alceu Valença, em Pernambuco, e Ednardo, no Ceará, criaram maracatus com levada pop de guitarras. O ritmo ganhará novo e definitivo impulso nos anos 90, com Chico Science e seu Nação Zumbi, que fundiram maracatu rural e hip hop.

Por aqui, Calé Alencar também se dedicava às loas, tanto nos seus discos e shows quanto puxando o cortejo na avenida. O ritmo daqui, tradicionalmente mais ralentado, vem se modificando aos poucos, com introduções de músicos como Descartes Gadelha, que acelerou a levada. A batida dos tambores e a pancada do triângulo de ferro também estão na matriz de uma dezena de grupos e bandas, como Eletrocactus, Dr. Raiz, Kauandes, Kapruk, Soul Nêgo, Dona Zefinha, Batikum, Moraca, Tambores de Guaramiranga, Brincantes Cordão do Caroá, Caravana Cultural e Vigna Vulgaris. Todos com muito ritmo, muita garra, muita beleza. E muita, muita ginga.

Colaborou - Teresa Monteiro

Gamela da nossa mistura.

O cantor e compositor cearense botou o maracatu pra tocar no rádio e na tevê. Com Pavão Mysteriozo, a batida do ferro e o poema de cordel estavam todos os dias na Globo.

Maracatu Estrela Brilhante
Maracatu o teu brilho errante
Gamela da nossa mistura
Tão linda tão mista e tão pura
Maracatu
Garra maracá já guerreiro
Batuque ferro e ganzá
A flecha cravada no céu brasileiro
Infinitamente cantar, cantar, cantar

''Maracatu Estrela Brilhante'', de Ednardo - disco Imã.

A UFC fervilhava, naqueles fins dos anos 60. Aliás: o mundo inteiro ardia com a chama acesa por uma geração insubmissa que ousou subverter os costumes, demolir o poder.
Por estas bandas de cá, esse fogo queimava. Parte dos moços escolheu o sonho da psicodelia ao pesadelo que se anunciava nos clarins dos quartéis. Outra parte preferiu o coletivo à singularidade. Teve também os que costuraram o roto tecido social com as linhas da arte. Mesclando os ingredientes do inconformismo e o combate à velha ordem, criaram acordes novos, dissonantes.

Falaram de tudo isso, do momento, da rebeldia, da força da juventude. É nessa encruzilhada de tempo e espaço que emerge o chamado Pessoal do Ceará. Dentre eles, o estudante de química José Ednardo Soares Costa Sousa.

No princípio, tocaram seus violões, soltaram a voz nos centros acadêmicos, daí aos bares da cidade, aos botecos da beira do mar. Que som é esse?

Um dia, tiveram que sair da aldeia. Brasília. São Paulo. Rio de Janeiro. Pra ''voltar em vídeo-tape e revistas supercoloridas'', como cantou Ednardo em ''Carneiro'', faixa de abertura do seu primeiro disco solo.
Primeiro, veio acompanhado, em 1973. Na capa do LP diferente, a almofada e os bilros da rendeira.
Era o Pessoal do Ceará: Ednardo, Rodger Rogério e Téti (o outro título do disco é Meu corpo, minha embalagem, todo gasto na viagem). Ednardo abre a cena com o maracatu ''Ingazeiras'', que ele fez em homenagem ao artista plástico Aldemir Martins. Depois, outro maracatu assinado por ele, ''Terral''.
Aí vêm ''Cavalo-Ferro'' (Ricardo Bezerra e Fagner), Rodger Rogério cantando ''Curta-Metragem'' (dele e José Evangelista, o Dedé), Téti em ''Dono dos teus olhos'', de Humberto Teixeira.
E ainda tem outro maracatu do Ednardo, ''Beira-Mar''. Pronto. Do asfalto carnavalesco, o maracatu cearense ingressava pela porta da frente na MPB.
Em 74, com O Romance do Pavão Mysteriozo, Ednardo consolida seu caminhar.
Neste disco emblemático, além da faixa título, inesquecível, tem ''Dorothy Lamour'' (de Petrúcio Maia e Fausto Nilo) e ''A palo seco'' (de Belchior). Em 76, ''Pavão Mysteriozo'' é tema de abertura da novela Saramandaia, de Dias Gomes, e Ednardo lança outro LP.

O nome, um luxo - Do boi só se perde o BERRO e é justamente o que eu vim apresentar.
Aqui, a história cearense serve de mote pra canções como ''Artigo 26'' e ''Padaria Espiritual'', ambas sobre o movimento literário que agitou Fortaleza no final do século 19;

Tem ''Passeio Público'', para os confederados, e o maracatu ''Longarinas''. No disco de 77, O Azul e o Encarnado, Ednardo resgata o pastoril (entre as faixas, salta um ritmo maranhense, em ''Boi Mandingueiro''). A reverência aos ancestrais está presente em Cauim, de 78, também título de filme dirigido por Ednardo.

Em 79, o disco Ednardo inclui a saborosa ''A manga-rosa'', a lírica ''Flora'', e a instrumental ''Araguaia''. Parcerias em ''Lagoa de Aluá'' (com Climério e Vicente Lopes), ''Enquanto engoma a calça'' (dele e Climério), além de ''Lupiscínica'' (de Petrúcio Maia e Augusto Pontes).
Em 80, Ednardo lança o solo Imã e o duplo Massafeira (fruto do evento homônimo, que reuniu o Pessoal do Ceará à nova geração - Calé Alencar, Chico Pio, Stélio Valle, Pachelly Jamacaru, os irmãos Fonteles, além da presença luxuosa de Patativa do Assaré).

Ainda nos anos 80, o artista lança Terra da Luz, outro Ednardo e Libertree.
Volta a gravar em 91, o ao vivo Rubi.
Em 2000, Única Pessoa.
Em 2002, lança, com Belchior e Amelinha, um segundo Pessoal do Ceará.
Assina também as trilhas sonoras dos filmes Tigipió, de 85, Luzia-Homem, de 87 (no qual também atua), e O calor da pele, de 94.

Ednardo nasceu em Fortaleza, no dia 17 de abril de 1945. À beira dos 60 anos, o artista continua criando, encantando e influindo em novas gerações por todo o Brasil.

Eleuda de Carvalho

______________________

ENTREVISTA - Concedida por Ednardo à Eleuda de Carvalho - Publicada no O POVO em 25 Fevereiro de 2005.

O POVO - Antes de falar sobre sua música e de como incorporou à sua linguagem a batida do maracatu cearense, qual foi a primeira imagem do maracatu que você viu, ouviu? Por exemplo, o Estrela Brilhante, que você homenageou na canção.

Ednardo - Não deve passar despercebido, nem aos olhos mais desatentos, o simbologismo do maracatu em suas cargas conceituais. Força cósmica, o maracatu perpassa incólume ao tempo. No caldeirão brasileiro de raças, somos índios, pretos, brancos, amarelos, vermelhos, marrons, sararás, caboclos, cafuzos, crioulos.
A característica notável e ímpar do maracatu cearense, além da presença de nosso povo miscigenado, é a atitude guerreira na síntese de resistência em festa de libertação e manutenção de culturas.
Além do interessante vestuário, os rostos pintados, a dança, os instrumentos de percussões onde adicionam o triângulo de maracatu, fabricado com sabedoria de tonalidades harmônicas, são todos estes itens elementos diferenciais, significativos e inconfundíveis.

Na infância, vi pela primeira vez os maracatus em Fortaleza: Estrela Brilhante, Ás de Espadas, Ás de Ouro, vinham faiscantes pela rua que não tinha eficiente iluminação pública, causavam efeito especial à auto-iluminação dos blocos feita por dezenas de lampiões, candelabros de lamparinas revestidos com tênues tecidos vermelho-laranja-amarelo que tinham efeitos de tochas de fogo, faziam uma espécie de cordão que circundava o bloco.

Vinha o baliza com uns passos gingados e um bastão nas mãos, sua dança uma mistura da pisada indígena com a malemolência africana, o abre-alas para os morubixáuas e suas índias e uma grande ala de índios, os pajés faziam circunvoluções, um cheiro de ervas aromáticas no ar, aí vinha a corte real, com a calunga, os grandes leques de abano, o balaieiro com frutas da região incrivelmente equilibradas na cabeça sem por as mãos enquanto gingava.

Depois soube que tinham rituais, primeiro se reuniam no Parque da Liberdade (Cidade da Criança, em frente à praça Coração de Jesus), depois juntavam-se os blocos na praça do Passeio Público e começavam a bater tambores, entoar loas, de longe a gente escutava a preparação e quando o maracatu passava tinha tal emoção contagiante, o grave dos tambores, o contraponto com o timbre metálico agudo dos triângulos.

OP - Fale do Pavão Mysteriozo, o folheto, e de como você criou, a partir dele e com a pancada do maracatu, uma das mais emblemáticas músicas do Brasil, tema de uma novela surrealista do Dias Gomes, Saramandaia (1976).

Ednardo - Com um pé na realidade nas cenas e culturas do Ceará, e outro nas realidades urbanas, Fortaleza, São Paulo, Rio, aprendizado e estradas, informações amplas e descobrindo outras. O Nordeste brasileiro tem confluência com a tradição ibérica, hoje em dia, mesmo os mais novos - que ainda não saibam onde estão pisando - é bom que se liguem no prosseguimento do que foi construído por seus antecessores de todas as raças.
O folheto de cordel do Pavão Mysteriozo é uma destas consciências de que artistas são depositários da sabedoria popular, devemos procurar entender estes ensinamentos, podemos dar nosso grau conforme momento e lugar, atuamos no emblema contemporâneo do mundo. Apenas dei forma, ritmo e voz, concretizando em sons o que todos já sabem, e podiam estar esquecidos, como se escolhe flores, palavras e energias para ofertar a quem estiver aberto para receber.

OP - O maracatu era, até você capturar em pleno vôo este misterioso e belo pavão, umas canções do Capiba, quer dizer, se alguém sabia o que era, era via Pernambuco. Tanto que muita gente ainda pensa que o nosso maracatu é derivado do maracatu de lá, trazido na década de 30 pelo folião Pedro Boca Aberta, depois de um carnaval que ele passou no Recife.
O escritor cearense Gustavo Barroso, no seu livro de memórias Coração de Menino, relembra o pavor que tinha da batida lenta dos maracatus no centro de Fortaleza, fala das caras tisnadas, isto recordando fatos de 1880, por aí.

Ednardo - O maracatu do Ceará existe há bastante tempo. Ao perceber sua beleza, trabalhei para criar uma das possibilidades de abrir escaninhos locais onde eram mantidos e mostrar para um maior número de pessoas.

Se tão antigo em organizações de blocos quanto o de Pernambuco, é interrogação que será mais esclarecida quando fizerem estudos detalhados, mas esta espécie de ''simbiose estética'' está entranhada em nossos arquétipos culturais e raciais, tem visíveis diferenciações, leva a crer que é pouco provável que tenha sido simplesmente ''importado'' de outro estado, isto pareceria estratégia de exclusividade sobre o maracatu.

O sincretismo religioso que acontece no Brasil entre as civilizações ameríndias, européias e africanas desde o descobrimento à atualidade não pertence a um estado definido por fronteiras físicas, está onde estão pessoas de diferentes credos e raças. Existem versões sobre o sincretismo nos diversos aspectos do cerimonial, estético, doutrinário das teorias místicas relacionadas com a formação do mundo e conjunto de divindades que formam a história das religiões.

Uma delas, seria a forma da civilização dominante impor sutilmente sua própria religião e cultura aos dominados e a outra, da cultura dominada burlar a dominante, fingindo adorar seus deuses, mas na realidade venerando suas próprias entidades, associando umas às outras. Sabe-se dos cortejos negros das irmandades religiosas do Crato, Icó, registrado por Eduardo Campos, Sérgio Pires, Gilmar de Carvalho, e também nas memórias de Gustavo Barroso.

Mas em nenhum momento o pessoal que faz o maracatu cearense tem dúvidas que isto pertence a eles, nesta mistura entre o sagrado e o profano, entre o sonho e a realidade.

OP - Diferente dos dois estilos do maracatu do Pernambuco, o mais do candomblé, de Nação chamado, e o mais acaboclado da Zona da Mata - mas ambos com um ritmo acelerado.
Já o maracatu cabeça-chata tem esta coisa lenta, lenta, lenta, linda, quase uma latomia, um bendito pungente, som hipnótico, uma tristeza pungente marcada pela batida poderosa no triângulo de ferro.

Ednardo - O maracatu cearense não tem viés de tristeza e severidade, são palavras que serviriam para o equívoco de tese que alguns defendem para retirá-lo do carnaval e colocá-lo no folclore, como objeto de pesquisa no passado.
O maracatu cearense tem a força da resistência e alegria.

Filmando Cauim em Fortaleza, na parte do roteiro do filme realizada no carnaval de 1977, um dos focos no maracatu cearense, um repórter foi me entrevistar em plena ação de filmagens: - Você não acha inadequado e triste o maracatu cearense, seria melhor retirá-lo do carnaval.
Na época, faziam campanha para o carnaval cearense se assemelhar às escolas de samba do Rio.

No insight do momento mostrei que os componentes do maracatu estavam desfilando com rostos de felicidade para o público e não para a câmera.
Perguntei: onde você está vendo tristeza? Lembro que conversando com Descartes Gadelha (72), ele junto com amigos estavam formatando a Escola de Samba Ispáia Brasa, quando falou de concepções rítmicas que forneciam uma identidade misturando batuques indígenas com negros, eu disse que era um achado fenomenal e quando possível levasse para o maracatu do Ceará.

Eu já havia dado uma acelerada rítmica em alguns maracatus que gravei em discos, Descartes com outros amigos formataram o Maracatu Nação Baobab, que revolucionou o maracatu cearense e também rendeu críticas absurdas. Falavam que ele estava descaracterizando o maracatu. Ora, logo ele, iluminado com luz intensa!

OP - O que você pode falar sobre a geração manguebeat, o Chico Science juntando maracatu e hip hop e influenciando toda uma nova galera?
Aqui, você sabe que seu trabalho, em particular, está no âmago da rapaziada que usa os ritmos populares numa linguagem atual. Mas ninguém fala muito. Como é esta história do santo de casa não fazer milagres?

Ednardo - Maracatu é célula básica, uma das vertentes rítmicas da música brasileira, célula tronco, fornece a seiva para outras transformações.
Quando o pessoal do Ceará e Pernambuco utilizam estas informações, é para continuar a linha evolutiva da música brasileira, de seus ícones ancestrais à atualidade.
Desde as primeiras músicas gravadas em meus discos, existem vários maracatus, em diversas nuances: ''Terral'', ''Pavão Mysteriozo'', ''Longarinas'' (anos 70); ''Ser e Estar'', ''Ponto de Conexão'' (anos 80), em abordagens desde maracatus lentos aos acelerados.

O Chico e a valorosa geração manguebeat forneceram suas contribuições ao maracatu de Pernambuco, lembro que Ariano Suassuna criticou Science e Nação Zumbi, mas a moçada de Pernambuco gostou e depois Suassuna se rendeu à evidência.

Também vamos dizer viva a Descartes Gadelha, que antes do Science teve coragem de misturar e acelerar os ritmos e colocar o bloco na rua, vivas ao Calé Alencar, Pingo de Fortaleza, Dilson Pinheiro, pela continuidade do maracatu tradicional e pelo zelo de registros, e a todos os mestres do maracatu cearense e seus trabalhos que se estendem na esfera de preocupações sociais.

Tenho consciência do alcance das músicas que faço e seus naturais limites. Foram realizadas com objetivos amplos, mas também simples vontade de cantar. Sei que estão no âmago das novas galeras, mas não penso em alimentar expectativas em histórias de santos de casa e milagres. Sigo compondo e cantando, o restante fica por conta de vocês.



OP - No I Festival de Violeiros e Cantadores (outubro de 2004, em Quixadá e Quixeramobim), quando você subiu ao palco e começou a cantar - e olhe que você rearranjou suas composições, inclusive, o ''Pavão Mysteriozo'' - todo mundo cantou junto. Como é criar uma música que ultrapassa duas, três décadas?

Ednardo - Em shows pelo Nordeste, em Teresina, encontrei mestre Luiz Gonzaga, sorriso estampado no rosto e voz forte chamando: - Ednardo venha cá, ouvi dizer que você não está cantando ''Pavão Mysteriozo'' nos shows, faça isso não meu filho, você foi abençoado pelo povo, sucesso genuíno.
Até hoje canto ''Asa Branca'' porque o povo pede, não deixe de lado essa música, gosto muito dela e o povo também. Foi ensinamento de mestre.

No Festival de Violeiros e Cantadores, ouvi de novo os mestres (entre muitos que tenho) e coloquei no roteiro esta e outras músicas de meu repertório, também abençoadas pelo povo.
Os arranjos atuais partem principalmente da compreensão dos arranjos originais e também pela leitura de novos músicos cearenses da banda que me acompanha, confio em suas sensibilidades, são excelentes profissionais, os acordes e ritmos, tudo passa por minha concordância.

Ao constatar que ultrapassam gerações, duas, três décadas, permanecendo íntegras e significantes, penso que é porque assim foram feitas. Posso me considerar um sujeito de sorte e de forma geral querido pelo público, além do mais, minhas músicas, quando analisadas pelo povo e críticos especializados, pelo que percebo, fornecem sensação de que não fugi da raia de meu tempo e espaço e, segundo atestam, continuam servindo de faróis para muitos.

OP - A gente aqui vê você menos do que desejaria. ''Amanhã, se der o carneiro/ vou-me embora daqui pro Rio de Janeiro...''. E você foi. Bate a saudade? Como é ver o Ceará de longe? Você pensa em voltar, ou só ''em vídeo-tape''?

Ednardo - Também desejaria que nossas cidades nos vissem e ouvissem muito mais, que o foco de atenções tivesse identidades próprias, não esperasse ver ou ouvir primeiro seus artistas em outros locais, principalmente no exterior, para depois reconhecê-los como legítimos representantes de nosso povo.

A pergunta, mesmo específica e dirigida, cabe amplamente à grande parte dos artistas brasileiros. Mas as respostas, talvez, seriam mais esclarecedoras se fornecidas pelos que articulam a mídia e meios de comunicação.
Seria legal que nossos meios de comunicação, nossos governantes, tivessem orgulho de seus artistas, que são antenas da raça, e nos tratassem melhor para não sermos forçados a cada instante a dar nomes aos bois que atravessam os trilhos da música brasileira, hoje em dia mais respeitada no exterior que no Brasil.

Mas estou mais perto de minha terra que muitos que aí residem. É claro que sempre bate saudades de Fortaleza, mas como voltar pra uma cidade da qual nunca saí?

_________________________________

Sustenta a Pisada!

O registro mais antigo do maracatu recua ao ano de 1711, num carnaval (à época dizia-se entrudo) em Olinda. Era o ancestral dos famosos maracatus de nação, da folia pernambucana, uma estilização dos autos de congos.
Nação aí é sinônimo de etnia ou povo africano - nação angola, nação congo, nação bantu. Do nação participam entre 30 e 50 figuras no cortejo real, começando pelo porta-estandarte, com suas vestes ao modo da corte do rei francês Luís XV.
Ao lado dele, vem a baliza, com seu requebrado, sua graça. Geralmente, uma moça. Em seguida vêm as damas do paço (isto é, as mulheres nobres que circundavam a rainha, no paço ou palácio).
Uma delas conduz a boneca chamada calunga, portadora da religiosidade e representando as entidades espirituais. Depois, outros personagens da corte, o duque e a duquesa, um casal de príncipes e uma das figuras mais importantes e mais diretamente ligadas à parte histórica que originou, depois, a estilização no auto dos congos: o embaixador.

A corte abre alas para o rei e a rainha, devidamente coroados, vestindo seus mantos de veludo rebordados de pedrarias, carregando solenes o cetro e a espada. Rei e rainha são protegidos por um imenso guarda-sol, oriundo da tradição árabe.
Para evoluir, o nação é animado por vários tambores grandes (zabumbas), médios (alfaias), caixas e taróis, ganzás e o gonguê (um só ou um par de sinos, percutidos com uma vareta de metal).
Completando o cortejo, a ala das baianas, com suas imensas saias rodadas, e os caboclos, representando as etnias indígenas, vestidos de pena e estalando pequenos arcos e flechas.
Em Pernambuco, o maracatu nação também é chamado de baque virado.
No Ceará, o cortejo do maracatu assemelha-se ao de nação pernambucano, no figural e instrumentação, mas difere por algumas características singulares, quais sejam - o rosto dos brincantes, pintado de preto, a figura do balaieiro, com o enorme cesto de frutas equilibrado na cabeça, os defumadores, aspergindo incenso para abrir os caminhos, e o triângulo de ferro, marcando o compasso.

Aqui também é fundamental a boneca, igualmente chamada de calunga. Mais recente é o maracatu rural, ou de baque solto, que nasceu nos canaviais da Zona da Mata pernambucana já em meados do século passado.
Também são conhecidos por maracatu de orquestra, por contar com um grupo de músicos que utilizam instrumentos metálicos de sopro, como os trombones, saxes e cornetas.
No figural, destaque para os caboclos de lança, portando vistosas golas terminadas por chocalhos na parte de trás, e as cabeleiras imensas de ráfia colorida. Eles costumam usar óculos espelhados e brincar com uma flor presa entre os dentes. O mestre canta a palo seco (isto é, sem acompanhamento instrumental), respondido pelo coro feminino e o troar dos chocalhos, apitos e demais instrumentos.

O canto do mestre é improvisado. Além dos metais, o cortejo é animado por gonguê, ganzá, tarol, cuíca, surdo e zabumba. Confira alguns instrumentos percussivos que fazem parte dos cortejos.

Eleuda de Carvalho e Tereza Monteiro

ABÊ - É um instrumento artesanal, feito de cabaça recoberta por uma ''saia'' de contas ou miçangas. Quando friccionadas, fazem um som que lembra a palavra xequerê, como também o instrumento é conhecido.

AGOGÔ - Instrumento de percussão em ferro, de origem africana. O nome é nagô, significando sino. O agogô também está presente nos cerimoniais do candomblé.

ALFAIA - É um tambor grande, mais alto que o zabumba mas de circunferência um pouco menor, revestido por couro de bode. Seu som grave segura o baque e repercute direto com as batidas cardíacas. É o mais orgânico dos tambores, justamente por bater no compasso do coração. É tocado com duas baquetas.

CAIXA - Tambor revestido com pele natural nas laterais. De tamanho pequeno, pende do corpo do tocador à altura do umbigo. O som produzido é intermediário entre o tarol e a alfaia. No Ceará, chama-se também caixa-de-guerra.

CAXIXI - De origem indígena, é um chocalho feito de palha trançada com a base de cabaça, cortada em forma circular e a parte superior reta, terminando com uma alça também de palha, por onde o tocador passa os dedos da mão, menos o polegar. O caxixi também é muito utilizado junto com o berimbau, na capoeira.

GONGUÉ - Ou gonguê. É composto por duas chapas de ferro fundido com aço e ligadas entre si. O instrumentista segura o gongué por um cabinho metálico e o percute com um bastãozinho de madeira.

TRIÂNGULO - Mais característico elemento percussivo do maracatu cearense, o triângulo é feito com uma peça de ferro larga e pesada de chassi de caminhão. Ao contrário dos triângulos convencionais, seu som é grave, profundo, solene. Na hora em que o maracatu aponta na avenida, é justamente a poderosa batida no triângulo que faz todos os olhos se voltarem na sua direção. Embora com as inovações dos últimos anos, que aceleraram o ritmo, até os anos 80 mais compassado, o triângulo ou simplesmente ferro mantém-se como a marca da originalidade neste cortejo que nasceu longe, na África, lá no século 16.


Batendo tambor

A levada do bumbo e a marcação do ferro, que caracterizam o maracatu cearense, estão no balaio sonoro de três gerações que fazem música em Fortaleza, desde os anos 70.

Desde os anos 70, com o Pessoal do Ceará - e especialmente com Ednardo - o maracatu escapoliu dos três dias de folia para contribuir e singularizar a música feita por estas bandas.
A geração 80 teve uma participação fundamental nesta levada.
Desta década, o mais ligado à tradição e, em particular, ao maracatu, é Carlos Alberto Alencar, o Calé.
Através do selo Equatorial (Nossa História em Música e Letra), o artista vem resgatando valores de há muito esquecidos, como Lauro Maia, que criou o balancê junto com o violonista Aleardo Freitas. Via Equatorial, Calé Alencar lançou uma caixinha com cartões postais de fotografias dos maracatus da década de 50. Outro trabalho realizado no formato cartões apresenta o cortejo talhado no taco da xilogravura (parte deles ilustra esta edição). ''Tô inaugurando uma nova etapa desta minha participação no mundo do maracatu.

Estamos lançando este ano o Nação Fortaleza, que vai se apresentar pela primeira vez.
Não é apenas um trabalho pra desfile, mas com a consciência de um grupo de dança de maracatu, em todos os vetores que isto pode ser compreendido, a cidadania, o exercício da arte, da capacitação, do design, do artesanato, a costura, pintura, a musicalização, a compreensão da dança e da sua história, origem e evolução'', conta Calé, atual presidente da Federação das Agremiações Carnavalescas do Ceará.

O Nação Fortaleza, formado basicamente por crianças e jovens, traz um ''batuque bastante singular'', diz Calé. ''Fizemos o desenho das caixas, dos surdos e bumbos, dos chocalhos. Conservamos a batida dos ferros. É uma contribuição minha a uma identidade rítmica do maracatu Nação Fortaleza, inspirado nos ferros do Az de Espadas, que surgiu aí no início do anos 50.
Mas dei mais valocidade ao batuque, inclui ganzás. No tema da nossa loa, pensamos em realçar a figura da rainha Ginga.
Ela é símbolo de resistência, de heroísmo, de bravura, da mulher guerreira, personificada na rainha do maracatu. Na loa 'Ginga, rainha da gente', é como se chamássemos a rainha pra ver o figural que vai homenageá-la''.

... ... ...

.
Nota - O material desta publicação é bastante extenso e ilustrado com fotos e desenhos de xilogravuras, mereceu um caderno inteiro do Jornal O POVO de Fortaleza. Para os que quiserem acessar o teor completo, a melhor forma é entrar em contato com com o setor deste jornal, responsável pelo armazenamento destas informações.
.

Cumplicidade nas Políticas Culturais

Victor Hugo, o escritor francês, traduziu para a sua língua a obra do maior dramaturgo inglês e, de arremate, o homenageou com o mais poético e sensível ensaio humanístico que já tive a oportunidade de ler: Shakespeare. Um gênio reconhecendo o outro.

Assim procedendo, o autor de ´Os Miseráveis´ mostrou-se coerente com um dos pensamentos desenvolvidos no escrito, ao comparar as dinâmicas de avanço das ciências e das artes, segundo o que podia observar na metade final dos anos 1800.

Para ele, a lógica de progresso das ciências estaria na superação; a das artes na acumulação. Queria dizer: um cientista se firma quando desconstitui o que outro elaborou, como aconteceu gritantemente com Copérnico e Ptolomeu, quando aquele, desvelando adequadamente o sistema solar, implodiu a tese de que a Terra era o centro do universo.

No âmbito das artes, este sentimento de destruição do anterior, se existe, não tem cabimento, porque, por exemplo, o florescimento de Shakespeare não reclamou a superação de seu contemporâneo Cervantes, de seu antecedente Sófocles ou de seu póstero Machado de Assis.

O campo da cultura é, por excelência, o ambiente da pluralidade e do acúmulo.
Na atualidade de nosso país, os valores referidos, aliás, foram formalmente adotados pela Constituição da República, não apenas para as artes, mas para todo o campo cultural, ao assegurar ´a todos´, ´aos grupos participantes do processo civilizatório nacional´, ´aos diferentes segmentos étnicos´, o pleno exercício dos direitos culturais que, em considerável dimensão, são de responsabilidade do Estado, o qual deve atuar, no cumprimento de seu papel, em ´colaboração com a comunidade´.

Vê-se que Estado, sociedade e comunidade são responsáveis solidários pelas políticas públicas de cultura, merecendo esclarecimento a diferença entre as duas últimas: sociedade como o conjunto de todos os indivíduos; comunidade como grupo que possui laços de proximidade e integração, incluindo relações de afeto.

A Constituição ao integrar os três atores referidos no processo de promoção e proteção do patrimônio cultural brasileiro ensejou uma revolução democratizante no âmbito da cultura, historicamente admitido como espaço reservado, na melhor das hipóteses, à aristocracia pensante e intelectual do país.

Mas o sentido da integração em apreço extrapola em muito a simples técnica da decisão pelo critério da maioria, que é o ícone mais simples e acessível do regime democrático. Estado/Sociedade/Comunidade(s) dividem não apenas poderes, mas responsabilidades, pelos rumos da cultura; fiscalizam-se mutuamente para que as práticas culturais cumpram os objetivos de aprimorar a alma, as práticas e os valores humanos, questionem as coisas postas e proponham novos rumos, quando necessário.

As políticas públicas de cultura, seguindo o raciocínio, não podem ser apenas resultado de planos de governos, mesmo que investidos pelo voto popular, mas devem se submeter a uma dupla legitimidade de caráter constante: a dos anseios gerais da sociedade e das comunidades especificamente afetadas.
Não se trata apenas de atender as aspirações declaradas ou colhidas em função de técnicas de marketing, mas as que possibilitam ao cidadão e às coletividades situarem-se historicamente, vivendo o aqui e o agora e tendo, ao mesmo tempo, referenciais do passado e responsabilidades para com o futuro.

Muitas autoridades responsáveis pela gestão cultural não têm este entendimento, e disto resulta que a partir de seus gabinetes lançam planos, projetos e idéias de ações, preocupados, muitas vezes, apenas em deixar uma marca pessoal. Ofertam, não raro, aquilo de que já se dispõe, sob novo rótulo.
Buscam aceitação por meio de práticas feéricas, repleta de luzes artificiais, repetidoras da política do pão e circo, e até do circo sem pão, muito apropriada a manter as coisas do jeito que sempre estiveram. Tudo isso geralmente à custa da omissão com as obrigações outras, inclusive as cotidianas e indispensáveis, como a de conservação de estruturas e acervos culturais historicamente consolidados.
Quem assim procede, comete a inconstitucionalidade de deixar de ouvir e integrar os destinatários e co-responsáveis pelas ações culturais.

E mais que desrespeitar um formalismo jurídico, abre mão de suas cumplicidades em favor da luta pela concretização dos planos traçados, ficando frequentemente assemelhado àquele que faz pregações no deserto.As políticas culturais, historicamente praticadas nos moldes das ciências concebidas no século XIX, vêm, portanto, regendo-se pelo critério da exclusão, seja das práticas antecedentes, seja dos demais legitimados sociais.

Os gestores culturais prestariam grande serviço aos seus administrados se observassem a sugestão de Victor Hugo de homenagem às lógicas da pluralidade e do acúmulo, que fazem a regência e a riqueza das expressões culturais.


HUMBERTO CUNHA

Especial para o Caderno 3
O autor é professor de Direito Constitucional e Direitos Culturais nos cursos de Graduação, Mestrado e Doutorado em Direito da Unifor. Advogado da União.

Jornal Diário do Nordeste - 15 de Fevereiro de 2009
http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=615278

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Maracatu Estrela Brilhante



Artigo escrito por Ednardo para o Jornal O Povo - Fortaleza - Ceará, publicado em parte condensada em 2005, e agora enviado na íntegra em 2009 pelo autor.





Zeca Zines publica com prazer esta contribuição de Ednardo sobre o Maracatu Cearense.






MARACATU ESTRELA BRILHANTE
Ednardo

Maracatu Estrela Brilhante
Maracatu o teu brilho errante
Gamela da nossa mistura
Tão linda tão mista e tão pura
Maracatu

Garra maracá já guerreiro
Batuque ferro e ganzá
A flexa cravada no céu brasileiro
Infinitamente Cantar
Cantar
Cantar
... ... ...

Uma vez, quando menino, ví o Maracatu Estrela Brilhante, e nunca mais esquecí sua energia e força, faiscante ele veio pela rua. Naquele tempo todos os Maracatús se reunião no Parque da Liberdade, também chamado Parque da Criança, no centro de Fortaleza, e percorriam a chamada "Maior Rua do Mundo", que começa na Beira da Praia e em linha reta passa pela Cidade e se transforma numa estrada e adentra o interior do Estado de todos nós.

E eu do alto dos cinco anos de idade me perguntei - Que coisa linda é esta?
E saí pela rua, entre braços e pernas dos adultos.
Eu, no estado de pessoa acompanhando o ritmo e música do Maracatu.

A visão pra mim, coisa mágica, os lampiões que abrem o desfile e que preservam o espaço sutil e perfeitamente delimitado do bloco, a ala dos indios, com suas vestimentas de penas coloridas seus Cantos Indígenas e rítmos marcados pelos maracás e estalar das cordas bramindo contra os arcos, perfeitamente entrosados com os tambores, lançando as setas imaginárias em direção ao infinito que na minha mente de criança continua a existir.

Logo a seguir os pagés, os morubixáuas, reis de nações, as índias suas companheiras fiéis, rainhas, príncipes e princesas, e tudo isto verdadeiro, e cantando, em harmonia com o canto dos negros que na ala seguinte entoam os Cantos Afros, o espaço se abre com a presença do Pagé junto ao Rei e Rainha, a corte Real, envolta em luzes de candelabros, feitos de rústicos lampiões envoltos em fino pano vermelho, e grandes abanos coloridos que sinalizam sutilmente o espaço limítrofe entre os participantes do bloco e os assistentes.

Em seguida, os Tambores, que a gente já escutava em suas repercussões, ressoando nas paredes das casas de Fortaleza à mais de trezentos metros de distância, junto as marcações do contra tempo que no Maracatú do Ceará é especial pela presença do Ferro, ( um triângulo especialmente construído para esta finalidade do repinique no grau mais amplo das tonalidades metálicas), depois mais perto o xik-xik dos Ganzás, os Tambores- Grandes e médios, as caixas, fazendo o Rá-Tá-Tá-Tá - da puxada, e logo em seguida o BOMM do Baque do Maracatu.

E depois compreendí que aquela força tinha mais de 100 Anos de Solidão, Macondo é perto de Fortaleza, do Maracatú, quem já percorreu a excelente viagem, vai entender o que estou descrevendo.

E eu estava lá, e quem é criança, como eu, continua sabendo que todas as explicações não bastam, os Reis e Rainhas são perenes em suas sutis fragilidades, e em seus Arquétipos, são bastantes fortes. A explicação de que eram a representação da Côrte Européia, com os Índios e os Negros, cada qual colocados "em seus devidos lugares", parece equívoco, diante de tantas evidências.

A alma do Maracatu, tem talvez o tempo da civilização brasileira, é fruto da vivência, da sabedoria, do sofrimento, e também da alegria e beleza da saga humana, em nossa terra.

O Maracatu, está colocado como um dos prismas de visão, em uma parte de minhas músicas sobre este tema, ritmo e identidade cultural, traduzidas para o universo artístico, em um espaço todo especial.

Especial porque o Maracatú do Ceará é único nesta forma no Brasil, suas raízes mais longínquas vêm diretamente dos arquétipos e dos arcanos culturais de nossa miscigenação.

Das terras então (naquelas eras) recém "descobertas" do Brasil, a junção com as Nações Indígenas Brasileiras, principalmente do Nordeste: Tabajaras, Tremembés, Carirís, Pitiguaras, entre muitas outras; Da África, as Nações : Nagô, Bantu, Ijexá, Congo, e também muitas outras; Dos Europeus em suas diversas Nações, castas e extratificações sócio-culturais, Portugueses, Franceses, Espanhóis, Holandeses.

O Conceito Ritual da Civilização dos habitantes desta Terra, (chamados de índios, equívoco do cálculo dos navegadores, quando ainda se pensava que o Brasil era a Índia ou uma Ilha), incluia o respeito pelo encontro entre as raças dos povos que aquí aportavam.

Ao se encontrar com a consciência do povo africano, sequestrado como escravos pelos europeus, (e também vendidos aos brancos pelos próprios africanos em guerras tribais), fez aflorar a consciência deste povo refém, em suas purezas e custumes, o Reino daquí, ainda não tinha a informação do que havia acontecido nos Reinos vizinhos das Civilizações Maia e Azteca, entre outras.

MARACATU AZ DE ESPADA

Existem registros nos escritos originais de Hans Staden e Jean de Lery - NAVIGATIO IN BRASILIAM AMERICÆ, e VIAGEM À TERRA DO BRASIL que relata o tráfico de selvagens brasileiros em navios franceses, para serem vendidos como escravos aos Mouros brancos da Barbaria, como também faziam os navios portugueses com o aval do Rei de Portugal para este tipo de tráfico.

Também existem registros da contra partida onde as Nações ao Sul do Brasil praticavam a antropofagia- aquí incluída num contexto de guerra e vigança, com seus rituais de comer a carne do inimigo para ganhar suas forças:

- "Ndê t'mberaba shermiurama mae amboe" (A tí sucedam todas as desgraças, minha comida)
- "De kange yuca cypota kurine" (Eu quero ainda hoje cortar a tua cabeça)
- "Che y anama pepike ki chaicu" (Para vingar a morte dos meus amigos, estou aquí)
- "Yande sso che mocken sera quora ossorime rire (Tua carne será hoje, antes que o sol entre, o meu assado).

Com gritos de guerra bradavam os índios, e se prisioneiros fossem feitos, continuavam o ritual, onde "aquele que deve matar", pega a clava e diz - "Aqui estou, quero te matar, porque os teus também mataram a muitos dos meus amigos, devorando-os" e segundo o relato o outro, responde: - "Depois de morto, tenho ainda muitos amigos que me vingarão"

Tudo isso regado pela bebida feita pelas virgens da tribo ao mastigarem a raiz da maniva (mandioca), após fervida, que em contato com a saliva humana gera a fermentação - depositada em um pote e após o tempo de curagem e diluição com água é bebida por todos os que vão comer a carne do inimigo.

Nota - Esta versão parece ser a visão européia da época sobre os conflitos gerais ocasionados pelo estado guerreiro então estabelecido entre as partes, levando em conta os ânimos daqueles momentos, lembra também um pouco a sintomática justificativa para o extermínio dos contrários, a inquisição queimava bruxas, as cruzadas matavam os infiéis, as virgens, seus antecedentes e ascendentes, talvez tivessem o mesmo destino comum, de serem em seguida, também devorados pela vingança futura.

CAUIM
Ednardo

Rainha Preta do Maracatu
Nesse teu rosto de falso negrume
Morre de gozo da renda do sol
Na renda feita pelos bilros d'água
Desse véu de noiva Bica do Ipú

E eu um índio pronto para as flexas
Dos arcos tesos de uma caçada incerta
Monto no sopro do Aracatí
Tonto de espanto de amor e cauim
Sou nau sem rumo
Em teu ardor imerso
... ... ...

Depois vem a síndrome do conquistador se sentir exilado de sua terra natal, após território ocupado, ter que continuar residindo e resistindo em território alheio, o que também significa estabelecer vínculos integral com tudo, natureza, nativos, escravos, povo, Reis e Rainhas depostos, e com seus próprios propósitos de conquista.

Nesta nova ordem estabelecida em uma terra, que inicialmente seria o paraíso terrestre e que a partir de então mostra o seu lado selvagem, o Enigma se estabelece e esta Terra, somente será de todos, após a decifração: A Junção das Raças e as distribuição das riquezas entre as mesmas, conforme seus trabalhos.

13 DE MAIO - Libertação de Que?

Ou então coberta pelo manto de uma realeza equivocada que aquí se instalava, junto aos povos viajantes, em suas naves de madeira, (a tecnologia de ponta daquela época), e no caldeirão explosivo da carga humana dos escravos, (indios, negros e brancos), alijados de suas próprias realezas, esta Terra seria o eterno campo de batalhas inglórias, sem vencedor ou vencido, ou guardaria em suas entranhas o absurdo de se viver em meio a fartura e não se ter comida, viver em terras de dimensões continentais e não se ter espaço e liberdade para ver os filhos crescerem, e onde as árvores não dariam sombras nem frutos, os caminhos utilizados para levar nada à muitos e tudo à poucos, e as mãos que construíssem as habitações e fortificações do invasor, não tivessem como abrir a porta de sua própria morada, pois estariam ocupadas sempre em produzir riquezas e garimpar o ouro, para o pagamento da conta da empreitada da conquista de novas terras, irônica e cruel realidade dos escravos de então.

Como se a força dos elementos da natureza tivessem mudado das mãos do Superior e a Luz não mais banhasse as Almas.

É do conhecimento de todos, por maior que seja a maquiagem histórica, o "desconhecimento" que até os tempos de agora nos empurram como fatos oficiais nos bancos das escolas, que Nações Inteiras com seus "Reis, Rainhas e Povos", ao longo deste tempo, foram manietados e subjugados pelas forças das armas, da grana, do poderio da tecnologia. Dizem os sábios que: quem não aprende com o passado, muitas vezes se vê colocado em situações idênticas no presente ou futuro.

Assim, todos vieram, e chegaram com seus custumes, religiões, leis, e as extratificações de sociedade, dividindo os povos, às custas das "pacificações" que na verdade eram genocídios. Não houve o convite para uma participação harmônica, cada qual, com suas sabedorias e civilizações da inauguração de uma nova casa, a América (do Norte e/ou do Sul).

O extermínio de indios e negros não é somente filme de faroeste e de tarzan, onde o epicentro da ação, está em épocas passadas no cenário do oeste norte americano, ou das savanas africanas, isto sem esquecer as indias orientais, ocidentais e acidentais, onde todos os mocinhos, matavam os bandidos e terminavam o orgásmico e sangrento festim aos beijos, no final feliz do "the end" do filme.

A selva geral se deu e se dá no Brasil também, a época é variável , 1500 à 1900, e devemos todos nós querermos uma outra realidade diferente para depois dos anos 2000.

O Que têm esta História a ver com o Maracatu? - O MARACATU é tudo isto ai junto.

A hospitalidade nordestina reconhecida como um dos pontos fortes dos traços de nossos custumes, marcadamente vem de nossos indios, que receberam os brancos europeus e os negros africanos, que por sua vez também devem ter recebido a civilização branca com a altivez natural de habitantes legítimos destas regiões, e também em suas consciências cósmicas, dirigidas para o destino atual do Brasil que ao entrar neste terceiro milênio, se mostra como o verdadeiro "melting point" da miscigenação racial de todo o planeta.

Hoje em dia, já temos, nossos japoneses, nossos chineses, nossos alemães, nossos ingleses, nossos franceses, nossos holandeses, nossos americanos do norte e do sul, nossos espanhois, nossos portugueses, nossos mouros, nossos muçulmanos, nossos tuaregs, nossos indús, nossos africanos, nossos bárbaros e nossos doces, etc., etc., enfim somos os representantes mais ricos em termos desta mistura humana, por favor não esqueçam os indios, pois realizamos o projeto talvez mais amplo da humanidade.

A saudação usual da Hospitalidade entre as nações de nossos indios e as outras nações que chegavam após vários períodos e fases, tinham inicialmente o espanto e respeitosa aproximação, depois escravizados, o da revolta e guerra, e ao histórico domínio pela superioridade das armas, riquezas exploradas, movimentação e tecnologia, e etc., E inicia-se a fusão destas raças , e o nascimento do ser brasileiro.

-"Ere iobê" (Tu vieste?) dizia o Cacique Morubixáua da Nação visitada.
-"Pa-aiotu" (Vim, sim) dizia o o representante da Nação visitante.
-"Auge-be" (Bem dito) respondia o "Rei e Rainha e o Povo" da nação visitada. E os visitantes ficavam à vontade, com as palavras de recepção emitidas que valia como: bem vindo, ou diz bem o que tu fala, e nós te recebemos.

Não deve passar desapercebido, nem aos olhos mais desatentos, o simbologismo do Maracatu em suas cargas conceituais: Artes plásticas, roupas e adereços, pinturas; Expressões Corporais, diversos modos de danças, posturas representativas; Ritmos, Músicas, Vocabulários. E como espetáculo transcendental de nossa cultura viva.

A realidade do Teatro, somente para citar alguns, o Teatro Kabuki (japonês) pela utilização das máscaras que define expressões estáticas e posturas miméticas, o Grego quando um homem representa personagem mulher, a Rainha, (tradição do Maracatú do Ceará) e ainda incorporando as raízes negras, brancas e indias, e o Teatro Romano, por sua tradição de encenação pública e itinerante, sujeitas a modificações conforme a platéia, como nas Arenas.

Se todos estes pontos de identificação do Maracatu, fosse fruto de um produto artístico racionalizado e realizado grupalmente, com o tempo definido de uma companhia teatral, ou seus sucessores, já seria um grande fato. Mas ao constatarmos que esta função existe ao longo de décadas e mais décadas, (os estudiosos podem relatar sua durabilidade, especificidade e importância), e além de tudo, levada em frente por grupos populares, em expontânea e transcendental informações de arquétipos estrutural de nossa cultura , é óbvio e ululante, "que eles, somos nós".

Com suas alas de indios, negros e brancos, a abertura de leques de informações, a representação das nações com seus Reis e Rainhas, que significativamente podem ser representados simbólicamente por elementos de qualquer raça, ao pintarem seus rostos com a tinta preta , a fisionomia é anulado teatralmente pela máscara, e com ela, qualquer traço de identificação racial, permanecendo no entanto, qual o negativo de uma fotografia, a imagem íntegra de um ser humano no seu mais alto positivo. Por isto o sentido do Re-Ligari que o mesmo possui.

O Ritmo é Hipnótico, centraliza o estado natural das pessoas, a Música é composta por unidades Mântricas, de Auto-Concentração Interior.

A palavra é utilizada neste Ritmo e nesta Música com a finalidade mística e religiosa de fazer o Bem, e seus emitentes, devem estar aptos a concretizá-las em ações de equilíbrio com outras entidades e forças.

MARACATU AZ DE OURO

Curiosamente, o Maracatu desfila também durante o Carnaval, e seu ritmo, longe de ter os apelos frenéticos das bandas de frevos, escolas de samba, e agora dos carros de axé músic, também consegue arrastar multidões aos seus desfiles, similar fenômeno também existe na Bahia, com os afoxés, só que aquí no Ceará, os maracatus estão sendo incompreensívelmente colocados em escaninhos folclóricos, e sendo distanciados da festa popular por todas as formas e meios, o que é um gritante equívoco, como resultado eles se tornam progressivamente longínquos da identificação das novas gerações cearenses, que perdem este precioso referencial próprio, para em seu lugar, adotarem o referencial cultural de outras regiões.

Isto é no mínimo uma política cultural suicida, em relação à autonomia cultural, artística e de custumes popular que está sendo praticada contra o sincretismo de uma manifestação espontânea e abrangente, sem o aval do povo cearense.
A consciência, do conteúdo desta resistência, é fundamental para que possamos conhecermos a nós mesmos.

Esta realidade é tão estranha e contudente, que talvez existissem parâmetros de comparações, se pudermos imaginar alguém pensando em acabar, ou colocar em gavetas classificatórias menores, distanciando de festas populares, manifestações como: os Afoxés na Bahia, as Escolas de Samba no Rio de Janeiro, os Blocos de Frevo em Pernambuco, os Bumba Boi do Maranhão, por exemplo.

O raciocínio de que o Maracatu, possui um andamento muito diferente do que alguns elegem por conta própria para o padrão do carnaval cearense, é no mínimo, ingênuo, desinformado, ou interessado em limpar espaços em nossa própria terra, para que depois a monocultura sistemática e controlada seja realizada.

Queremos ver e saber de tudo, não somos xenófobos, gostamos da diversificação e democracia sonora, visual, da informação das várias maneiras de ser brasileiro, mas também estamos atentos as tentativas de nos tornarem apenas consumidores do modelo dos outros, e a preservação de todos os prismas de nossa identidade é vital para que possamos ser e estar.

SER E ESTAR
Ednardo

O imenso brilho do sol que explodiu nesse céu
Fotografou você
Sua sombra no ar a bailar, virou um louco maracatú
Sua dança a dançar, babel de som da cidade
Gente é preciso se dar valor, para ser e estar
Nesse rio real da existência
Além da dor, mêdo, violência
Existe o prazer de querer e ser querido
Revelar o precioso ser, habitante em nós
Vestindo o azul do espaço, e rasgando a mordaça da voz
Sonhar plural, acreditar estar com todos
Na solitária sina, solidariedade ao povo
De qualquer lugar, múltipla fantasia
Tudo é, foi, e será, escrito está
Solar expressso solar, tão cheio de gente a viver
Desabrochando aquí, no chão do planeta
Uma aura de um ôvo de luz, daonde nasce outra terra
Não fazendo de sí alimento, dos senhores da guerra
Olhar pro Aquarius no céu, vê se vê
Vê se vem, já não dá pra esperar

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Foto Para Pensar


Foto ganhadora do primeiro lugar na categoria "Notícias Gerais" do World Press Photo of the Year. De autoria do brasileiro Luiz Vasconcelos, do jornal "A Crítica", a imagem mostra uma mulher tentando impedir o despejo de seu povoado em Manaus, no Brasil, dia 10 de março de 2008

Luiz Vasconcelos/A Crítica/Zuma Press/EFE

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

O Tamanho da Estrada de Santana

- Sobre o ‘Pessoal do Ceará’

Ruy Vasconcelos


Naquele tempo e por uma série de razões a canção popular era um veículo opulento. O mercado ainda não estava tão estruturado. E havia um limite, um constrangimento à criação, que, paradoxalmente, a desafiava: a falta de liberdade de expressão. Mas havia também o fato mais ou menos cru de que os consumidores de disco eram quase que exclusivamente de classe-média. E, claro, de uma classe-média que pela primeira vez na história do país se beneficiava de uma educação universitária massificada.
A década de 70, no rescaldo dos inquietos 60, viu surgir pólos de criação onde houve universidade forte fora do eixo Rio-Sampa: na Bahia, em Minas, no Recife e em Brasília. Mas Fortaleza também esteva presente e de forma marcante.

O que se convencionou chamar de Pessoal do Ceará não é uma ficção. Mas um grupo que de forma mais ou menos organizada soube repartir tarefas. Entre intérpretes, compositores, letristas, instrumentistas, produtores, vimos surgir nomes como os de Raimundo Fagner, Belchior, Ednardo, Petrúcio Maia, Fausto Nilo, Brandão, Téti, Rodger Rogério, Ricardo Bezerra, Manassés de Sousa, Cirino, Augusto Pontes, Marta Lopes e tantos outros.

Em particular, salta aos olhos a inata qualidade literária do texto de certas canções. Brandão, Belchior e Fausto Nilo contribuíram bastante neste sentido. As letras de Brandão são como poemas autônomos que por acaso foram musicados, tal sua excelência. Belchior foi, então, um atento ouvinte de Dylan e de outras grandezas do universo pop. E Fausto Nilo, uma mente arejada o suficiente para pensar a palavra em música como uma amplidão de espaço que vaza para fora do som.
A diferença aqui é que todos os três não pensavam apenas em música. Pensavam mais longe, em algo que sendo uno é diverso, e responde pelo nome de arte. Como a vida.

Por seu turno, há um aperreio e um improviso muito grande em certas gravações se contrapostas à assepsia sonora de hoje. Quando se escuta coisas como “Estrada de Santana” dá para perceber o quanto há de bricolagem nessas sessões de estúdio.

Algo que está sendo resgatado, no momento presente, pela pesquisa esquizofrênica e ousada de Dustan Gallas: soar artesanal dentro de um estúdio digital. No caso dessas sessões de estúdio nos 70 eram quase gravações ao vivo. Ou pouco mais que isto. Havia uma comovente simplicidade e falta de atavios, que faz lembrar velhas (e doces) senhas: “da rodoviária para o estúdio”, “arrumar o cabelo e seguir”, “meu corpo, minha embalagem, todo gasto na viagem”.

Sofisticada artesanalidade. Tempos de constrangimento geram uma arte exigente assim. Há algo de muita emergência em canções como "Estrada de Santana". Algo que nos compele a percorrê-la de novo a cada vez que a escutamos. O lirismo misterioso, tenso e brilhante desse texto vale por dias bonitos de chuva: "Quem ouviu passarinho cantar,/ao meio dia, no silêncio de um lugar,/sozinho e sozinho esperou/que a noite trouxesse a esperança do sonho/ e a companhia do luar".

O que seduz nessa canção não é apenas sua vivaz referência à paisagem de um interior qualquer do Ceará. Mas o modo como ela nos instala lá: os passarinhos, o riacho temporário, a mata, o pequeno cemitério rural, etc. E, no entanto, escutando-a com melhores fones-de-ouvido, percebemos que essa vivacidade vem menos por conta da descrição da paisagem e mais pelo fato de ela ser evocada por um exilado: "Mas sou eu que não posso voltar//Não, não, não corro a Estrada Velha de Santana [...]". Essa impotência de estar nos lugares da eleição pesa nas carnes do cearense como uma maldição de proporções devastadoras, bíblica mesmo.


Em "Estrada de Santana" o migrante exilado mal dimensiona, de fato, o pedaço de vida que lhe foi roubada - embora sinta na carne que o foi: "Sem jamais entender o que alguém perdeu./ E perdeu, e ficou assim." Este "assim" ganha uma função adjetiva, como na fala popular. Algo que se aproxima de "desalento", "desesperança". Segue para além de uma simples e casual troca de estado de humor. Implica algo mais fundo: uma mudança na personalidade por razões de saudade de casa.

Ora, nenhum outro povo do Brasil, como o cearense, é mais especialista nisso: saudade de casa. E porque vivemos no mundo. E, claro, nem sempre por escolha. Assim "Estrada de Santana" assoma como mais uma das grandes canções de exílio que povoam o cancioneiro cearense. Um ilustre conjunto que vai de Catulo da Paixão Cearense (que era filho de cearense migrado para o Maranhão) ["ah, que saudades do luar da minha terra!"] e passa pelo ciclo de letras composto por Humberto Teixeira para músicas de Luiz Gonzaga e que incluem clássicos como "Asa Branca".

No início de "Tudo Outra Vez", Belchior nos diz: "Há tempo, muito tempo que eu estou longe de casa". É claro que estas palavras possuíam, à época, uma ressonância e uma urgência política mais vasta, mas não menos radicam nessa tradição do exílio. A mesma cantada por Ednardo ("Eu venho das dunas brancas/ Pr'onde eu queria voltar"). É apenas notório que, por razões óbvias, os duros anos de ditadura tenham acerado ainda mais essa condição de exilados.

Mas também em “O Astro Vagabundo” há inquietações de sobra para traduzir esse período. Qualquer coisa de muito sombrio e belo habita nessa canção. Nela o exílio para uma espécie de apocalipse ao mesmo tempo iminente e cotidiano – ou seja, feito daquelas simultaneidades possíveis só em sonhos – é a clássica imagem dos trovadores para o órgão sexual feminino: o pequeno jardim cercado, o Éden.
Dormir nesse jardim é o lenitivo. Esquecer por um lapso o pesadelo da realidade. O arranjo de cordas (que é de Wagner Tiso), os teclados, a amargura, o dilaceramento da voz de Fagner, exaltando-se na segunda parte, tornam a canção de uma sinceridade irresistível.


A lista é longa e a letra é breve. Se pode falar desse período como daquela “noite posta sobre a mesa” de “Asa Partida” – onde, aliás, há este verso que praticamente resume tudo: “eu não queria a vida desse jeito”. Ou seja, essa saudável inquietação diante de uma realidade extremamente defeituosa.
O Pessoal do Ceará pôs essa noite sobre a mesa com uma impressiva nitidez. Há o magistral (e majestoso) final de “Pavão Mysteriozo” ("Eles são muitos/ Mas não sabem voar"), carregado de utopia como nuvens densas num sertão de muitos meses de estio.
Quer dizer, "eles" - todos que não os migrantes - são muitos, também no sentido de poderosos. Mas não tem a dimensão do vôo, do sonho, alimentados por essa torturante saudade de casa que ensina mais do que qualquer escola, porque constitui em si uma odisséia.

O tema também reincide na delicada geografização de “Pequeno Mapa do Tempo”, de Belchior, com seus requintes de analogia entre a sonoridade das palavras e a concreção dos lugares citados. E em que tudo segue em suave crescendo até se chegar à "estrela do norte/Paixão, morte é certeza", que repõe Fortaleza no seu devido lugar - como uma espécie de Jerusalém. Ou, ainda antes disso, claro, essas velas do Mucuripe saindo para o risco e para uma intemporalidade maior do que a morte.

Quase como último espasmo coletivo, houve o disco-coletânea Massafeira. O disco surgiu como o registro e o subproduto mais notável de um evento mais amplo, envolvendo artes plásticas e performances que ocuparam o Theatro José de Alencar e marcaram época em Fortaleza.

Um empenho pessoal de Ednardo, com co-produção de Augusto Pontes, que sempre foi uma sorte de coringa ou eminência parda da galera. Massafeira, o álbum duplo, marcado pela diversidade, é uma espécie de limiar entre gerações. Hoje, um notável cult. Em “Frio da Serra”, a interpretação de Marta Lopes é preciosa. Vívida. Cheia de frescor: "Lá embaixo, no espaço/ as casas estão com frio". Há algo mais cearense do que o modo como ela pronuncia palavras como “poste” [pósti], com esse "s" tendendo a 'sh'; ou, sobretudo, “dinheiro” [dim-êro], onde o "h" é quase supresso, na bela letra de Brandão? [Coisas assim são de grande vigor cultural, embora passem longe do estereótipo ou do sotaque da telenovela].

Outros destaques vão para a barroca balada “Atalaia” ("paisagem de agreste clarim") interpretada à Fagner por Ferreirinha [Francisco Casaverde]; o bandolim do multinstrumentista Zé Maia em faixas como “Vento Rei”; o espontâneo talento de Wagner (depois Tazo) Costa - à época pouco mais que um menino - em "Isopor" ("Eu vou sair desse jogo malvado,/ Você só quer me ganhar"); e a copla medieval “Aurora”, cantada por Ednardo e Belchior, onde ocorrem versos como “sonhos de aurora eu sonhava/ no colo de minha irmã”, ou ainda: “abre as janelas, manhã”.

Aqui, a manhã entra em vocativo. Conversa-se com ela. E essa prosa parece remeter para uma daquelas casas sertanejas: brancas alpendradas, de pé-direito baixo, perto de um açude. Casas de onde nunca deveríamos ter saído, fosse este mundo mais justo. Ou nossa república menos imperfeita.

A importância de Massafeira, tanto enquanto evento como em seu registro fonográfico, ainda resta por ser dimensionada. A impressão, para quem a testemunhou, era a de uma tempestade pop, que até então só víamos no cinema, desabando ao vivo e em cores, durante quatro dias, em Fortaleza. Para descrever o evento, usou-se no encarte do álbum duplo a expressão "carnaval fora de época". Até entende-se o que se quer dizer com isso. Porém Massafeira foi muito além do que esta expressão tenta traduzir. Afinal, carnaval fora de época - hoje em dia - está mais para algo como a micareta, o Fortal ou alguma estupidez do gênero.

O que seduzia na imensa festividade, no exótico, na diversidade, naquele sobejo de contracultura - o fetiche das guitarras e amps, a tal "velha roupa colorida", os cabelos invariavelmente longos, desgrenhados - era a atmosfera em si.
E isso tudo numa acanhada capital do subúrbio, em plena linha do Equador. Na periferia da periferia do mundo. Aquelas guitarras rascantes ecoando pelas galerias e entornos de seu pequeno e charmoso teatro. Era algo de uma notável sugerência de novidade e vida. E, melhor, de novidade na diversidade. E num tempo em que, por mordaças várias, estávamos apenas começando a saborear a delícia de expressar-nos sem censuras. Inclusive as das patrulhas ideológicas de esquerda.

Para um povo, como o cearense, tão pouco afeito a manifestações assim - mais gregárias, em que o herói são todos e nenhum - o evento resta quase como um marco, nota dissonante. Mas de uma dissonância alegre, espontânea e promissora. O que Massafeira legou foi uma enorme fé na capacidade de elocução coletiva a partir de uma Fortaleza, convenhamos, bem mais provinciana que hoje. Não por acaso, chegou a despertar ciúmes em outros estados. Daí que não poucas matérias ao se referirem ao evento, ou a seu registro em disco, insinuarem que a gravadora CBS - a hoje Sony Music, uma das mais poderosas multinacionais da indústria fonográfica - ser acrônimo de Cearense Bem Sucedido, em referência ao poder de barganha do grupo (em especial de Fagner) junto à direção da empresa.

Em tempo, há dois discos que decretam o ponto final desse impulso: o próprio Massafeira, no plano coletivo; e o álbum Beleza (1979), de Fagner, na esfera mais individual. O álbum é de uma formosura dilacerante. Poucas composições. Arranjos opulentos, sob a supervisão de João Donato. Um time de músicos estelar.
Não há uma única faixa onde não reincida o título do disco. Inclusive a própria faixa título, com letra de Brandão que é verdadeiro achado ("e quando se vê o arame/ que amarra toda gente/ pendendo das estacas/ sob um sol indiferente"). A plangência da voz de Fagner chega a seu paroxismo. Guarda mesmo algo de indizível, limítrofe. Em todas as trilhas, tudo é asa partida, dor. Por exemplo, em uma canção (por sinal subestimada) como "Quer Dizer".

Pode-se sentir a cinco quadras de distância a potência elegíaca desse conjunto de canções tristes. A suíte de um trabalho de luto. Luto individual, mas que também se pode entender como canto de cisne ou estender como mortalha dessa fase heróica do Pessoal do Ceará.

Não é nehum segredo de estado, aliás, que os três nomes mais rutilantes do grupo não são propriamente os melhore amigos na face da terra. Mas é ao menos um consolo relembrar que, em tempos idos, eles já se envolveram em colaborações mais estreitas.
Desde então, Belchior tem trabalhado anos a fio na estrada, em turnês - sobretudo pelo interior de São Paulo e pelo Sul. Ednardo exerceu trabalhos diversos a partir do Rio, sua base. E Fagner, após um começo fulgurante - a exemplo dos dois outros - em que teve discos tão experimentais como Orós, com colaboração de Hermeto Pascoal - cortejou o mercado de forma mais agressiva e popularesca.

Mas o tempo passou. Será que hoje ainda seria possível produzir, por acaso, um disco conceitual com a contundente amargura de Beleza? Ou um exeperimental com as mirabolâncias de Orós?
Difícil responder. Os tempos são outros. A própria noção de disco é já tão outra.
A importância das grandes gravadoras foi alvejada em cheio pelas novas mídias digitais. O que era um sonho distante, remoto, só possível no Rio ou em São Paulo lá pelos já distantes anos 70, é algo que está ao alcance de qualquer cantor de banheiro: gravar um disco.
Levas de cd's produzidos e gravados em Fortaleza são despejados no mercado mês após mês. Mas qual de fato à importância da primeira geração que, de modo coletivo, dotou o Ceará de uma voz e de um sotaque bastante distintos?

O tamanho dessa Estrada de Santana é uma boa medida para se sair atrás de uma resposta. Daquelas capazes de preencher a moral de uma história. O momento foi ímpar. E eles eram jovens.
Não houve solução de continuidade. Ou sequer uma geração subseqüente que soubesse abiscoitar essas finezas. Dialogar com elas. Como quase tudo neste país, esse momento não se desdobrou para fora de si. Cristalizou-se.
E claro, a vida não estava ganha. E era preciso ganhá-la. Nesse processo, se foi um pessoal. Alguns devotaram-se a um sucesso um tanto tacanho. Outros desapareceram dentro daquela noite.
E a mesa em que ela estava posta, por um mau agouro, talvez se tenha convertido apenas num balcão para negócios sortidos e bem menos espontaneidade e arte.

Quantos de fato souberam do tamanho dessa estrada?


Nota - artigo originalmente publicado no jornal O Povo, em 2003, em versão abreviada. Dica: é possível baixar na íntegra o álbum duplo Massafeira (1980) pela internet.

----------

Blog de Ruy Vasconcelos - AFETIVAGEM
http://afetivagem.blogspot.com/2008/12/o-pessoal-do-cear-um-encmio.html

-----------
Ruy Vasconcelos é Jornalista, Escritor e Tradutor.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Poesia em Prosa

Calíope - A Musa
São Paulo / SP





Ele fez uma poesia em prosa no meu corpo.
Desenhou as linhas em minha pele com o calor de seus beijos.
E com a ponta da língua escreveu cada palavra com os fluidos do seu corpo,
E eles transbordaram em mim, quentes e macios.
E eu me afoguei naquele rio de luxúria.
E fui resgatada por aquele abraço sensual.
Levou-me ao delírio


Depois se deitou ao meu lado com todas aquelas palavras doces,
O afago no lugar certo
Me deixou descansar em seu colo.
Me deixou sonhar em seus braços
Me deixou sorrir naquele gozo intenso.
Éramos um mistério um para o outro.
Sabíamos breves linhas das crônicas da vida de um e do outro
Mas ali, o paraíso era ali
Meu paraíso de sensações confortáveis,


O incenso de rosa branca, o lençol de seda, o espumante.
E tivemos uma vida que durou uma noite.
Não houve vida mais pulsante que a vida vivida nos braços dele...
Emoções intensas em curto prazo.
Meu desejo mais ardente.


E no dia seguinte eu era apenas a “ página virada, descartada do seu Folhetim”.
Então ele acordou
E engolimos apressadamente o nosso café e o amor,
Eu procurava o seu olhar, e ele, a chave do carro.
Enfim, a despedida:- “A gente se fala linda, nos encontramos em algum bar da vida”.

___________________________

Texto publicado com Autorização da Autora
Calíope - A Musa

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Objetores de Consciência

Vídeo dos objetores de consciência que se recusaram a servir o exército de ocupação de Israel. Jovens secundaristas de 18 e 19 anos que discordam da política de ocupação da Palestina. Foram presos. Vídeo remete a uma carta de apoio a ser enviada ao ministro da defesa de Israel.

Post do orkut por João Bani

domingo, 11 de janeiro de 2009

IMAGINE - PAZ PARA TODOS

Estava a imaginar como abriria os posts neste ano de 2009.

Diante de tantas coisas, algumas boas, mas muitas outras não, do que acontece no mundo, cheguei a conclusão do que é necessário, com estas canções, uma de Jonh Lennon - Imagine e outra de Louis Armstrong - What a Wonderful World

É necessário abrir portas e janelas da percepção para ver o que acontece ao nosso redor.



quarta-feira, 31 de dezembro de 2008


Já é 2009 na Austrália.
Feliz Ano Novo para todos.

Para Todos?

Será que podemos comemorar sem pensar um pouco e muito em todos cidadãos do mundo, aqueles que por exemplo estão em países em guerra?

A Terra é Mãe, e acolhe a todos, tanto em sua superfície quanto em sua morada final.

Mas essa coisa de algumas nações pelo poder e força bruta tentarem dominar outras por questões de terrritórios, poder econômico, militar, interêsses politicos e religiosos, parece até que não conhecem o anunciado de uma Lei Básica da Física, de Isaac Newton - Cada Ação Corresponde uma Reação Igual e em Sentido Contrário.

Elke Maravilha, Russa, de Minas Gerais com um pé em Leningrado (atual São Petersburgo) e outro pé no Brasil, foi criada brasileira entre descendentes de africanos, na fazenda Cubango, em Itabira, Minas Gerais, a mesma cidade onde nasceu Carlos Drummond de Andrade.

Elke Grunupp, teve seu pai deportado para Sibéria durante 6 anos por regime totalitário, recebeu seu papai ao chegar em casa com uma martelada na cabeça, após sua fuga dos "Arquipélagos Gulag", e indagando quem é essa pessoa?

Descendente de azerbaijanos, mongóis e vikings, a mãe, Lieselotte Von Sodern, era alemã, nobre que se apaixonou por um plebeu. Seu pai, George Grunupp, insurgiu-se contra o stalinismo e a União Soviética natal, em 1939.

A guerra de ideologias causa distorções absurdas e confusão mental nas gerações posteriores, uma das melhores frases de Elke Maravilha entre as muitas registradas, está numa entrevista concedida ao Jornalista Pedro Alexandre Sanches:

"Meu pai escolheu o Brasil porque para ele era o país das infinitas possibilidades. E é. Chegamos na baía da Guanabara e fomos despejados num campozinho de concentração na Ilha das Flores. Hoje é um quartel", lembra. "Aqui judeu se dá com árabe e vão juntos para a macumba."

Este post encerrando o ano de 2008 (já é 2009 na Austrália), vai para a infinita lucidez de Elke A Maravilha, sua beleza e coragem. E também pensando que podemos fazer uma reflexão, mesmo que por alguns minutos sobre tudo que está acontecendo no mundo, aqui e agora e em todos os países.



Feliz 2009 para Todos.



terça-feira, 30 de dezembro de 2008

F E L I Z 2 0 0 9


Amigos e Amigas que neste ano prestigiaram com suas presenças o Zeca Zines.

Desejo pra vocês tudo de bom mesmo.

Valeu!

Esta foto sobre o Espírito Natalino e Ano Novo, "pesquei" do blog do amigo Piauinauta, achei bastante significativa para nossas reflexões.

Abraços à todos, e até 2009.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Rompendo as Entranhas do Chão

Entrevista com Ednardo realizada por Magno Córdova – Mestrado UnB - Música do Ceará e do Piauí - 2006

Rompendo as entranhas do chão:
Cidade e Identidade de Migrantes do Ceará e do Piauí
na MPB dos Anos 70

Magno Cirqueira Córdova


__________________________________


Nota:
Zeca Zines, leu a excelente defesa de tese de Magno Córdova, para a UnB (Universidade de Brasília) em sua Pós-Graduação em História Cultural - Agosto de 2006.

O autor está transformando a tese em livro abrangente, de importância fundamental, onde foca nomes e trabalhos poéticos e musicais desta geração, que conquistou o Brasil e Exterior, dentro de contextos e nuances universais, brasileiras e regionais, com especial destaque a Música Popular Brasileira.

É um estudo minucioso e rico de informações, onde as obras artísticas de vários artistas migrantes do Ceará e Piauí se inserem de forma plena na MPB entre eles: Ednardo, Fagner, Belchior, Fausto Nilo, Augusto Pontes, Climério, Clodo, Clésio, e muitos outros nomes de igual importância.

Zeca Zines aplaude com entusiasmo a iniciativa de Magno Córdova e faz votos que este livro esteja disponível no mais breve tempo, a todos que se interessam pelo assunto.

A seguir a entrevista de Ednardo concedida a Magno Córdova.

_______________________________


MC - Na época em que alguns dos parceiros do Ceará residiram em Brasília, no início da década de 70, vocês continuaram mantendo contatos? A concepção do disco coletivo Meu corpo, minha embalagem, todo gasto na viagem ocorreu quando todos (você, Rodger e Teti, principalmente) já se encontravam em São Paulo, ou a idéia de um trabalho conjunto, mais orgânico, já havia sido cogitada em Fortaleza?

ED - Quando residíamos em Fortaleza, o tempo de todos era ocupado pelo aspecto de fazer músicas, e letras, teatro, artes plásticas, etc., tudo que estivesse no contexto artístico.
Também tínhamos nossos estudos em faculdades e trabalhos. Naquela época, até talvez, por causa do curto tempo disponível de cada um, não existia na maior parte dos participantes, a preocupação organizacional, projetos, ou cogitar trabalhos futuros.

A vida era, como é, urgente!
Claro que alguns tinham o enfoque de pensar o todo, entre eles, Augusto Pontes, sem dúvidas, tinha esta visão futura, mas o pessoal, embora se reunisse sempre que possível, tinha tanta premência de se expressar em tão exíguo espaço de tempo.
De certa forma sabíamos que, uma parte significativa das pessoas iria desaguar em outros espaços, nossa cidade de Fortaleza, naquele momento era pequena, ou não comportava tanta criatividade, certo é que existia uma inadequação às propostas de todos naquele momento. Não sei se houve projeto arquitetado neste sentido, as necessidades de todos foram se desenvolvendo de forma grupal e individuais sem concepções à priori.

O fato é que no êxodo existem direções em três partes, alguns foram para Brasília, outros para o Rio de Janeiro e outros para São Paulo. E sempre que possível mantínhamos contactos, claro que sem as facilidades de internet e comunicações de hoje em dia. Mas existia esta energia que rolava sempre que era possível uma reunião. Às vezes maravilhosas, outras deixavam a desejar, era um tempo de exceção, ditadura, competição de espaços.

MC - Você se lembra - e pode narrar - a circunstância em que se deu o contato inicial com Climério?

ED - A ponte inicial com o Climério, foi feita pelo parceiro Augusto Pontes em 72, após um show que realizei na UnB – Auditório Dois Candangos, para os estudantes de Brasília, estavam presentes na platéia Augusto Pontes, Yeda Estergilda, Climério e Clodo e uma quantidade muito grande de estudantes e professores, estava tudo lotado, cadeiras, e no chão, tudo apinhado de gente.

Para entrar no palco, já que todos acessos estavam bloqueados pelo excesso de pessoas, tive que subir por uma escada que arranjaram no momento e através de uma janela lateral que ficava a uns dois metros de altura, dar um salto diretamente para o palco, pra delírio da platéia que comentou que foi uma das entradas em cena das mais sensacionais e inusitadas.

No dia seguinte os irmãos Ferreira, convidaram para ir na casa de Dona Alice, matriarca da família. Lembro até hoje seu sorriso luminoso, com voz suave, pautada e amiga. Foi ótimo, tocamos violões, cantamos, tomamos cervejas e principalmente se fez amizade plena que resulta em várias parcerias artísticas.

MC - Como foi que surgiu a idéia e como se deu a sua atuação junto aos irmãos Ferreira no primeiro disco da carreira do trio, o São Piauí?

ED - Na casa de Dona Alice, escutei algumas músicas do Climério, Clodo e Clésio e gostei da sonoridade e letras daquelas músicas. Disse pra eles que quando tivesse oportunidade eu gravaria um disco com eles. Anos depois Climério foi residir em São José dos Campos / São Paulo, em pós-graduação universitária, no INPE, nossos contatos foram mais freqüentes, ele foi diversas vezes à minha casa em São Paulo, e convidava para também ir a São José dos Campos. No Bar do Pedro entre músicas, violões e cervejas, a idéia de nossa parceria foi sendo construída.

Tinha a Frô do Avaré, Flying Banana (Carlão, Bê e Passoca), os shows que fiz em São José. Foi quando em 76 a música Pavão Mysteriozo, foi sucesso no Brasil e exterior e falei pro Climério – “Sabe aquela lance que conversamos em Brasília, acho que agora eu posso sugerir para gravadora, o disco de vocês”.

O Cli tomou um susto e disse que o que eles estavam pensando era eu gravar músicas deles, e eu disse que minha idéia era outra: Eles próprios gravarem suas músicas.
Foi uma noite de justificações do Climério tentando convencer que eles não eram artistas, não tinham voz pra isto, cada um já realizava outro trabalho diferente desta praia, e eu tentando convencer que eles podiam sim, gravar este disco com suas vozes.

Terminamos a noite, eu, o Cli, o Flying Banana, a Frô do Avaré (Evelise), sentados na calçada frente ao Banhado que tem uma vista privilegiada pro Vale de São José dos Campos, era inverno e estava amanhecendo, e no brumado, lá ao longe se via um trem envolto em neblinas, o céu se confundia com a terra e formava no difuso um espaço mágico e eu falei - Olha ali Cli, está vendo aquele trem flutuando nas nuvens, parece um cinema impossível, aquela máquina e seus vagões estão voando aos nossos olhos, vocês podem sonhar um pouco mais, e ver que é possível você e seus irmãos gravarem este disco?

Semanas depois, nos reunimos em São Paulo em quatro dias e noites, gravando no “Tenda Som” – (pequeno estúdio em minha casa) umas vinte e tantas músicas em k7 que levei à direção artística da RCA, (atual BMG), e o Cli falando rapaz isso é somente uns “Pensames”, eles não vão querer.

Foi difícil convencer a direção artística da gravadora, levei-os ao programa da TV Bandeirantes – Mambembe, produzido por Walter Silva, onde também o Pessoal do Ceará se apresentava semanalmente junto a outros participantes, e o Walter os colocou pra cantar, chamei um assistente de direção artística da gravadora para dar uma olhada, pois no dia seguinte os irmãos Ferreira estavam voltando pra suas casas, e na prorrogação, do segundo tempo, minutos finais, recebi o telefonema da gravadora autorizando a gravação do disco São Piauí, fui avisá-los na Rodoviária de São Paulo, que ficava ao lado da Estação da Luz.

Os ensaios e arranjos foram realizados em minha casa durante duas ou três semanas, junto aos músicos de base. O disco entre gravações, mixagens, artes gráficas de capas, em pouco mais que dois meses. E o resto é história, deste disco inaugural da maior importância – São Piauí.

MC - A música "Folia ou Pressa" tem algum significado histórico especial para você, ou a sua "(re) descoberta" se deu mais recentemente?

ED - O disco “Única Pessoa” é formatado com objetivo onde minha ação principal é de intérprete.
Há muito tempo queria realizar disco com esta característica.
Escolhemos temas que se coadunavam e foram feitas seleções de mais de 80 músicas até chegarmos naquele perfil, com obras de autores de várias localizações abrangentes.

Tem autores do Ceará, Piauí, Maranhão, Pará, Rio de Janeiro, Goiânia, Paraíba, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, e além Brasil tem música de autora de Cuba.

Só interpreto músicas de outros quando gosto, e somente quando me dá prazer em cantá-las, então vejo todas estas músicas de forma especial, mas entre umas e outras, não existe um significado de diferença, todas fazem parte do universo, que não necessariamente, representa histórico pessoal complementar, é mais por gostar de cantar, mesmo.

MC - No disco Cauim você gravou "Terezina - 40 Graus". (Eu não conheço o filme Cauim, onde talvez haja algum esclarecimento sobre a pergunta que se segue). Como foi - e é - sua relação com a cidade de Teresina, em particular, e com o território do estado do Piauí, de uma maneira geral?

ED - Tenho proximidade artística e existencial com o Piauí, grandes amigos e amigas, alguns parceiros como Climério, Brandão, realizei produções artísticas como por exemplo na Massafeira que resultou em disco duplo, onde estão Chico Pio, Ana Fonteles, Zezé Fonteles, Jabuti, todos eles do Piauí, produzi o primeiro disco dos irmãos Ferreira, Climério, Clodo e Clésio, é uma lista representativa, que inclue também entre os amigos, Cinéas Santos, Wellington Dias, Jorge Mello, e tantos outros.

Aliás, o Ceará e Piauí, têm historicamente muitos itens em comum e complementar. A Serra da Ibiapaba é uma espécie de “fronteira” permeável. Existe história que antes, o Estado do Piauí, não tinha em seu território parte que dava pro mar e os governos destes Estados trocaram territórios, uma parte do pé de serra da Ibiapaba que era do Piauí, por uma parte do litoral que era do Ceará – que hoje representa aquela faixa de Parnaíba.

Além disto tem o grande fluxo de seus habitantes que se dá em duas vias de mãos, corações e mentes, tanto do Ceará para o Piauí, quando do Piauí para o Ceará. Tanto que tranqüilamente existe este fluxo há muito tempo, onde todos se sentem em sua própria casa.

MC - Você pode me falar a respeito da inclusão de "Rasguei o teu retrato" e "Na asa do vento" ao seu repertório discográfico?

ED - Desde menino, escuto músicas de compositores, autores e intérpretes que antecederam nossa geração, contemporâneos e novos, tanto na área popular quanto clássica, é natural que esta memória afetiva esteja presente eivando vários momentos.

Em meus discos além de ter aberto espaços para inúmeras parcerias, vez por outra reservo alguns espaços para interpretar obras de outros autores, além destas que você cita tais como, Cândido das Neves e João do Vale, Luiz Vieira, Belchior, Fausto Nilo, Petrúcio Maia, Humberto Teixeira, Lauro Maia, Augusto Pontes, Graco, Stélio Valle, entre muitos outros, o que se concretiza mais claramente no disco “Única Pessoa” que gravei em 2000, disco que realizei como intérprete de músicas de Chico Buarque, Milton Nascimento, Fernando Brant, Totonho Villeroy, Bebeto Alves, Nilson Chaves, Jamil Damous, Clésio Ferreira, Augusto Pontes, Maria Tereza Lara, Javier di Mar-y-Abá, Régis Soares, Chico Pio, Neudo Alencar, Rogério Soares, Lauro Maia, Humberto Teixeira, Antonio Cícero, Orlando Moraes, com uma única música minha em parceria com Chico César.

MC - A canção "Serenata pra Brazilha" foi composta à época do lançamento do Imã? É possível você falar sobre esta composição e sobre o lugar ocupado pela cidade de Brasília em sua trajetória?

ED - Serenata pra Brazilha foi realizada durante a gravação do disco Imã, em 79 junto ao disco duplo Massafeira, os três discos foram lançados em 80. Esta música inclusive foi gravada somente com voz e violão, uma espécie de serenata pra uma cidade que talvez não comportasse serenatas, a não ser nas periferias das cidades satélites, mas achei interessante contrapor o fato quase que impossível de se fazer uma serenata no plano piloto e suas asas, mas afeito às preocupações políticas partidárias e funcionalismo público, mas não só isto, como uma espécie de toque de união geral à alma do povo brasileiro, a música foi gravada no disco logo após a composição feita.

Gosto muito de Brasília, a idéia estética de cidade construída, de forma moderna e pensada, no Brasil.
Tem outras cidades construídas desta forma, mas a idéia de conjunto arquitetônico de Brasília é fenomenal nas concepções de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa.

Mas não é só isto que me liga a Brasília, meu pai, Professor Oscar Costa Sousa, falava muito de Dom Bosco, de suas profecias, seus métodos de ensino, lia ensinamentos com constância, tanto que fundou em Fortaleza, como professor e diretor, o Ginásio Dom Bosco, no qual exerceu magistério por mais de 50 anos.
Então veio a vontade de conhecer a concretização realizada por Juscelino Kubitscheck, que igualmente lia Dom Bosco.
Juntou-se ao fato que alguns parceiros e companheiros de artes também foram morar nesta capital, e ao chegar pela primeira vez, fiquei extasiado por sua energia, é lindo o cerrado, o planalto central tem de verdade coisas muito especiais, além de ser a concentração do status quo político da nação.

Pois Brasília não é apenas a sede do poder político brasileiro.
Nesta música coloco Brasília com Z, a última letra das incógnitas, como se aprende na álgebra.
Z no alfabeto grego também significa vida.
Tenho muitos amigos em Brasília. Também é um desaguar de habitantes de todas as partes do planeta, é uma “ilha” e um “espaço-porto”, onde aí encontrei também os descendentes dos primeiros desbravadores, chamados “candangos” que ajudaram construir a cidade, e nesta “cosmo-visão” a música já estava pronta e veio num repente.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

A Fidelidade Estética de Ednardo


Entrevista concedida por Ednardo a Revista Bula
Goiânia

17/11/2008 Por
http://www.revistabula.com/materia/a-fidelidade-estetica-de-ednardo/884


“Em meu estoque de propósitos não está disponível vender o que não ofereço, nem existe vaga para compradores de meus sonhos. Acho que caminho à minha própria luz e não está em minhas preocupações obter massificação ao custo da integridade artística ou do que possa aviltar aquilo em que acredito”.


____________________________________

Quem não se lembra de “Pavão Misteryozo”, “Artigo 26”, “Terral” e “Enquanto Engoma a Calça”? Bastariam essas quatro canções — sucesso de público e crítica — para inscrever o cearense Ednardo entre os grandes músicos da MPB. Ao lado de Belchior, Amelinha e Fagner, ele foi um dos integrantes do Pessoal do Ceará, grupo que, a exemplo dos Novos Baianos de Moraes Moreira & Cia., reabriu o caminho do Nordeste na música popular brasileira, depois do sucesso do tropicalismo de Caetano e Gil.

Natural de Fortaleza, onde nasceu em 1945, José Ednardo Soares Costa Sousa estudou piano e violão na juventude e graduou-se em química pela Universidade Federal do Ceará. Em 1972, gravou seu primeiro disco (um compacto duplo), com a cantora Eliana Pittman. No ano seguinte, juntamente com Rodger e Teti, gravou o disco Pessoal do Ceará, que iria tornar nacionalmente conhecido o movimento que se iniciara no final da década de 60. Radicando-se em São Paulo, com outros integrantes do Pessoal do Ceará, apresentou-se em programas da TV Cultura.

Mas o sucesso veio em 1976, com a música “Pavão Mysteriozo”, trilha sonora da novela Saramandaia, da Rede Globo. A partir daí, Ednardo firmou-se como um dos ícones da nova música nordestina, que tomou conta das rádios do país na primeira metade da década de 80, até que o rock nacional e, depois, a música sertaneja e o axé, viessem a expulsá-la da mídia. Ednardo, como outros grandes músicos brasileiros, deixou de tocar no rádio. Mas sua música indelével manteve o público fiel. Não só no Brasil, mas também na Europa, na Ásia, nas Américas.

Com 32 anos de carreira em disco e mais de 250 músicas gravadas, Ednardo manteve-se fiel a uma proposta estética que prima pela qualidade, fundindo o regional e o urbano, a sofisticação e a singeleza. Em 2002, ele juntou-se a Belchior e Amelinha para reviver o Pessoal do Ceará, num disco que leva esse nome. O CD traz os clássicos do grupo e duas canções inéditas, entre elas a bela “Mote, Tom e Radar”, do próprio Ednardo. Antes, em 2000, ele lançou o disco Única Pessoa, em que mostra o seu lado de intérprete.

A revista eletrônica Bula, por intermédio de seus editores, conversaram com Ednardo. O resultado da conversa, via correio eletrônico, revela não apenas o grande compositor e intérprete da MPB, mas o artista consciente das mazelas da indústria cultural. Nesta entrevista, Ednardo explica qual o verdadeiro significado do Pessoal do Ceará, critica o jabá que impera nas emissoras de rádio e não poupa o conterrâneo Fagner. E mostra que sua arte continua mais viva do que nunca, encantando o país à revelia da mídia.

________________________________________


Carlos Willian — Onde você nasceu?

Ednardo - Em Fortaleza, em uma casa à Rua Senador Pompeu. Os cearenses brincam, dizendo que é a rua mais extensa do mundo: inicia na beira da praia, atravessa em linha reta toda a cidade, transforma-se em estrada, vai pelo interior do Ceará, em direção a todo o Brasil.

Carlos Willian — Há artista injustiçado?

Ednardo - Não; sim; talvez. Quem saberá o que é isto que trafega entre a bruta força dos meios, onde os artistas navegam com sutilezas? Grandes gravadoras e a mass mídia, com raras e honrosas exceções, têm tratado o assunto música brasileira, com distanciamento, desconhecimento e outros interesses prejudiciais às nossas diversidades e riqueza musical, rítmica, poética e estética.
Não é difícil perceber. Escutem rádios, vejam tevês, saibam como se escolhem prioridades de lançamentos de discos, patrocínios, projetos artísticos, quais espaços e horários de programações.
Àquilo a que grande parte da massa tem acesso está muito aquém da importância e popularidade das artes e músicas realizadas pelos artistas brasileiros. É só viajar por esse país para se perceber isso. A sensibilidade aflora, o povo brasileiro é sofisticado em sua cultura popular e exige ser tratado com respeito, e requer ter acesso ao reflexo de seu verdadeiro espelho, em todas as cores e estéticas.
O país é gigantesco, seu povo maior ainda. Sabemos que a grande indústria cultural, aquela que comanda espaço e tempo na mídia, tem objetivos diferentes da indústria cultural nacional que enfrenta sérias dificuldades para o seu crescimento. A consciência quanto à atenção aos produtos audiovisuais, livros, teatro, cinema etc., valorizando seu povo, costumes e identidade, que são de importâncias fundamentais para se construir uma nação, fica em segundo plano.

O brasileiro, nos tempos atuais, tem poucas opções e passa a consumir o que for filtrado e decidido por terceiros e seus representantes, empurrado entre campanhas publicitárias, marketing e canhões da mídia. A afirmação não é individualista, nem xenófoba. A manipulação instituída pelo jabá pode ser chamada de crime irresponsável e indistinto, e estão fazendo isto com nosso povo, e seus artistas — antenas da raça — como fala Ezra Pound. Adjetivar no sentido singular é tentar desviar o foco da verdadeira questão.

Carlos Willian — Zeca Baleiro afirmou que você o influenciou. E quanto a você, quais foram as suas influências?

Ednardo - Li matérias de vários artistas com essa afirmativa. Penso que são influências naturais e iniciais de admiração, respeito e aprendizado para depois decolar livre. Claro que também tive mestres, aprendendo bastante com todos.
Ao começar a fazer música, estudava piano clássico e popular, entre os cinco e quatorze anos. Freqüentava auditórios de programas de rádios que apresentavam cantores e orquestras de fama nacional ao vivo, ao mesmo tempo escutava o que as rádios de Fortaleza, Rio de Janeiro e vários países ofereciam aos ouvintes.
Tínhamos um rádio valvulado com ondas médias, curtas e tropicais, onde todas as correntes musicais coexistiam fartamente difundidas e uma discoteca ampla que eu tratava com carinho desde os discos de cera dos meus pais aos long-plays que passei a adquirir com freqüência.
Tanto em Fortaleza quanto em viagens aos litorais e interior do Ceará mais distantes, ia aos espaços públicos de carnavais e feiras livres, para ver e escutar maracatus, violeiros repentistas e sanfoneiros, bumba-boi, congados, frevos, forrós, cocos, emboladas e sambas, descobrindo músicas, ritmos afro-brasileiros e indígenas e suas vertentes culturais.
Entre os 15 e 25 anos, meu instrumento mais constante foi o violão, tanto na vertente dos movimentos musicais que vinham de fora, rock, blues e jazz, quanto na vertente brasileira, baião, bossa nova, samba, choro, além da vertente latina, bolero, rumba. As músicas de protesto contra guerras e ditaduras, chegaram ao nosso conhecimento, e percebemos o que acontecia na América Latina com regimes políticos autoritários e totalitários que alguns tentaram combater pelas armas e outros pelas artes.

Também acontecia o pessoal da Bahia, São Paulo, Rio, Minas, Recife, Paraíba, Piauí, e de muitas outras regiões do país. Fui abençoado por todas estas vertentes que eivaram meu espírito e criatividade. É uma lista enorme de influências, acho que dá para ter uma idéia. Agradeço aos sábios mestres terem me proporcionado este universo. Os melhores ensinamentos que o conjunto das influências proporcionaram foi, sem dúvida, ter mente, sensibilidade e consciência, voz e conteúdo para cantar e ouvidos abertos e atentos, com plenitude de emoções e compreensão do que somos.

Carlos Willian — Alguns críticos dizem que você ficou à sombra de Fagner, mesmo sendo um artista mais completo do que ele. Em sua opinião, por que você não alcançou a mesma projeção?

Ednardo - Do ponto de vista artístico, a abordagem é inusitada e desconheço comentário neste sentido. Quem possui visão abalizada e isenta e conhece nossos trabalhos artísticos, não se refere desse modo ao que tenho realizado nestes 32 anos de música. Somos diferentes e distantes o suficiente, o que impossibilita essas colocações. O fato de sermos conterrâneos, de uma mesma geração criativa, não induz comparações de nossas obras, de nossos projetos artísticos e existenciais. Não se trata de valoração pessoal, é uma constatação, sem equívoco.

Em meu estoque de propósitos não está disponível vender o que não ofereço, nem existe vaga para compradores de meus sonhos. Acho que caminho à minha própria luz e não está em minhas preocupações obter massificação ao custo da integridade artística ou do que possa aviltar aquilo em que acredito. Está implícito e explícito em minha obra e posição existencial. Porque querer essa tal de “mesma projeção” onde alguns para alcançá-la vendem a alma?

Antônio Carlos dos Santos — Por que não se escuta mais Ednardo nas rádios?

Ednardo - Não se escuta mais, com tanta freqüência, grande e impressionante quantidade de artistas brasileiros. É esclarecedor se programadores destes meios e seus departamentos comerciais respondessem à pergunta de forma clara e verdadeira.
São eles que são comandados na “escolha” e oferecem ao público o que escutamos e vemos e deixam grande parte do que representa a música brasileira fora da lista do que é difundido.
Foi o que mostrou criteriosa pesquisa realizada pelo jornalista Sérgio Rubens Torres e publicada no jornal Hora do Povo, de São Paulo. Recomendo a leitura desta matéria, que pode ser encontrada na Internet www.horadopovo.com.br/2004/julho/16-07-04/pag8a.htm

O Jabá! Prática famigerada das gravadoras que estabeleceu a censura econômica junto com a conivência e interesses de alguns meios de comunicação e massificação. Junto ao pagamento, enviam a lista de poucos artistas e tendências musicais de seus casts aos controladores do mass media. As trinta moedas da traição à música brasileira têm forma sutil, sem rastros visíveis dos “serviços prestados” por corrompidos aos corruptores.
Outras terríveis formas de convencimento são as demissões sumárias daqueles que ousam divulgar o que não está na lista ou quando expressam suas opiniões. E isto não é só na área da música.

Talvez alguns executivos de gravadoras atualmente se arrependam de ter criado o monstro que anualmente custa aos seus departamentos, 95 milhões de reais e tende a crescer, pois a fome dos que atendem ao controle é insaciável.

Deixo bem claro, que seria injusto generalizar, pois alguns meios de comunicação, cada vez mais raros, demonstram em planilhas do Ecad que, em várias cidades e emissoras, continuam sendo difundidos, para grande número de ouvintes, muitos artistas brasileiros sem que seja necessário pagar para tocar. São emissoras que dignamente entendem o que significa concessões públicas, além de propósitos comerciais, e sabem que música é música e comercial é comercial e que sem cultura própria tudo fica nas mãos de outros, incluindo a opção de escolha individual ou coletiva.

Antônio Carlos dos Santos - Você é um tipo raro de artista que, mesmo estando fora da mídia, tem um público cativo. Por quê?

Ednardo - Tipos raros de artistas existem em vários segmentos da música brasileira. Mídia é o conjunto de meios de comunicações, veículos, recursos, técnicas, suporte, tecnologias de gravação e registro de informações, jornal, livro, rádio, televisão, cinema, audiovisuais, discos, DVD, vídeo, internet, show, divulgação, etc. Quanto ao público que prestigia meus shows e discos, é bem mais amplo.

Tenho, atualmente, mais de 350 obras e gravações registradas em discos originais e compilações, trilhas de cinema e teatro, especiais de televisão. Isso resulta, em média de registros, mais de 12 músicas por ano ao longo de 32 anos. Realizo shows pelo Brasil que geram matérias em jornais, rádios, tevês, em espaços significativos. Os produtores de shows constatam a receptividade da platéia em eventos de médio e grande portes.
Então, não estou tão fora da mídia assim. Na mídia limpa, sem forçar a barra, estou presente. Nenhum artista resistiria tanto tempo sem a mesma. Essa constatação é compartilhada por muitos e em grande escala nestas viagens pelo Brasil.

Acho que não cabe a mim, explicar, esse fato, o que sei é que, desde os primeiros discos, é visível a aceitação popular. Penso que não me distanciei do depositário da cultura popular do qual recebo e ao qual devolvo. Assim demonstram sucessos de várias músicas.
Reservo espaço onde outras pessoas interagem com seus próprios sonhos e realidades, formam imagens exclusivas em novas combinações das histórias do cotidiano, reportagem do que penso que merece ser musicado, pontes entre minha percepção e personas que habitam o coletivo existencial de cada um de nós.
Algumas são aceitas de imediato pelo povo, outras passam pelo tempo necessário à percepção geral.
Especialistas musicais e culturais atestam que existe alquimia sonora e de palavras que, juntamente com a minha posição existencial, artística, formam conjunturas de credibilidade em diferentes abordagens válidas e atuais em várias faixas etárias e segmentos sociais. Estou no meu lugar e a realidade também pertence a todos.

Antônio Carlos dos Santos — Como é o seu contato com o Pessoal do Ceará? Ficou mágoa de algum deles?

Ednardo - Sempre que nos encontramos existem momentos gratificantes. Conversamos sobre arte, vida, cultura, lances normais do cotidiano. Alguns projetos se concretizam, outros são adiados. Nesse ano, realizamos shows, para um grande público, no Festival de Inverno de Petrópolis e Friburgo, no Rio de Janeiro — Ednardo, Amelinha e Belchior, que gerou nosso disco lançado na Warner em 2002. O show de Fortaleza, em 2001 (Ednardo, Belchior e Fagner), não gerou disco, embora com um público de 100 mil pessoas. Outro encontro foi o show gravado pela TV Globo, no Som Brasil (Ednardo, Amelinha, Belchior), com público idêntico, mas também sem disco.

Mas tem a Massafeira 1979 com mais de trezentos artistas de diversas áreas e gerações criativas que resultou no disco duplo Massafeira (CBS, Sony, 1980), que é um capítulo especial do Pessoal do Ceará.
E ainda o Balanço da Massa (Fortaleza, 1995), junto com artistas da nova geração.

É preciso entender que Pessoal do Ceará é bem maior que o grupo que a mídia costumou citar. Quem tem o primeiro disco Pessoal do Ceará (Ednardo, Teti, Rodger Rogério), lançado pela Continental em 1972, um vinil capa dupla, sabe da diversidade e valor de muitos nomes citados na capa interna e também da diversa significação artística nos segmentos de música, poesia, literatura, artes plásticas, teatro e outras formas de expressão.
Como em todo grupo, principalmente de pessoas ligadas ao fazer artístico e cultural de qualquer lugar, existem naturais competições de egos e defesas de ponto de vista estéticos devido à diversidade de propostas, que são resolvidas com inteligência, amizade, civilidade e bom humor. Dificilmente perduram mágoas ou qualquer coisa desse tipo, a não ser se houver falta de ética, mas aí já é outra coisa.

Antônio Carlos dos Santos — Quais são as novas revelações da música brasileira?

Ednardo - A cada geração que se renova, conhecemos valorosos autores e intérpretes. É vital que cada geração artística reconheça a importância daqueles que a antecedem e seja generosa com aqueles que chegam na continuidade evolutiva da música brasileira.
Também temos a realidade absurda que embota e apaga o que é significante dos registros e memórias brasileiras.
Às vezes, para falar do presente, é necessário dar uma volta no passado para termos saudades do futuro.
Desenvolvemos projetos neste sentido: Nosso primeiro disco já tinha esta característica de entender individualidades criativas dentro de processos grupais. Também lançamos o primeiro disco dos piauienses Climério, Clodo e Clésio, livro de poesias do Brandão, primeiras músicas dos cearenses Petrúcio Maia, Fausto Nilo, Augusto Pontes, Fagner, Ricardo Bezerra, os movimentos da Massafeira Livre e Balanço da Massa.

Especialmente a Massafeira uma das mais ousadas e seminais iniciativas de mostrar ao país o que acontecia em termos de arte contemporânea espontânea e enraizada no final dos 70 para o início dos 80. Grande feira cultural feita por nós artistas, sem nenhuma injunção exterior, juntou música, artes plásticas, literatura, teatro, dança, cinema, artesanato e culinária sem nenhuma espécie de filtragens, com artistas de várias regiões, mais de 300, reunidos no Theatro José de Alencar, em Fortaleza, em março de 1979.
Depois, outros tantos na gravação do disco duplo no Rio de Janeiro. E, em seguida, para lançar o disco duplo no Theatro José de Alencar, em outubro de 1980. Mas muito pouco se falou no Brasil da importância da Massafeira.

Desde os meus primeiros discos coabitam várias gerações. A constante vem aos mais recentes discos, como Única Pessoa, que tem autores de várias regiões: Rio de Janeiro, Ceará, Piauí, Goiás, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Pará, Maranhão, Paraíba.

Acompanho a cena musical brasileira sempre que possível. Percebo que de todos lugares despontam pessoas que se somam aos que já têm estrada. A quantidade e qualidade de discos nas áreas alternativas e independentes, e alguns poucos de forma bem mais rara nas majors, tem seu devido reconhecimento. Muitos dos bons, estão lutando por seus espaços e colhendo frutos, mesmo que o terreno atual esteja difícil de plantar.

Mas é delicado nominar artista ou grupo, no estágio inicial do que chamam “os novos”. Citar alguns, é possível esquecer outros também importantes, e não quero para mim a função de ficar indicando ou descobrindo novos talentos de maneira paternalista, parecendo que não tenho assunto próprio para colocar em pauta.
Mas continuo a ter olhos e ouvidos atentos para o que acontece com a mesma capacidade de abraçar e dizer: sejam bem-vindos.

Carlos Willian — Quem é o maior compositor brasileiro: Chico ou Tom?

Ednardo - Justamente pela compreensão do gigantesco universo da música brasileira, seria adequado fazer uma lista bem maior, lógico que também incluindo estes bem-citados artistas e muitos, muitos outros. Seria indelicado escolher “o maior” entre todos. A música brasileira não é somente aquela feita em determinada região, ou por compositores de correntes musicais ou gerações criativas, ou ao que é visível na atualidade. É muito mais do que isso.

Carlos Willian — A letra da música “Ima” aparece em alguns livros de literatura. Em sua opinião, letra de música é poesia?

Ednardo - Além desta, outras têm sido usadas em livros de literatura, compilações de poesia, crônicas e até em livros didáticos. Partindo do princípio de que poesia pode ser musicada, em contrapartida, muitas letras de música, quando realizadas com critério, também existem como poesia, independentemente da música. É um fato que se observa com freqüência desde os antigos bardos e trovadores até as obras lítero-musicais atuais no Brasil e no exterior.
A música brasileira está plena desses exemplos. Não pretendo enquadrar o que escrevo para minhas músicas nessas categorias de poetas ou letristas. É outra forma de juntar sensações que se completam pela música.

Carlos Willian — A música “Lagoa de Aluá” foi feita para alguém em especial?

Ednardo - A letra desta canção é do parceiro Climério. Fiz a música com outro parceiro, o Vicente Lopes.
Climério foi passar férias em Fortaleza, e nosso parceiro Dominguinhos também estava por lá. Apostamos para ver quem faria mais músicas e letras durante 30 dias. Muitas são desta fornada: “Enquanto Engoma a Calça”, “Lagoa de Aluá”, “Brincando é que se Aprende”, “Flora” e outras ainda inéditas.
Climério é um dos grandes letristas e poetas atuais. Pouco conhecido do público, suas letras fazem parte de vários sucessos na música brasileira. Tive a honra de produzir seu primeiro disco, em que também estão seus irmãos Clodo e Clésio. O disco chama-se São Piauí.
Professor e mestre de comunicação da UNB, Climério tem vários livros de poesias. É um mestre das artes.

Antônio Carlos dos Santos — Qual a sua opinião sobre a ditadura musical da atualidade?

Ednardo - Revisitando o passado não tão distante, durante a ditadura militar, a indústria fonográfica atual foi implantada por empresas multinacionais e obteve regalias bastante significativas, tais como isenção de impostos e outras benesses governamentais.
Com o poder destas corporações, as gravadoras nacionais foram sendo aniquiladas ou compradas.
No período da distensão, veio a farra de distribuição de concessões de emissoras de rádio e TV, como moeda de troca para aprovações de projetos governamentais.
Formaram-se monopólios e oligopólios, entre parlamentares do Congresso, amigos de políticos, fortes grupos econômicos que começaram a disputar o jabá das gravadoras e foi virando uma bola de neve.
A música começou a ser entendida nesta espécie de negociação como comercial ou jingle, os espaços foram leiloados para quem der mais.
A nivelação pela disponibilidade de pagar misturou o trigo e o joio e foi instituída a ditadura econômica, que é resultado destes e outros tipos de realidades extremamente prejudiciais à música brasileira.

Antônio Carlos dos Santos — Você acredita ser viável o caminho percorrido pelo cantor Lobão, de buscar uma alternativa para a onipresença das gravadoras?

Ednardo - Muitos dos mais importantes artistas brasileiros e os que iniciam carreira atualmente, cada vez mais, procuram viabilizar caminhos próprios de forma a não ficar reféns deste absurdo tipo de censura.
Formam seus próprios selos de gravação, editoras e gravadoras individuais ou procuram gravadoras independentes e alternativas para escoar com maior liberdade suas obras.

Esse caminho ainda enfrenta problemas de percurso na distribuição, divulgação e, principalmente, na perspectiva que meios de comunicação de massa sejam realmente democráticos.
Por sua vez, os artistas devem se informar melhor e manter união em busca dos melhores objetivos gerais que atendam as partes.
É essencial que o governo brasileiro, Ministério da Cultura, políticos, estejam juntos aos artistas brasileiros. Aliás, todos estão nesses cargos porque ali foram colocados pelo povo brasileiro. Eles precisam perceber o que está acontecendo e tomar providências. A demora pode ser interpretada como se houvesse outros interesses atrapalhando.
Tramita no Congresso projeto de lei que criminaliza o jabá. Ele é altamente danoso a todos. É, na verdade, dumping e concorrência desleal e ilegal.
Deve ser combatido pelo governo de qualquer país. É contraproducente aos esforços de brasilidade na área de produção artística musical, uma das maiores do mundo em sua capacidade criativa.

Carlos Willian — Como é sua relação com a Internet?

Ednardo - A Internet é evento maravilhoso, uma das grandes descobertas da humanidade. Possibilita movimentação de informações atuais em velocidade e democracia nunca antes imaginadas. Compreendida por muitos como marco da civilização mundial, tão importante como a invenção da roda, do rádio, do avião, dá um salto quântico para a locomoção e comunicação virtual.

Como é utilizada é outra história. Muitos que mergulharam nos livros de George Orwell, de Isaac Asimov e outros autores são partidários da idéia que ficção e realidade têm proximidade preocupante: o controle geral do big brother, o longo porrete da persuasão que tudo vê e administra, as leis da robótica descumpridas.
É comum falar de hackers do bem e do mal. Entre programas, programações de sistemas, cookies, vírus, antivírus, firewall, e-mails, sistemas de telefonia fixas, celulares, satélites etc., nada disso deixa dúvidas que tudo é xeretado, acompanhado e às vezes conduzido à sua revelia por outros.
Filmes e livros de ficção assustadores antecipam o que virá ou constatam o que já é feito, e esta tecnologia de ponta é domínio de poucos. Qualquer pessoa ao entrar na rede já está dando informações e recebendo recados da humanidade, resta saber de quem e para quem. De minha parte sou entusiasta e uso com comedimento.

Carlos Willian — Quais livros fizeram ou estão fazendo sua cabeça?

Ednardo - Tenho acesso a muitos livros desde quando menino. Cultivo o hábito de leitura ao longo de minha adolescência. Escolher especificamente alguns livros-cabeça fica difícil. Livros de cabeceira seria relativamente mais fácil porque estou ao lado de minha estante com muitos nas prateleiras, não tem todos que quero, mas também é impossível ler tudo.
Leio da forma que me apraz, às vezes do início ao fim, incluindo as orelhas. Outras, folheando páginas ao sabor de abrilas aleatoriamente, e outras leio das últimas páginas para as primeiras, e tem aqueles que tenho, e ainda não li, aguardo vontade. É essencial ter bons livros, discos, revistas, publicações; ver bons filmes, sobre diversos assuntos, diversas vertentes.

O material imaterial dos pensamentos humanos registrados nestes formatos, tudo o que for digno do interesse de cada um. Existe muito que se ver, bulir, nesses ícones da sabedoria. O que significa tocá-los, comover-se, sensibilizar a si próprio com os conhecimentos adquiridos, concordar, discordar, mudar de posição, ficar na mesma, se possível.

Carlos Willian — A música pop é descartável?

Ednardo - O que é descartável é a baixa qualidade musical de qualquer onda pré-fabricada e modismos que passam. O que é consistente continua e fica.
Além do mais, pop não necessariamente é sigla de popular, como pensam muitos. Dizem que a expressão pop usada na indústria se origina de “Point of Payment” — é quando o investimento em determinado produto atinge o ponto de equilíbrio entre o que foi gasto na produção, fabricação, difusão e distribuição, e passa gerar lucros por sua venda.

Na música, essa tendência chegou do exterior a reboque de grupos que fazem do fácil consumo e assimilação geralmente pobres de músicas e letras seu principal lema. Utilizam “investimento” de jabá e outros efeitos mirabolantes, coreografias aeróbicas e sensuais pra uma parcela da moçada cheia de hormônios gastarem suas energias e dinheiro.

É diretriz de executivos em alguns países que passaram a inventar, produzir e contratar shows de grupos e subgrupos nesta formatação. Em Pindorama se plantando, tudo cresce e floresce. Quanto mais baixo o nível pop, mais pipocam de todos os lados pop-rock, pop-samba, pop-mpb, pop-sertanejo, pop-forró, pop-axé, pop-romântico, pop-rebelde. Alguns detestam e combatem a vertente que é aceita pelos menos exigentes. Acredito no poder da deglutição, transformação e devolução de outra forma mais criativa e plena que inúmeras vezes a música brasileira demonstra ter.

Antônio Carlos dos Santos — Quais são os caminhos para a música regional brasileira?

Ednardo - Todo tipo de classificação, reduz e apequena. Na música é maneira de compartimentar, segmentar e controlar. Indicar caminhos seria ainda mais complicado. Abstraindo a questão, estão abertos todos caminhos possíveis e imagináveis ao que se inventar. Como música regional, entendo aquilo que é feito por artistas de uma região ou local. Para tornar o regional em amplitude universal, existem fatores, entre os quais a importância e densidade do centro emissor, maestria e qualidade das músicas e letras ou poesias, o carisma de artistas e grupos e, principalmente, a junção desses itens abrangentes nas propostas junto à identificação pública, descobrindo-se os meios que realizem estes objetivos.

Toda e qualquer música tem seu berço em regiões, cidades, bairros, zonas. Nenhuma nasce universal. No Brasil, foi e é assim com o samba, choro, bossa nova, tropicália e tantos outros movimentos e tendências da música feita por brilhantes artistas residentes em qualquer lugar deste imenso país. O que torna mais amplo é a junção dos ingredientes que emulam o povo brasileiro a entender esse liquidificador cultural e estético, a aceitá-lo como sua mais completa tradução naquele instante.

Cada região do Brasil é plural e tem características próprias. Unificadas pela língua, mas com códigos próprios e características culturais longe da hegemonia que aniquilaria nossas ricas diferenças. Ao cultivarmos a pluralidade cultural, musical, religiosa, política, costumes, junto com nossa miscigenação racial, marcamos um ponto gigantesco a nosso favor, mas, em paralelo comparativo, se não cuidarmos bem deste dom natural, seremos fatiados como no modelo das capitanias hereditárias entre feudos, quilombos e arraiais, em pequenas repúblicas das bananas e outras lavouras arcaicas.

Chegando ao Pessoal do Ceará e à nossa geração criativa, inicialmente atuamos nas cenas de nossos locais, estávamos sabendo e sentindo na pele os fatos, tínhamos conhecimento do que era oferecido e também querendo oferecer algo para interagir, participar e atuar de forma ampla na música brasileira. Esta realidade, era a mesma em outras regiões. Saímos daqui, dali, de todo lugar, em meados dos anos 60, e chegamos à caixa de ressonância do Sudeste, levando à cena brasileira nossas músicas.
Nos anos 70, fomos abrindo espaços para outras estéticas de ver e sentir. De várias regiões que chegávamos nos identificaram, junto aos nossos nomes, os locais de origem: “do Ceará, “de Belém, “Mato-grosso, “de Recife, “da Vila, “Baianos, “da Paraíba, “da Mangueira, “do Estácio, “do Piauí, “de Pernambuco, “da Fronteira...
Até hoje não se sabe se forma simpática de entender o Brasil do tamanho que é, ou disfarçada forma de segregação. Era comum referirem-se à nossa música como “invasão nordestina”. Outros a classificaram como regionais.
No entanto, são músicas e letras/poesias que tocam pessoas de todo o país e exterior — sem sombra de dúvida, brasileiras. São centenas de artistas de várias regiões que responderam ao chamado do povo brasileiro. Enfrentamos o exílio em nossa própria terra, lutamos pela volta dos banidos, construímos, com vigor, páginas plenas da música brasileira que o povo não esquece. Até hoje não são justos com os artistas desta geração, os estudos e reconhecimento de nossas obras em termos coletivos e individuais.
Saltam por cima sem cerimônia, como se fosse período insignificante de conteúdo. Como se aquele tempo tão negro da história política brasileira tivesse fechado olhos de estudiosos e críticos à intensidade de luz que emitimos e que servem de faróis até hoje.

Antônio Carlos dos Santos — O que as gravadoras buscam num artista?

Ednardo - É necessário entender diferenças entre diversos tipos de gravadoras existentes no Brasil. As maiores empresas da indústria fonográfica no Brasil, atualmente em número de quatro mega corporações, controlam quase 90 por cento do mercado do disco e execução pública.
Têm matrizes no exterior e suas atividades não se limitam ao meio musical. Como qualquer empresa desse tipo, buscam lucro, prestígio da marca, competição de mercado, remessas de lucros e cuidam de suas ações nas bolsas mundiais.

Empresas de capitais mistos, representadas, interligadas, meios de comunicação, grupos empresariais, religiosos, são dezenas e têm 7 por cento do mercado do disco e execução pública. Matrizes no Brasil e outras não se sabem.

Gravadoras nacionais, selos individuais e artistas independentes são centenas e têm 3 por cento do mercado do disco e execução pública. Com matrizes no Brasil, seus proprietários são geralmente pessoas da área artística, ou interligada diretamente à produção empresarial artística.

O artista é o lado mais sutil da engrenagem, oferece suas obras, interpretações e idéias, sem as quais nenhuma gravadora existiria. Quando é aceito, faz e, ao mesmo tempo, não faz parte das gravadoras, não é empregado nem executivo, seu contrato é temporário por obras gravadas ou anualmente dependendo da vontade dos contratantes e resultados de vendas. A não ser no caso específico do artista ser dono de sua própria gravadora, editora e voz.
Paradoxalmente, somos a parte mais importante e dispensável do sistema. Não é preciso grandes exercícios para se entender esta vulnerabilidade e o que as gravadoras buscam em cada caso.
Neste universo coexistem interesses diferentes. O artista pode ser manipulado em sua vontade, servindo de marionete, ou respeitado como mestre em sua arte.

Carlos Willian — Você fica incomodado com o fato de ter ficado marcado por uma música que foi tema de novela?

Ednardo - Não tenho este preconceito. Por que algum artista ficaria incomodado em ter uma de suas músicas utilizadas em tema de novela?
A utilização foi digna e escolhida por mestres como Walter Avancini e Dias Gomes. Nos dias de hoje, gravadoras e artistas se debateriam ou pagariam para estar presentes naquela obra audiovisual, mas, naquele momento, foi espontâneo e serviu para o grande público ter conhecimento do restante das músicas dos três primeiros discos que eu havia gravado anteriormente.
Em meu acervo autoral constam mais de 600 músicas entre gravadas e inéditas, todas me marcam e minha marca está em todas. Não no sentido de incômodo. Eu mesmo as fiz e seria absurdo não considerar todos os frutos bem-vindos. Além do mais, a música “Pavão Mysteriozo”, realizada e gravada 1973 no disco O Romance do Pavão Mysteriozo é um link entre a literatura de cordel, o ritmo afro-brasileiro do maracatu e a música urbana.

Atualmente, foi utilizada em mais de 30 regravações no Brasil e no exterior, além de ter sido tema principal do excelente folhetim popular Saramandaia, de 1976. Foi também tema indígena em ritual sagrado no Xingu e é considerado hino pelos Blocos de Maracatus do Ceará. Tem versões para outras línguas e foi utilizada pelo pessoal do GLS em desfile para 1 milhão e 100 mil pessoas em São Paulo.

Cantadores e repentistas do Nordeste também a perpetuam no universo popular. O Ballet Stagium, um dos mais respeitados no mundo, a colocou em seu repertório de apresentações. Em qualquer lugar do Brasil todos cantam, em diversas faixas etárias e segmentos sociais, mostrando que a importância da música vai além de suas utilizações.

Carlos Willian — Na sua opinião, Fagner se vendeu?

Ednardo - Além da polarização complexa da pergunta, deixo claro que não costumo opinar sobre direcionamento de cada um à sua arte.
Mas, é conhecido que Fagner criou espécie de persona com a qual conseguiu ser aceito no meio artístico, estribado em seu talento e atritos com gravadoras, artistas de destaque na cena musical brasileira.
Ter diferenças com modus operandi de gravadoras é considerado normal no Brasil, mas desentender-se constantemente com colegas e companheiros artísticos é estranho.
Se a estratégia deu certo durante algum tempo, ao se colocar em pauta na mídia abusando do clichê, o tornou refém da caricatura de si próprio e cansou o público.
Quando ocupou cargo executivo na CBS, ele se auto-instituiu gerente da música de artistas nordestinos ao seu critério pessoal. Tentou fazer aquilo que achava que Caetano Veloso fazia na Polygram. Entre os mesmos foram registrados constantes bate-bocas via imprensa. Foram se juntando desacertos com Elba Ramalho, Robertinho do Recife, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Belchior, Biga Maia, viúva de Petrúcio Maia, Patativa do Assaré, com a família da poetisa Cecília Meirelles, e a família do autor Heckel Tavares e outros. Suas atenções mergulharam em opção declarada para atender solicitações de mercado a qualquer custo.

Diferente dos primeiros discos, vieram posições de indistintas atitudes arrogantes e fome exagerada de autopromoção, utilizando à máquina da gravadora para alcançar metas pessoais, pagando esse tipo de sucesso a um alto custo numa espécie de suicídio lento de sua própria alma artística. De 78 a 80, eu estava contratado pela CBS, sob a direção artística Jairo Pires, (que saiu da gravadora em 79).

Realizei e produzi quatro discos nestes quatro anos e não guardo boas recordações do Fagner neste período. O cargo de direção do selo Epic era transitório, mas, em seu delírio de ego, imaginava que era eterno. Houve manipulação de departamentos e produções a seu favor com falta de ética profissional e artística, demonstrando seu caráter, despreparo e imaturidade. Mas não me deixo envenenar por mágoas e rancores.

O tempo aplaina arestas, cicatriza feridas, mas isto não significa apagar da memória os fatos: meus discos Ednardo (1979), Massafeira (disco duplo coletivo, de 1979) e Imã/Ednardo (1980) foram prejudicados em boicotes absurdos e surreais dentro da gravadora que, a princípio, deveria difundir seus produtos no mercado.
Os discos não eram distribuídos na mídia; o Massafeira foi engavetado por um ano e seis meses, por sugestão dele próprio que, embora participando do projeto artístico, o traiu e a todos os amigos e colegas que participaram coletivamente, alegando à direção da CBS que não era importante e daria prejuízo à gravadora.
Depois, quando o disco saiu numa queima de estoque deliberada em outubro de 1980, foi com um selo colado à capa fixando o preço de um álbum duplo de forma irrisória e desmerecedora, sem antes testá-lo em sua receptividade pública, numa atitude que até hoje não vi em nenhuma outra gravadora.
Foi prensado com verba de divulgação do disco Imã/Ednardo em outubro de 1980, prejudicando os lançamentos destes discos. Chegou ao cúmulo de mandar retirar aparelhagem de sonorização que pertencia à CBS, três horas antes do início de meu show de lançamento do disco Imã no Teatro Tereza Raquel no Rio de Janeiro, em 1980. Não dava mais tempo para contratar outra aparelhagem, mas o produtor Daniel Rodrigues, que trabalhava com Gilberto Gil e estava presente no momento, viu o fato e ficou indignado. Telefonou para o Gil, que disponibilizou, de imediato, a montagem do seu equipamento de sonorização para que o show pudesse acontecer.

Antônio Carlos dos Santos — Quais são seus projetos futuros?

Ednardo - Gravei três discos que tenciono lançar por meu selo. Um ao vivo, outro com trilhas de cinema e o terceiro gravado em estúdio com músicas inéditas. Tem a seqüência de shows que faço pelo Brasil e também a continuação de shows que eu, Amelinha e Belchior inauguramos recentemente no Rio de Janeiro, Petrópolis e Friburgo.
Pretendemos, sempre que houver possibilidades e condições, levá-lo a outras cidades. Inclusive, ele deve ser levado a Goiânia. Há contatos entre a produção local e nossa produção nesse sentido.

Entrevista publicada em março de 2003.
E republicada em Novembro de 2008.
Pela Revista Bula.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Algumas Reflexões sobre Idiotas e a Morte da Música

O capitalismo, ao avançar sobre a arte e tentar transformá-la em mercadoria, tenta assassiná-la. Como expressão da consciência humana, a arte é libertadora; como produto de um processo fetichizado, a mercadoria é alienante. A “industrialização” proposta pelos oligopólios do entretenimento é, na verdade, a antítese da arte.

VALÉRIO BEMFICA

http://www.amar.art.br/opiniao/opiniao_27.html

A morte da arte tornou-se, no século XX, tema de muitos pensadores. Os mais bem intencionados, porém pessimistas, premidos pelo crescimento da indústria cultural, não acreditavam que a humanidade pudesse continuar criando objetos dignos de reflexão estética: eles seriam gradualmente substituídos por produtos industrializados, capazes apenas de expressar sentimentos “prêt-à-porter”, descartáveis, pasteurizados. Anunciavam a morte da arte, mas como lamentação.

Nunca fomos adeptos de tais posições, mas reconhecemos que elas expressam uma tensão real. O capitalismo, ao avançar sobre a arte e tentar transformá-la em mercadoria, tenta assassiná-la. Como expressão da consciência humana, a arte é libertadora; como produto de um processo fetichizado, a mercadoria é alienante.
A “industrialização” proposta pelos oligopólios do entretenimento é, na verdade, a antítese da arte. Mas as premissas das quais partimos são diferentes. Ainda que conscientes do poderio deletério das grandes corporações na área da cultura, sempre consideramos que um dia elas serão derrotadas. A não ser que a barbárie destrua a humanidade, o que consideramos pouco provável, a arte continuará existindo, com seus condicionamentos históricos. E a sociedade do futuro, sem classes nem exploração, será uma sociedade de artistas.

Mas tampouco consideramos tais pensadores como inimigos: estão equivocados em sua visão catastrofista, mas gostariam que a arte continuasse viva. O conforto de suas cátedras talvez tenha embaçado a visão deles sobre a realidade e dificultado a decisão de trabalhar pela derrocada do sistema imperialista, ao invés de apenas observá-lo com horror.

Mas não foram apenas os filósofos que anunciaram o falecimento da arte. Alguns artistas também o fizeram. Em geral aqueles que estavam dentro do campo da indústria cultural, seja no centro ou em sua periferia. A estes nós chamamos de idiotas. Mas vale uma ressalva: empregamos o termo aqui não no sentido atual, mas no arcaico.

Reza a lenda que os antigos gregos, antes das reuniões na ágora onde os grandes temas de interesse coletivo seriam discutidos, cercavam a área da praça com cordas banhadas em betume. A medida visava marcar as túnicas daqueles que fugissem durante as reuniões e trocassem o dever de homens públicos por seus assuntos privados.
Os que andassem com as roupas marcadas pelas ruas da antiga Atenas eram chamados de “idiotes”. Ou seja, aqueles que não se importavam em nada com o coletivo, mas apenas consigo mesmos. Em geral é assim que se comportam tais “artistas”: anunciam a morte da arte não por alguma convicção ideológica, mas em benefício próprio e da indústria cultural.

No campo das artes plásticas é fácil verificar este processo, principalmente entre as vanguardas norte-americanas e européias do século XX, em especial no pós-guerra. Esgrimiam discursos libertários, praguejavam contra as academias e as regras e garantiam que qualquer coisa (de latas de sopa a urinóis) tinha virado arte e, portanto, a arte mesma não existia mais.
O que determinava o valor estético de um objeto deixava de ser aquilo que é expresso pela sua forma e conteúdo. Na prática, o valor estético passou a corresponder ao valor de mercado.

Sendo assim, o “artista” não precisa mais esforçar-se para produzir algo importante para a humanidade, mas sim algo que agrade ao mercado (e renda um dinheirinho).
E, neste sentido, ajudaram o mercado em seu intento de matar a arte, substituindo obras por mercadorias.

Mas não são as artes plásticas a motivação central da nossa reflexão. Elas surgem a partir de algumas matérias publicadas recentemente em um suplemento dito ilustrado de um jornalão paulista, especializado em mostrar o que há de mais podre e carcomido como sendo o último grito da moda.

A primeira delas traz notícias da Suécia, onde alguns selos musicais independentes estão supostamente “importunando as grandes gravadoras”. Nada temos contra o país nórdico, que já deu ao mundo Greta Garbo, Anita Ekberg e a família Bergman. Mas, no campo da música, só conseguimos lembrar do breguíssimo conjunto ABBA.
O que será que os tais selos fizeram para, agindo em um país menor e menos populoso - e com muito menos importância musical - do que a Bahia incomodar tanto as poderosas majors?

Segundo o jornal, descobriram que “a indústria da música morreu” e resolveram dar os CD’s de suas bandas como brinde para quem compra uma camiseta ou um ingresso para um show ou uma festa.

MERCADORIA

De imediato lembramos do filósofo iluminista alemão G. E. Lessing. Certa ocasião teve de responder a alguns críticos que não entendiam o porquê de os escultores que fizeram o grupo escultórico do Laocoonte terem retratado o sacerdote nu, e não vestido, como descrevera Virgílio na Eneida. Responde Lessing: “Um tecido, obra de mãos escravas, tem a mesma beleza que um corpo organizado, obra da eterna sabedoria”?
Podemos parafraseá-lo e perguntar: um pedaço de tecido com uma estampa qualquer, produzido em série por uma máquina, vale a mesma coisa do que uma obra de arte, obra da mais elevada consciência humana?
No entendimento das bandas de garagem suecas, vale mais, pois vendem a camiseta e dão a música de graça! É grande a tentação de afirmar que a música deve ser tão ruim que ninguém se dispõe a pagar por ela.

Pode até ser, mas os supostos artistas logo revelam que a sua posição não é muito diferente dos vanguardistas aos quais nos referíamos antes: “precisamos fazer alguma coisa para conseguir dinheiro de algum lugar, para pagar nossos aluguéis.”, afirmam eles. Ou seja, por trinta dinheiros, vale qualquer coisa, seja vender camisetas, seja vender CD’s: são só produtos, mercadorias, que pagam as contas e, eventualmente, rendem “quinze minutos de fama”.

NEGÓCIO

Se o jornalão só falasse da experiência sueca acreditaríamos que era apenas mais uma das inúmeras bobagens vendidas como novidade em suas páginas. Mas eis que, no dia seguinte, no mesmo jornal, surge outra idéia “brilhante”, desta vez de uma gravadora brasileira que se assume como independente: o download patrocinado. O genial mecanismo também prevê música grátis, em troca da exposição a um patrocinador.

O que vale é o marketing, a obra de arte, mais uma vez, é brinde. Nem uma palavra sobre os reais motivos que levaram o mercado brasileiro do disco cair da 6ª para a 13ª posição mundial, a encolher 75% em dez anos.

Apenas a cômoda conclusão de que não é possível mais ganhar dinheiro vendendo discos e que precisamos vender outra coisa... Para os desavisados pode parecer que estes gênios do capitalismo da nova geração, propondo “novos modelos de negócio”, estejam bombardeando a indústria cultural.
Mas é justamente o contrário. No mundo ideal dos oligopólios do entretenimento, já dissemos, não há arte, apenas mercadorias. No que depender deles a música, o cinema, a pintura, a escultura, enfim, toda e qualquer obra de arte será transformada em “commoditie”, ou seja, em produto estandartizado com preço definido em bolsa de valores.
Nada mais de autores, estilos, originalidade. Apenas bit’s, bites, títulos, conteúdos. Você compra um celular e já ganha 10 MB de música! Assine tal provedor de internet e ganhe 5 “gigas” de filmes. Qualquer bugiganga de camelô tendo como brinde música e imagem...

Longe de combater as majors, estes arremedos de capitalistas agem como a sua vanguarda. Criam o caldo de cultura para o assassínio da arte que os monopólios pretendem cometer. São, neste caso, perfeitos idiotas (no sentido acima): tentam garantir migalhas em detrimento dos interesses mais elevados, não apenas de seus pares, mas de todos os seres humanos.

Mas a humanidade já passou por períodos até mais complicados do que o atual, e a arte sobreviveu. Não seria agora, em um período em que o capitalismo caminha celeremente para a decadência, que ela iria perecer. O fato de a indústria cultural lutar com tanto afinco para acabar com ela é só um sintoma de sua degenerescência, na qual, certamente, arrastará junto os mercadores instalados em sua periferia. O futuro pertence à arte, não à barbárie.

(Valério Bemfica é dirigente da gravadora CPC-UMES)

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Siri-Ará - Filme de Rosemberg Cariry



















“Siri-ará”: um olhar

Assisti com assombro e encantamento o mais novo filme do cineasta cearense Rosemberg Cariry. Não tenho dúvida de que ele é um marco na sua trajetória, porque não se trata apenas de mais uma leitura do significado histórico e cultural deste pedaço de litoral/sertão/além-mar que povoa o seu/nosso imaginário.

Mostra em profundidade e densidade simbólica que o Ceará, mesmo que lute para se esquecer disso, resulta de encontros desencontrados de povos e projetos civilizacionais, envoltos em camadas e camadas de poeira e vento, que ressurgem aqui e ali aos pedaços, feito assombração, picados e repicados em contos, quantas vezes apenas balbuciados.

Mostra em profundidade e densidade simbólica que o Ceará, mesmo que lute para se esquecer disso, resulta de encontros desencontrados de povos e projetos civilizacionais, envoltos em camadas e camadas de poeira e vento, que ressurgem aqui e ali aos pedaços, feito assombração, picados e repicados em contos, quantas vezes apenas balbuciados. Trata-se de uma história de reconstrução e articulação narrativa das mais difíceis.

A ideia de narrar essa leitura do passado por meio do protagonismo implícito no Reisado e Banda de Pífanos, como aquilo que permaneceu mais visível e manifesto até hoje da memória de batalhas entre portugueses e nativos, me parece magnífica porque é isso mesmo que tais ditas “manifestações culturais” representam e dá a elas tanta significação. Um filme de época não falaria tanto!

Pêro Coelho perambula com a sua família e tropa pelo sertanejo Eldorado, tendo como cenário as montanhas de pedra do Quixadá. O cenário é impressionante. Resulta numa paisagem onde cabem perfeitamente devaneios e sonhos, martírios e desejos crus de uns e outros. As falas delirantes e quase separadas dos protagonistas, como se a cada um fosse dado falar a si/de si mesmo, ignorando uns aos outros, em línguas distintas e ideais contrastantes; os ângulos dos rostos, olhares e silêncios dos ditos indígenas, parecem recortados nas próprias pedras, feitos de barro até na cor das roupas, imitando a cor da terra, da areia que anda a tudo cobrir. Há mágoas e ressentimentos, coisas doridas no peito e na lembrança. O horizonte aberto, a amplitude das paisagens alude a um espaço sem fim, a um ponto de chegada apenas imaginário.

Todos sofrem, matam, machucam, se penitenciam e perguntam sobre o sentido da busca dessa felicidade terrena. A índia-menina violentada é a nossa ancestral comum que estaria na raiz dessa dúvida e mal contada história colonial sobre a nossa origem como povo mestiço. O professor de Paris volta para se entender, a índia velha que lhe guia o caminho me parece a representação finamente alegórica dessa memória torturada e silenciada em busca da tal identidade nunca definida, nunca alcançada.

As prostitutas vistas pelo caminho, na viagem inversa ao sentido do relógio, saindo de uma moderna Fortaleza de concreto e seguindo o roteiro de peregrinação ambiciosa do Colonizador, são o sinal da busca eterna do gozo carnal masculino e do ganho/enriquecimento ilícito que custa a vida, a juventude, a beleza delas, cinco séculos vendidas, a troco de umas moedinhas de ouro, que andam a catar, misturadas com ossadas humanas que simbolizam a matança dos antepassados.

A morte está belamente representada, em máscara, vestimenta e diálogos, a discutir filosoficamente o passado e a existência com o professor. A sua aparição traz sempre cenas e reflexões valiosas, difíceis, torturantes. A ironia da fala dela, a sedução que exerce sobre ele, sobre nós, me pareceu um contraponto dessa luta entre presente-passado e presente-futuro. São cenas carregadas de magia e encanto.

No desfecho da narrativa, a cena da cerimônia antropofágica é um ritual impactante, inesperado, uma forma delirante de interpretar o sentido do passado e do que somos culturalmente. Um delírio que resulta de uma pergunta existencial de fim de vida, do professor que aceita a proposta da Morte, por não encontrar resposta que não o turbilhão das imagens mnemônicas e/ou oníricas, que chegam e se esvaem em ritmo histórico e alucinatório.

Nas cenas finais, volta a aparição de Fortaleza. A cidade, vista da Praia Mansa, surge assustadoramente bela e absurda, os prédios estão dispostos em ângulo que os revelam como se brotassem irreais do mar e nos perguntassem se era para isto tanto sangue derramado. Cria-se o nexo entre o litoral e o sertão, o Pêro Coelho e a mulher sem coisa alguma nas mãos, nem riqueza, nem vitória. Cordões cortados, ficam-lhes os filhos mortos pelo sertão. Vivo ficara apenas o menino, o filho da índia violentada. Nas palavras de Cioran, “agora só resta o seu filho bastardo, herdeiro desse império de dor”.

Antes, a cena da flor branca caída das mãos da menina-índia-violentada, mãe de todos nós, o contraste entre ela e o fio vermelho do sangue de sua defloração emociona, faz ver, a quem sabe ler a nossa dolorosa história colonial, a pedra angular desta trágica construção. Feito encarnação do colonizador, mergulha o casal no mar, como sinal da derrota, perdição e tentativa de retorno para o continente ou nada de onde vieram. As coroas do rei e da rainha são apanhadas da areia e postas na cabeça por brincantes a passar pela praia, como se andassem a buscar inspiração para as suas festas de Reisado. Faz-se o nexo entre cultura popular e história colonial.

Ainda não vi tudo. “Siri-ará” é um filme feito em linguagem alegórica, sugere outras leituras e deve ser visto mais vezes. A sua feitura artística apresenta componentes de teatro, dança e artes plásticas. Considero ser este um filme de maturidade. Uma lança fincada bem no coração, o dividindo ao meio. Evoca a lembrança de nossa ancestralidade e faz emergir uma elaboração mais complexa do que somos. Trata-se de um convite à rememoração mesmo que ela doa. Como diz o próprio diretor, está ali uma luta entre “a embriaguez da vida e o descanso da morte, quando concluímos que no lugar de verdades só há imagens alegóricas do que fomos/somos”. Ficam a ressoar no deserto as palavras delirantes de Cioran, a se dizer “o herege, o mestiço, o filho da puta, o ninguém” que “para sobreviver se reinventa”.


MARIA JURACI MAIA CAVALCANTE
Especial para o Caderno 3 - DIÁRIO DO NORDESTE
Doutora em Ciências Sociais pela Universidade de Oldenburg, Alemanha, e professora da Universidade Federal do Ceará.
http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=594560

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

HUTÚZ - Rio de Janeiro 2008




O Hutúz surgiu com o objetivo de mostrar que o movimento Hip Hop poderia ser realmente organizado e construir conceitos definitivos que ficassem para a história. Surgiu para marcar uma geração e iniciar o século 21 eliminando os estereótipos, agregando parceiros, patrocinadores, governos e todos aqueles que por alguma razão sempre se mantiveram distantes dessas realizações que, segundo eles, não tinham qualidade na sua execução (deficiência essa que existia, sobretudo, em função da falta de apoio).

O tempo passou. Iniciamos um novo século. Ano 2000: a CUFA resolveu ignorar essas deficiências e hoje está provado que podemos executar ações tão nobres quanto as que podemos admirar. E essa não é uma conquista somente da CUFA, mas de todos que fazem parte do movimento Hip Hop, este que a partir de 2010 passará a ter um novo desafio: mostrar que o movimento existe de verdade e tem capacidade para se organizar e para construir, inclusive, outros Prêmios de Hip Hop.

Tudo isso com o objetivo de continuar valorizando seus artistas anônimos e consolidando a carreira dos tantos "ex-anônimos" que, a partir do Hutúz se tornaram referência para os jovens das periferias do Brasil, e – por que não dizer? – para os jovens de classe alta que descobriram o Hip Hop e passaram a respeitar essa cultura e seus protagonistas.

O Hutúz acredita que o movimento Hip Hop existe e tem força suficiente para continuar este projeto. Por isso, anuncia aqui o fim desse ciclo em 2009, quando comemorará seus 10 anos de vida e realizações. Por esse palco muitos artistas passaram, muito se revelaram, tantos outros – não menos importantes – disputaram entre si e agora fazem parte da história do Hip Hop nacional.






Música Brasil com P. - GOG - Brasília, versão do DVD Cartão Postal Bomba!!!, com participação de Maria Rita. - Melhor Vídeo Clip - Festival Hutúz 2008.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Andy Mckee

Melhor ver e escutar, Andy Mckee é três em um... ou mais...

Me lembra muito o ritmo do maracatu do Ceará, minha terra, é bacana o intrumentista explorar estas possibilidade de harmonias, solos e ritmos percurssivos

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Ednardo - Idéias


IDÉIAS
Ednardo

Porque esta vida
É sempre um desfilar safado de idéias
E neste jogo, eu não escondo o jogo
E jogo até a minha
A minha cara já não aguenta
De tanto supapo e papo e papo
Tem sempre alguém
Vendendo o mesmo peixe
Dizendo que é fresco

Será que alguém já desconfiou
Como eu desconfio
Que sempre se repete, se repete, se repete
Mas pouca gente cria

___________________________________

Nestes vídeos tem fotos de desenhos do encarte do Disco O Azul e o Encarnado, gravado na RCA em 1977, feitos pelo letrista e parceiro de Ednardo - Fausto Nilo. A gravadora na época, vetou o encarte afirmando que a censura federal não iria aprovar as artes gráficas.
E que se o artista quisesse incluir o encarte por sua conta e risco, o fizesse por conta própria mandando imprimir e deixar na fábrica de discos da gravadora para incluir nos discos.

Ednardo "presenteou" a gravadora com estes dez mil encartes.

Curioso é que um dos desenhos era a gravura de um clássico de Leonardo da Vinci por volta do ano 1490 - símbolo do Humanismo Renascentista - um ser humano nú, na quadratura do círculo, e o outro eram dois carneiros com uma frase do Pastoril Nordestino - Auto de Natal que sempre acontece em algumas cidades do nordeste durante os festejos natalinos para saudar o nascimento de Jesus, uma espécie de ópera popular, vinda da Península Ibérica que no nordeste do Brasil ganhou conotações específicas e ficou na memória popular.

Uma das canções do Pastoril tem este trecho - "Mas eu não quero a tua riqueza, que abismou a natureza, aquela estrela que irradia, há de ser minha luz e guia"...

Voltarei a falar sobre este tema

Zeca Zines

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Receita da Felicidade - Ednardo




Receita da Felicidade
Ednardo

Ultimamente ando às vezes preocupado
Vendo a cara tão risonha das crianças
Nas fotos dos anúncios
Nos cartazes das paredes
Dando idéia que algo vai acontecer
É receita certa pra sensibilizar
Pra esconder, pra mentir ou pra vender
Veja as caras tão risonhas
Tão lindinhas, tão risonhas
Nos jornais, nas paredes, nas TVs

Eu não gosto destes dedos que me apontam
Eu não gosto destas frases que me dizem
"O futuro deles está em suas mãos..."
Pois é seu Zé, sei não...
Não me esqueço que algum dia fui risonho
Com u'a carinha bonitinha pra valer
Quem guardou o meu futuro
Quem guardou o meu futuro
Quem guardou o meu futuro - me dê

(Esta música foi feita e gravada em 1977 por Ednardo em seu disco O Azul e o Encarnado)

_____________________________________________________

A Suécia acaba de banir a publicidade na TV dirigida às crianças, com apoio de 88% da população. No Brasil nunca se fez esse tipo de pesquisa, mas acredito que, apesar de todas as diferenças culturais e econômicas existentes entre os dois paises, as respostas seriam semelhantes. Afinal não é justo impor pressões comerciais às crianças quando elas ainda não têm idade nem para diferenciar ficção da realidade.

Aqui, a situação agrava-se com a cruel distribuição de renda. Os anúncios estimulam um consumo que a maioria dos pais não pode realizar, aumentando a perversidade do problema, com tristes consequências. Como a do menino da periferia que, ao ser detido pelo segurança de um supermercado tomando um danoninho, disse estar apenas querendo saber que gosto tinha esse produto tão anunciado na televisão.

Alguns países foram além do sugerido pela Diretiva Européia.
A Alemanha proibiu a inserção de publicidade em qualquer programa infantil. Nos canais públicos italianos não pode haver propaganda em programas infantis e na França o merchandising é proibido. A recente decisão sueca é ainda mais avançada e se apóia, além da pesquisa, na constatação de que as crianças não nascem com anticorpos necessários para se defender das pressões comerciais e, por isso, têm direito à zonas protegidas.

Trecho de matéria publicado originalmente na Revista E do SESC-São Paulo/Dezembro de 2004 - Por Laurindo Leal Filho - também publicada no site Midiativa.

Para ler a matéria completa - http://www.midiativa.org.br/index.php/midiativa/content/view/full/1890

______________________________________________________

As crianças e a mídia no Brasil

Em nosso país, as crianças apresentam uma grande exposição à mídia.
O Painel Nacional de Televisão do IBOPE indicou que as crianças brasileiras entre quatro e 11 anos passam uma média de 4h 51min 19s por dia em frente à TV, ocupando o primeiro lugar mundial em consumo de mídia televisiva, passando mais tempo assistindo TV (cerca de 33 horas semanais) do que na escola (23 horas).

Crianças de vários países passam, pelo menos, 50% mais tempo em frente à TV do que
realizando qualquer outra atividade fora da escola, incluindo estar com amigos e familiares ou realizar deveres de casa.

A criança tem-se tornado uma “consumidora”, incentivando grandes empresas a investir no desenvolvimento de produtos para esse mercado. A criança não apenas consome, mas também influencia na decisão de compra de produtos para adultos. Estima-se que 30 bilhões de reais circulem anualmente no Brasil na forma de mesada ou renda própria de crianças e adolescentes.

Personagens da televisão têm-se transformado em um grande filão econômico mundial, transformando-se em temas de festas infantis, artigos de papelaria ou guloseimas. Em países desenvolvidos, os fabricantes participam até mesmo da criação de personagens, avaliando seu potencial para se transformarem em itens de consumo. Quem financia a permanência no ar dos
programas infantis é a propaganda, e as crianças brasileiras são expostas a cerca de quatro mil comerciais por mês.

A lógica e o raciocínio são dispensáveis para persuadir as crianças por meio de comerciais.
O segredo é investir na fantasia, na mágica, na aventura, utilizando temas que versem sobre relações afetivas e familiares para vender produtos, marcas ou comportamentos. Devem-se criar conexões entre suas fantasias e o estabelecimento de hábitos de consumo de interesse dos anunciantes.

A televisão afeta comportamentos, contribuindo para a obesidade infantil, o despertar precoce da sexualidade e o aumento da violência entre as crianças e jovens.
Esses dados indicam forte presença da mídia no dia-a-dia das crianças brasileiras e um grande investimento em publicidade voltada para a criança na TV.
Pouco se sabe, contudo, sobre o impacto dos “modelos de relacionamento” da mídia nos relacionamentos reais das crianças.

(Trechos de matéria publicada na Psicologia em Revista, Belo Horizonte, jun. 2007 por Luciana Teles Moura, Agnaldo Garcia - Convivendo no intervalo: relacionamento interpessoal de crianças em comerciais de televisão voltados para o público infantil).

Para ler na integra: http://www.pucminas.br/imagedb/documento/DOC_DSC_NOME_ARQUI20080521171353.pdf


segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Viva o Músico Brasileiro III - Nonato Luiz

NONATO LUIZ - BAIÃO CIGANO

Gravada como música instrumental no primeiro CD que Nonato Luiz registrou na Alemanha, no disco "Mosaico". A composição é de 1985, neste clip, gravado informalmente, Nonato Luiz (violão), compositor e instrumentista cearense / brasileiro, é acompanhado de outros dois músicos brasileiros, Wilson Asfora (violão) e Estanislau Nogueira Gubiotti (bandolim) - Gravação em Sioux Falls, SD, USA

Posteriormente esta música ganhou letra realizada por Fausto Nilo, autor e intérprete cearense / brasileiro e mudou de nome.

BAIÃO DE RUA
Nonato Luiz e Fausto Nilo

Olho de menino da cidade
Não demora sabe vadiar
Carro, geladeira, liberdade
Tudo chora pelo seu olhar
É um menino nú
Que brotou do chão
Perto do sinal
Perdeu a luz, pedindo pão
Quando a lua branca
Vai subindo aos pedaços sobre a construção
Eu fico sonhando em teus braços
E adormeço na televisão
Fica tudo azul
Quando a noite cai
Onde a vida vai
Até nascer o sol
Somos um, somos dois, somos três
No asfalto, somos quatro
Contra cinco
Somos sete, canivetes
Um biscoito pra nós oito
E um bilhão pro barão
Ô baião do Brasil baião
Um anum, dois arroz
Três pedrez, pau no gato
Pé de pato, pé de pinto
Um pivete e sua gilete
Não tem bola, quero cola
Ô baião do Brasil baião
Sabiá já voou, sumiu


NONATO LUIZ - CHORO ACADÊMICO

Nonato Luiz nasceu em Lavras da Mangabeira - Ceará e faz parte do grupo conhecido como Pessoal do Ceará.

sábado, 8 de novembro de 2008

Cavalo Ferro - Ednardo, Teti, Rodger Rogério

Ednardo, Teti, Rodger Rogério, cantando Cavalo Ferro de Fagner e Ricardo Bezerra.

Disco: Meu Corpo Minha Embalagem, Todo Gasto na Viagem - Pessoal do Ceará - 1973

CAVALO FERRO
Fagner / Ricardo Bezerra

Montado num cavalo ferro
Vivi campos verdes, me enterro
Em terras trópico-americanas
Trópico-americanas, trópico-americanas
E no meio de tudo, num lugar ainda mudo
Concreto ferro, surdo e cego
Por dentro desse velho, desse velho
Desse velho mundo

Pulsando num segundo letal
No planalto central
Onde se divide, se divide, se divide
O bem e o mal
Vou achar o meu caminho de volta
Pode ser certo, pode ser direto
Caminho certo sem perigo, sem perigo
Sem perigo, sem perigo fatal

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Ednardo - Pavão Mysteriozo - Vídeo Clip






Video Clip gravado nas Dunas da Praia de Cumbuco - Ceará


Pavão Mysteriozo
Ednardo

Pavão Mysteriozo, pássaro formoso
Tudo é mistério nesse seu voar
Ai se eu corresse assim
Tantos céus assim
Muita estória eu tinha pra contar

Pavão Mysteriozo
Nessa cauda aberta em leque
Me guarda moleque de eterno brincar
Me poupa do vexame
De morrer tão moço
Muita coisa ainda quero olhar

Pavão Mysteriozo
Meu pássaro formoso
No escuro dessa noite
Me ajuda a cantar
Derrama essas faíscas
Despeja esse trovão
Desmancha isso tudo
Que não é certo não

Pavão Mysteriozo
Pássaro formoso
Um conde raivoso
Não tarda a chegar
Não temas minha donzela
Nossa sorte nessa guerra
Eles são muitos
Mas não sabem voar

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Avoa, Imaginação




____________________
Arievaldo Viana Lima
É um dos grandes cordelistas cearenses, atualizado em todas as frentes, desde as tradicionais às mais modernas, ele e seu irmão Antônio Klevisson Viana Lima, trabalham com grande competência as diversas formas da Literatura de Cordel, e incorporam novas técnicas gráficas.
Em conjunto com seu irmão, têm sua própria usina de criação - Tupi Nanquim - onde publicam seus trabalhos artísticos em cordeis, republicam outros, além de trabalharem com desenhos animados, histórias de quadrinhos e outros formatos, que aproxima a xilogravura que é tradicional nos folhetos de cordéis com desenhos de bico de pena e gravuras.
Arievaldo também é professor e tem importante projeto que vem desenvolvendo a bastante tempo, ACORDA CORDEL realizado em salas de aulas de diversas escolas.
Ao criar o "Projeto Acorda Cordel na Sala de Aula", sua visão é que a utilização de folhetos e romances de cordel, sejam ferramentas paradidáticas no aprendizado, sobretudo na alfabetização de jovens e adultos.
Zeca Zines sabe da importância de seu trabalho e parabeniza Arievaldo Viana.
___________________________________________________________________
Traduzido em cenas e canções, “O Romance do Pavão Mysterioso” ganha agora versão infantil.
Malino que nem menino, o poeta popular Arievaldo Viana inventara de atirar pedra em enxame. Meteu-se em briga de cachorro grande o cearense de Quixeramobim. É que, embora publicado há mais de 80 anos, o folheto “O Romance do Pavão Mysterioso” rende debates acalorados ainda hoje. De autoria do paraibano José Camelo de Melo Resende, o cordel acabou sendo impresso pela primeira vez levando a assinatura de um outro autor: o também paraibano João Melchíades Ferreira da Silva.
“O Camelo inventou a história do Pavão para ser cantada. Criou uma melodia até, mas não chegou a imprimir. Aí, o João Melchíades teve acesso ao original e fez uma versão. O José Camelo, então, tinha umas complicações com a polícia e não pôde reclamar seus direitos, mas depois publicou seus originais e meteu o pau no João Melchíades. Resultado: essa confusão continua rendendo”, comenta Arievaldo Viana. Não bastasse o engodo já tradicional, o cearense pôs na veneta de incrementar a polêmica ainda mais ao apresentar à meninada o causo de amor do jovem Evangelista e a condessa Creusa.
“O primeiro ‘O Romance do Pavão Mysterioso’ que conheci na vida foi o do João Melchíades. Devo esse crédito a ele. Sei que o original é do José Camelo, mas, na verdade, não sigo nem um nem outro”, destaca o autor. De parelha com o ilustrador pernambucano Jô Oliveira, Arievaldo Viana apresenta a seus leitores miúdos uma narrativa nova.
“A história continua atrativa. O José Camelo foi um visionário. O cordel tem um pé na ficção científica que o deixa atual. O Pavão é uma maleta que se aciona com um botão e vira um helicóptero. Então, as crianças embarcam na fantasia facilmente. O que mudei foi só a linguagem. Reduzi a quantidade de texto e inclui novos personagens”, pontua. Com isso, a trama inaugural ganhara mais agilidade e um formato mais didático. As letras de Arievaldo Viana têm a sala de aula como foco.
“Minha alfabetização foi feita com a coleção de cordéis da minha avó. Acredito na força formativa da literatura de cordel. Não há criança que resista à fantasia”, argumenta o poeta popular. Amigos pra mais de 10 anos, Arievaldo Viana e Jô Oliveira desenvolveram “O Romance do Pavão Misterioso” a quatro mãos.
Também afeito aos pincéis e tintas, o cearense fora apresentado ao pernambucano pela trama de José Camelo de Melo Resende. “Logo de cara, ele me falou do projeto de fazer uma versão em quadrinhos do folheto. A idéia acabou se transformando numa série de selos para os Correios que foi até premiada no exterior”, lembra Arievaldo Viana. “Passamos anos sem nos encontrar. Em 2003, topei ao acaso com o Jô e ele me falou que tinha publicado uma adaptação em prosa do romance, mas que não tinha gostado do resultado. Então, me propôs que eu passasse aquele texto de volta ao formato do verso, à poesia”, explica o processo.
O desafio estava lançado. O que nasceu no universo da oralidade e encontrou abrigo nas páginas fez-se imagens para retornar uma vez mais ao plano da literatura. “Baseei a minha releitura mais pelos desenhos do Jô do que pelos versos que conheço desde menino. As ilustrações já carregavam nelas uma certa adaptação. O Jô, por exemplo, muda o nome do inventor do Pavão. Eu aceitei essa mudança, rompendo com o original do José Camelo. Também o Jô ressalta mais uma dimensão nordestina da trama”, pontua Arievaldo Viana.
De 1923, quando chegou ao papel pela primeira vez, ao século XXI, “O Romance do Pavão Mysterioso” continua sendo um belo incentivo ao engenho. “É uma história que prova que a invenção é capaz de tudo. Não há força, não há arma, não há poder que seja capaz de vencer uma boa idéia”, resume o poeta cearense, agora mais encantado que nunca com a narrativa.
Arievaldo Viana acredita que aí esteja o motivo maior de explorar o folheto com estudantes das séries iniciais. “É um período no qual a formação pede esse tipo de estímulo. A questão é apenas de favorecer o acesso. Até hoje, nunca encontrei um menino que não se interessasse por literatura de cordel”, observa. Avoa, imaginação. Avoa.
Magela Lima
Repórter
POESIA
"O Pavão Misterioso"
Arevaldo Viana e Jô Abreu
30 páginas
2007
Editora Imeph

Chibata! - João Cândido e a revolta que abalou o Brasil




























HISTÓRIAS EM QUADRINHOS
Feitos heróicos

Revolta da Chibata é tema de graphic novel da dupla cearense Hemetério e Olinto Gadelha. O álbum sai pela conceituada Conrad Editora.
Não é exagerado falar na existência de um descompasso entre a qualidade dos produtores de quadrinhos (roteiristas, desenhistas, arte-finalistas, etc) do Ceará e o que estes conseguem publicar e distribuir de forma não-artesanal. Zines, revistas de vida-curta ou de periodicidade irregular, uns pouquíssimos álbuns e alguma publicação perdida que ganha abrigo em páginas d’além dos limites do Estado representam os maiores canais de escoamento para esta produção.
Por conta desta situação, “Chibata! - João Cândido e a revolta que abalou o Brasil”, álbum da dupla Hemetério e Olinto Gadelha, já merece atenção especial.
Trata-se de uma graphic novel (“romance em quadrinhos”) que funde episódios históricos e elementos ficcionais, para reconstituir o episódio histórico da Revolta Chibata (1910), no qual os marinheiros do navio Minas Gerais se rebelaram contra os castigos físicos, punição então regularizada na Marinha do Brasil.
A HQ chega às livrarias e comic shops um ano após ser anunciada pela editora Conrad.
A casa paulistana deu abrigo ao projeto da dupla de cearenses, saindo com um robusto e bem acabado volume de 224 páginas.
Além da garantia de boa distribuição (a editora disponibiliza seu material em lojas especializadas em HQs, livrarias e bancas de revista), “Chibata!” ganha com a marca da Conrad.
À princípio uma pequena editora, a Conrad é dona de um dos melhores catálogos do segmentos de quadrinhos. Ficou famosa ao trazer pérolas estrangeiras, como clássicos e novidades do underground norte-americano, álbuns europeus e orientais, mangás e material nacional de boa qualidade.
Liberdade e entraves
“Ainda mais infeliz do que não termos mais artistas publicados nacionalmente, é o fato de que
muitos artistas cearenses parecem estar satisfeitos com isso. Essa insularidade é mortal. É preciso expandir fronteiras. Não adianta ser ‘o bom’, sempre para um mesmo círculo de amigos. Deve-se publicar, expor, participar, sempre”, opina Olinto Gadelha, escritor e designer, responsável pelo roteiro da HQ.
“Chibata!”, contam seus autores, surgiu quase por acaso. O desenhista Hemetério havia encaminhado à editora um trabalho anterior - o livro de ilustrações “Garatujas”, cuja primeira edição ficou a cargo da dupla. A idéia de ver uma segunda edição do volume ser publicada pela editora não foi longe, mas, de lá, veio uma outra proposta. “Eles adoraram o trabalho, e ao invés de acatar a proposta de reedição, ofereceram a nós a publicação de um livro novo, em quadrinhos”, relembra Olinto Gadelha.
“Dos temas apresentados pela editora, a Revolta da Chibata foi o que mais nos interessou, pois a causa da liberdade sempre rende boas tramas”, conta o desenhista Hemetério. “Aliás, para nós, desenhistas e escritores, nada mais importante que a liberdade. Liberdade essa que usufruímos à vontade, pois a Conrad, uma vez acertado o tema, não interferiu de forma alguma”, completa.
A ficção faz a história
Pensar “Chibata!” apenas como uma conquista dos quadrinhos produzidos no Ceará seria cair no provincianismo. Pior ainda seria ter, por efeito colateral, a terrível ocultação das qualidades da obra.
O enredo arquitetada por Gadelha mistura eventos históricos com episódios fictícios. É a arte de romancista convocada para preencher lacunas que se perderam no tempo e conferir significado ao conjunto heterogêneo de fatos.

“Seria impossível realizar esse roteiro sem a Biblioteca Pública Menezes Pimentel”, comenta o roteirista, fazendo referência a pesquisa exigida, que incluiu uma viagem para conhecer a geografia carioca.
Boa parte do trabalho, percebe-se, serviu para construir uma psicologia e uma ética para o personagem central, o líder dos marujos, o negro João Cândido. “Um personagem assim épico não surge repentinamente como herói. É preciso entendê-lo, dar sentido a sua vida e sua luta, saber de onde vêm suas motivações e como surgiu seu instinto para a liderança”, explica Olinto.
O desenho de Hemetério chama a atenção por cruzar uma série de referências, na condição de um híbrido da tradição do cartum, dos mangás e das HQs independentes.
HQ
"Chibata"
Hemetério e Olinto Gadelha
R$ 39,00
224 páginas
2008
Conrad
DELLANO RIOS
Repórter

domingo, 26 de outubro de 2008

DVD Manassés

DVD MANASSÉS - AO VIVO
2005 - Gravado em 2004, durante a Feira de Música de Fortaleza no Centro de Convenções.

Contêm o Show; Entrevista; Depoimentos e Vídeo Clip.

Produção Independente - Manassés / ProDisc

Manassés começou a tocar seu instrumento ainda criança, em praça públicas e em circos. Na adolescência forma duas bandas - Os Barras Limpas e depois, Os Dissonantes, em Maranguape / CE, sua cidade de origem.

Em 72 compõe a Banda do Pessoal do Ceará junto ao Ednardo, Teti e Rodger Rogério, depois viaja para França onde reside e trabalha vários anos, percorrendo vários países. Em 78, ao voltar para o Brasil, compõe a Banda de Fagner e também forma a Banda Santarém juntamente com Petrúcio Maia, Ife e Candinho, com os quais realiza disco e vários shows.

Zeca Zines viu o DVD e recomenda com entusiamo.

Manassés é um músico e compositor brilhante, respeitado internacionalmente, dono de rara sensibilidade em suas criações que muito contribuem para a música brasileira.

A seguir uma entrevista e um vídeo clip de Manassés.



Manassés - Nananasalturas



Outros dois discos do Manassés.
Manassés - Pra Você - 1986
Manassés - Manassés - 1979
http://poeiraecantos.blogspot.com/search/label/Manass%C3%A9s

Disco da Banda Santarén - formada por Manassés, Petrúcio Maia, Ife, Candinho
Banda Santarén - 1980
http://poeiraecantos.blogspot.com/search/label/Banda%20Santar%C3%A9n%20%5BCE%5D

sábado, 27 de setembro de 2008

O Devir Cantador e uma cartografia das singularidades musicais brasileiras



Análise realizada por José Anezio Fernandes do Vale
Vitória / ES
Graduando em Psicologia - Universidade Federal do Espírito Santo
______________________________________



A partir de uma leitura de Guattari, pretendo apresentar o conceito de Devir-Cantador, tendo como estudo de caso, a figura do compositor cearense Ednardo.

Da obra de Guattari, pretendo me dobrar sobre o conceito de Produção de Subjetividade, e para tal, lanço mão de três aspectos deste conceito:

Primeiro, produção de subjetividade como anterior a dicotomias sujeito/objeto, inato/adquirido, individual/social, logo, como algo que não se localiza nem aqui nem lá. Para Guattari, isso não está posto.

Segundo, produção de subjetividade não como ideologia, super-estrutura, ou seja, como algo determinado por uma infra-estrutura econômica. A subjetividade não é fruto passivo da produção econômica, material, mas se dá em um processo de produção tão importante quanto.

E por fim, produção de subjetividade como evento político, micropolítico, em que se podem engendrar tanto formas petrificadas de existência, quanto formas de existência que quebrem pedras. Guattari chama essas formas, respectivamente, de modelização e singularização.

Me detendo um bocadinho nesse terceiro aspecto, tenho dois exemplos bem ilustrativos. O primeiro é o do desacato à autoridade, o do “Cê sabe com quem cê tá falando?”. Essa fala é representativa de uma fabricação de territórios.
No caso da abordagem policial (aqui proponho um pause nessa imagem pra gente dar uma circulada em redor e observar), o terreno do civil que fica calado, que obedece, que se põe no seu lugar, que se territorializa cá embaixo e submete seu corpo a uma ordem, e o terreno do militar, que é autoridade, que ordena, que merece mais respeito que o outro, que se territorializa acima do outro e tem que ser rude, ou sarcástico, pra “mostrar quem é que manda”.

O segundo exemplo é o da criança, que aprende a respeitar a hora de estudar, a hora de dormir, a de comer, a de brincar, a de rezar, a de ficar calada, a de divertir os adultos.
A criança pré-escolar, principalmente nos dois primeiros anos de vida, como Piaget nos ensinou, aprende através da ação, precisa agir para aprender, e cada ação do indivíduo sensório-motor tem caráter lúdico, a criança age, aprende, e brinca enquanto come, enquanto foge da dor, enquanto busca o prazer, enquanto dorme, enquanto tem as bochechas apertadas. Isso ilustra que, como Guattari diria, a subjetividade infantil é polifônica, mas não é estratificada.

A escola, porém, tem a função (que não é apenas ela quem cumpre) de territorializar cada um desses fatores da polifonia subjetiva infantil, em terrenos separados. A criança brinca no parquinho, na escola a criança aprende, e hora de aprender não é hora de brincar.

E essa lógica de estratificação de uma subjetividade que é polifônica rege nossas formas modelizadas de existência. A hora do almoço, a hora do sexo, a hora da aula expositiva, a hora do estágio, a hora da aula em laboratório, a semana de provas, a hora de ouvir o palestrante, a hora de fazer perguntas.

A criança ainda não modelizada pela escola é um exemplo de singularidade, e uma forma de quebrar as pedras da modelização é vir-a-ser à maneira dessas singularidades. Vir-a-ser à maneira de uma criança, por exemplo, é o que Guarrati chama de Devir-Criança.

O que quero propor é que a música é um elemento denso, enquanto substância desses eventos micropolíticos de que eu falei. Música não é fruto ideológico e superestrutural da produção econômica. A produção econômica e a produção subjetiva agem igualmente em nossos corpos, e quero falar de modelização e de produções de subjetividades singulares no plano das artes e da música, que não é alienado das outras camadas sonoras de nossa vida polifônica.

Eu vejo, na micropolítica fonográfica, radiofônica e dos espetáculos musicais, uma modelização da figura do compositor e da figura do ouvinte.
Aqui quero mais uma vez congelar a imagem pra gente dar uma voltinha. O território do compositor é o daquele que fabrica a música, que é a origem da música, o compositor inteligente, seja por ser culto, e fazer a boa música, aquela que as pessoas inteligentes e cultas consomem, seja por ser sensível ao gosto das massas, e saber como fazer uma música que as grandes massas queiram consumir.
O território do ouvinte é o território daquele que consome a música, aquela música originada do compositor inteligente, ou do compositor sensível. Ou o ouvinte é o culto que consome o que o compositor inteligente faz, ou é parte das massas, que consome o que a maioria consome, e o que é fabricado pelo compositor sensível ao gosto das massas, da maioria.

Diante dessa imagem, eu entendo que, entre as diferentes e inúmeras formas de produção de subjetividade singular, há uma que eu quero fazer emergir à nossa atenção. É a do compositor popular, do cantador, do poeta de cordel, do artista popular, enfim, que pode ser repentista ou rapper fazendo um Freestyle!
O compositor popular não é sinônimo (nem antônimo) Do compositor sensível, ou do intelectual dos quais acabei de falar. A questão do compositor popular não é que tipo de ouvinte vai consumir sua música, porque a música para o compositor popular é mais do que um produto a ser consumido.

Eu gosto da idéia de comparar o compositor popular a um cronista que, diferentemente do repórter, não tem a intenção de ser imparcial e fiel à realidade. O repórter, nessa pretensão, lança suas implicações na reportagem que produz.
O cronista sabe-se parcial, e faz uso disso. O cronista não retrata a realidade, ele pesca elementos do cotidiano e reveste com um olhar e com um estilo que estão ali, nele.
Eu entendo o compositor popular como um cronista. Que retira da subjetividade popular a matéria prima, que é o desejo, e produz música não para um ouvinte que é mero consumidor, mas para um ouvinte que também é fonte da matéria prima dessa canção.

O compositor modelizado é um sol de onde a canção emerge como verdade, ou que ilumina a verdade como um sol repórter, para que o ouvinte consumidor possa ver/ouvir a verdade. O compositor popular é usina que produz a canção enquanto se produz, é cronista que se produz na crônica e produz a crônica em si.

Meu exemplo de cronista, de compositor popular, de artista que vem-a-ser á maneira de um cantador, ou seja, que lança mão do Devir-Cantador, chama-se Ednardo.

Não convém aqui que eu prove que Ednardo é um exemplo de como esse Devir-Cantador se dá. Pra mim é interessante que vocês acreditem ou duvidem, e se quiserem provar que eu estou errado, procurem conhecer o Ednardo pra saber se é isso mesmo.

Vou apenas falar brevemente sobre o Ednardo - Cronista que eu enxergo, então!
Ednardo cantou sobre o homem que muda de terra, de território, e praticou essa migração. Cearense, foi para o Rio de Janeiro tentar a sorte como cantor, e encontrou um mercado fonográfico doido por que ele se adequasse a um modelo de compositor que fizesse com que discos fossem vendidos e lucro fosse gerado.

Ele se manteve fiel a sua intenção de misturar extremos antagônicos, de trazer rock e cordel, maracatu com guitarra (no início da década de 70!), francês com sotaque cearense, tecnologia e regionalismo. Graças a isso, foi boicotado mais de uma vez, e em ocasiões diferentes, por sua gravadora.

Fez trilhas para cinema e até atuou. Dirigiu, produziu e musicou um documentário sobre a história, a cultura e as subjetividades cearenses. Mobilizou os artistas nordestinos para o maior evento de valorização de sua cultura que o Ceará já teve, a Massafeira, e lutou também para que elementos desse grande evento fossem registrados em disco (que também foi boicotado pela gravadora, e mesmo por amigos artistas).

Criou movimentos de resistência ao esvaziamento do carnaval cearense e à ocupação não dialógica deste terreno por ritmos exteriores à cultura local, como as músicas baianas.
Foi mesmo homenageado por nações de maracatu cearenses, por sua postura de artista em prol de tal manifestação cultural. E isso tudo morando no Sudeste há anos!

Em suas letras, não é difícil ver emergirem também indícios de compreensão da dinâmica de produção de subjetividade, e da necessidade de singularidades, mesmo que com outros nomes. Não vou continuar listando as muitas outras razões que eu ainda tenho e poderia listar para querer ter Ednardo como um aliado em meu trabalho como psicólogo.

Agora eu quero lançar uma questão. Eu posso afirmar que Ednardo faz uma cartografia desses territórios modelizados, dessa micropolítica, posso afirmar que ele pratica essas revoluções singulares que Guattari postula e constata, se Ednardo, por exemplo, não é psicólogo, ou leitor de Guattari? A minha resposta é: SIM!

E eu quero terminar essa apresentação com um convite, que é na verdade um beliscão, uma problematização. Eu não usei Guattari porque acho que a Esquizoanálise é a forma correta de se fazer psicologia, nem usei Ednardo porque ele é um compositor superior aos outros. Eu o admiro com artista, a superioridade que vejo é meu gosto musical, mas no lugar de Ednardo poderia ser outro.
Poderia ser o Sérgio Sampaio, poderia ser o Itamar Assumpção, poderia ser Clash, Mutantes, Zeca Baleiro, ou qualquer outro artista que eu admiro, existem mil formas de singularizar-se diante do mercado fonográfico.
O Devir-Cantador é apenas uma invenção minha, de um termo pra nomear algumas poucas dessas inumeráveis formas de resistência.

Assim como o Ednardo poderia ser outro, o Guattari poderia ser outro. Eu poderia falar de questões micropolíticas em uma linguagem Piagetiana, Skinneriana, Freudiana, Adleriana.E poderia mesmo. Porque não é uma teoria que tem em si, a priori, o bem ou o mal. É a forma como eu me alio a um corpo teórico que vai definir se minhas práticas serão modelizadoras ou singularizantes.

Eu posso, por exemplo, como analista do comportamento, ajudar meu cliente a observar as contingências de seus comportamentos, para que ele possa construir autonomia, para que ele possa ser reforçado por conseqüências para as quais ele diz sim. Mas eu posso também dizer não para essa singularidade, e fazer de meu cliente uma vítima das conseqüências de seus atos, que diz sim para o que eu acho melhor para ele, de forma tuteladora.

Então quero afirmar duas coisas. A primeira é que hostilizar uma teoria como se ela fosse modelizadora a priori é negar as singularidades que aquela teoria psicológica pode proporcionar. E a segunda é que achar que uma teoria psicológica é singularizante a priori, implica em uma conseqüência seríssima que é a de não ter cuidado com a nossa prática, e correr o risco de utilizar uma ferramenta de emancipação em prol de infantilizações, culpabilizações e modelizações.

E no mais, salve o compositor popular!

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

VII FIC - Festival Internacional da Canção - 1972


Um dos Festivais mais importantes na década de 70 - VII FIC - Festival Internacional da Canção - 1972, - Rio de Janeiro - Maracãnanzinho, revela grandes artistas e é considerado como o último grande festival da Era dos Festivais.

Neste festival foram revelados nomes como: Ednardo, Fagner, Belchior, Alceu Valença, Raul Seixas, Sérgio Sampaio, Hermeto Pascoal, Raul Seixas, Renato Teixeira, Sirlan, Paulo César Pinheiro, Rildo Hora, Ruy Mauriti, entre muitos outros compositores e intérpretes, que juntos aos mais conhecidos como: Jackson do Pandeiro, Marlene, Os Mutantes (Rita Lee / Arnaldo / Sérgio / Liminha). Fizeram a festa.
E em análise mais detalhada, Jorge Ben antes de ser "descoberto" pelos tropicalístas, teve neste festival seu ápice.

O VII FIC aconteceu em momento muito conturbado da política pela ditadura militar e consta na história que durante este período do governo Médici (1969 - 1974), foi quando as maiores repressões (não só às artes) aconteceram, os historiadores constatam que foi o mais repressivo e violento, os jornais, revistas, rádio e televisão sofreram violenta censura, impedindo que a população fosse informada do que estava acontecendo.

Consta que este VII FIC foi bastante marcada pela intervenção da censura federal durante a ditadura, com vários episódios que foram desde a destituição sumária de todo o Juri Nacional, incluindo espancamento de um de seus membros que queria ler uma nota de explicação e repúdio à arbitrariedade.

Lí no site Jornalismo Cultural sobre o VII FIC http://www.jornalismocultural.com.br/musica/globo1972.htm

Em artigo escrito por Mirella Falcão, que entre outras coisas explicita: este VII FIC foi pela primeira vez, um festival transmitido em cores para o Brasil e Exterior.
Para selecionar as 30 músicas, entre as 1.912 inscritas, compunham a comissão: César Camargo Mariano, Julio Medaglia, Roberto Freire, Décio Pignatari e Sérgio Cabral. Esses três últimos viriam participar também do júri, juntamente com Mário Luís Barbato, Rogério Duprat, Alberto de Carvalho, João Carlos Martins, Guilherme Araújo, Big Boy e Walter Silva. Nara Leão presidiu o júri que classificou 14 músicas para a final.

Esse júri, contudo, foi afastado da final nacional por ordem dos militares, que não gostaram de entrevista dada por Nara Leão, fazendo duras críticas ao governo. Um novo júri de gringos selecionou duas músicas para a competição internacional, gerando uma série de protestos e pancadaria.

Na final nacional, Roberto Freire, ao tentar ler um manifesto representando o júri expurgado, foi arrastado do palco e brutalmente espancado. No manifesto, depois lido pelo apresentador Murilo Néri, defendia-se a escolha de "Cabeça", de Walter Franco, e "Nó na Cana", de Ari do Cavaco e César Augusto.

Entretanto, as canções ganhadoras foram "Fio Maravilha", composição de Jorge Ben defendida por Maria Alcina, e "Diálogo", samba de Baden Powel e Paulo César Pinheiro, interpretado por Cláudia Regina e Baden. Nenhuma das composições brasileiras saiu vitoriosa na fase internacional.
_______________________________________________________________

Ficha Técnica - VII Festival Internacional da Canção - 1972
Realização: Rede Globo de Televisão
Diretor Geral: José Otávio Neves Diretor Artístico: Solano Ribeiro Local: Maracanãzinho (Rio de Janeiro)
Juri Nacional: Alberto de Carvalho, Big Boy, Décio Pignatari, Guilherme Araújo, J.Carlos Martins, Lea Maria, Mário Luiz, Nara Leão (presidente), Roberto Freire, Rogério Duprat, Sérgio Cabral, Walter Silva

1ª Eliminatória: 16/09/1972

Nem becos nem saidas (Abílio Manoel) - Abílio Manoel
Diferenças (Rildo Hora / Manoel Nunes)
Depois do portão (J.Abridon / L.Mendes Jr)
22º andar (Edson Conceição / A.Silva)
Serearei (Hermeto Paschoal) - Alaide Costa
4 graus (Fagner / Dedé ) - Fagner
Nó na cana (Ari do Cavaco e Cesar Augusto) - Nina e Elson
Eu sou eu , Nicuri e o Diabo (Raul Seixas) - Banda - Os Lobos
Diálogo (Baden Powell / P.C.Pinheiro) - Tobias, Cláudia,Regina e B.Powell
Eu quero é botar meu bloco na rua (Sérgio Sampaio) - Sérgio Sampaio
Papagaio do Futuro (Alceu Valença) - Alceu Valença
Cabeça (Walter Franco) - Walter Franco
Fio Maravilha (Jorge Ben) - Maria Alcina
Nos cafundós do Zé (Ruy Maurity / J. Jorge) - Ruy Maurity
Corpo a corpo (Tulio Mourão / Nelson Motta)

2ª Eliminatória: 17/09/1972

Pente (Luiz Carlos Porto / Antonio Fernando) - Banda O Peso
Bip Bip (Ednardo / Belchior) - Ednardo, Belchior e Claudio Ornellas
Reza ao padre Cícero (Luis Wanderlei) - Luís Wanderlei
Loucura pouca é bobagem (J.Rocha / Maurício Are)
Let me sing (Edith Wisner/Raul Seixas) - Raul Seixas
Flor Lilás (Luli) - Luli e Lucina
Olerê Camará (L.Reis / J.Lourenço) - Ana Maria
Marinheiro (Renato Teixeira) - Renato Teixeira
Frevança (Tom / Dito ) - Tom e Dito
Liberdade Liberdade (Oscar Toralles) - Banda - A Bolha
A volta do ponteiro (R.Lourenço) - Banda - Os Originais do Samba
Viva Zapatria (Sirlan / Murilo ) - Sirlan
Mande um abraço pra velha (Mutantes) - Banda - Mutantes
Automóveis (Osvaldo Montenegro) - Os 3 Moraes
Carangola (Fauzi Arap / Fototi) - Marlene

_____________________________________________________________

Embora a TV Globo tenha gravado ao vivo e a cores pela primeira vez um festival internacional para o Brasil e Exterior, os registros de vídeos e gravações de áudio deste VII FIC, "desapareceram" de forma inexplicável. Do todo que foi registrado, restam apenas dois discos LPs, que também sumiram logo após lançados, e mesmo assim nas mãos de poucos colecionadores.

Importante registrar que o único vídeo que existe informando deste festival e disponibilizado em sites públicos como o You Tube é um pequeno trecho de Maria Alcina cantando "Fio Maravilha" de autoria de Jorge Ben, e curiosamente o autor foi processado pelo jogador de futebol acusando de usar seu nome, ora, ora!... Fio Maravilha só se tornou conhecido por causa da música de Jorge Ben. (Na realidade era um jogador medíocre) - Maria Alcina chegou no VII FIC vestida com o uniforme do Flamengo, camisa, calção e chuteiras com uma torcida organizada pelo clube de futebol e os gringos que de última hora foram postos pra julgar as músicas disseram - Yes - Brazil - Carnaval - Samba - Futebol.

Particularmente, e também pelo senso geral, acho que o material de suportes vídeofonográficos (som e imagens) com um time com estes nomes não é de se jogar fora. Que existe, existe, não temos dúvidas, a pergunta será - Porque não publicam? E se não quiserem publicar - Porque não disponibilizam, para todos?

Recentemente conversando com Ednardo compositor da música BIP BIP, expliquei que estava fazendo uma pesquisa e ele foi super gentil em falar sobre vários fatos deste festival.

Confirmou a destituição do juri e a repressão generalizada, a agressão a um dos membros - Roberto Freire - e a repressão aos artistas participantes, relatando que policiais entraram no camarim improvisado no vestiário do Maracanãnzinho e sem nenhuma razão que justificasse, agrediram verbalmente com palavras: "cabeludos, viados, drogados, e subversívos"...

E ainda organizaram um "corredor de vaias" para artistas que saiam do camarim para se apresentar, para desespero de Solano Ribeiro (organizador da fase nacional), que já estava enfrentando o "pepino" da destituição do Juri e a agressão a um deles.
E Solano teria dito, "...Senhores, deixemos aplausos e vaias para o público" - e um deles retrucado -"nós somos público também"... - E Solano: então a platéia é o melhor lugar para vocês se manifestarem, aqui estamos nos bastidores do palco"...Mas nenhum deles saiu de lá.

Parece que este festival foi barra pesada mesmo, pra música e cultura brasileira, pros artistas e produtores.

_______________________________________________________________

Os Discos Publicados


Relação das músicas do Disco: VII FIC - Finalistas Nacionais
SOM LIVRE - SSIG -1017 (Ano 1972)


LADO A
1. VIVA ZAPATRIA (Sirlan - Murilo Antunes de Oliveira) - Sirlan
2. LET ME SING, LET ME SING (Edith Nadine Seixas - Raul Seixas) – Os Lobos
3. DIÁLOGO (Baden Powell - Paulo Cesar Pinheiro) RENATA E FLÁVIO
4. CARANGOLA (Fauzi Arap - Fototi) MARLENE
5. A VOLTA DO PONTEIO (Roberto Lourenço da Silva - Roberto Ferreira dos Santos) OS ORIGINAIS DO SAMBA
6. SEREAREI (Hermeto Pascoal) ALAÍDE COSTA


LADO B

1. FIO MARAVILHA (Jorge Ben) MARIA ALCINA
2. NÓ NA CANA (Ari do Cavaco - Cezar Augusto) ELSON E MIRNA
3. EU SOU EU, NICURI É O DIABO (Raul Seixas) OS LOBOS
4. EU QUERO É BOTAR MEU BLOCO NA RUA (Sergio Sampaio) EUSTÁQUIO SENA
5. MANDE UM ABRAÇO PRA VELHA (Os Mutantes) CORAL SOM LIVRE
6. CABEÇA (Walter Franco) EUSTÁQUIO SENA

Consta que retirarem do Disco 2 músicas finalistas:BIP BIP de Ednardo e Belchior, interpretada por Ednardo e Belchior e Cláudio Ornellas; 4 GRAUS de Fagner e Dedé Evangelista – interpretada por Fagner;

Note também que mudaram vários intérpretes originais

Foi lançado também outro disco do VII FIC
Os Grandes Sucessos do FIC 72
Phonogram/Fontana 6470 500
(Ano 1972)

Lado A:

1. Eu quero é botar meu bloco na rua (Sérgio Sampaio) – Sérgio Sampaio
2. A volta do ponteiro (Roberto Lourenço da Silva - Roberto Ferreira dos Santos) - Beto Scala
3. Fio Maravilha (Jorge Ben) - Jorge Ben
4. Diálogo (Quebranto) (Baden Powell - Paulo César Pinheiro) Cláudia Regina e Tobias
5. Nó na cana (Ary do Cavaco - César Augusto) - Juracy
6. Marinheiro (Renato Teixeira) - Renato Teixeira
7. Eu sou eu, Nicuri é o Diabo (Raul Seixas) - Lena Rios

Lado B:

1. Viva Zapátria (Sirlan Jesus - Murilo Antunes de Oliveira) - MPB-4
2. Let me sing, let me sing (Edith Nadine - Wisner Seixas - Raul Santos Seixas) - Raul Seixas
3. Corpo a corpo (Túlio Mourão - Nélson Motta) - Fábio
4. Mande um abraço pra velha (Arnaldo Baptista - Sérgio Baptista - Rita Lee - Arnolpho Lima Filho) - Mutantes
5. Quatro graus (Fagner José Evangelista) - Fagner
6. Pente (Luís Carlos Porto - Fernando Vale) - O Peso

O detalhe curioso é que esse LP traz não as versões apresentadas no festival, mas (o que parece ser) o registro que os autores mandaram para o comitê que selecionou as músicas para as eliminatórias. E na contracapa, traz uma lista com as 30 canções selecionadas para o festival

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Bob Dylan e o Pessoal do Ceará

Zeca Zines leu um artigo interessante no blog Sem Cesura http://semcesura.blogspot.com/ realizado por MARCIO CENZI, e copia aqui na íntegra para leitura de vocês.

________________________________________________________________

BOB DYLAN E O PESSOAL DO CEARÁ

É interessante - e talvez sintomático - que a influência de Dylan, presente nos Beatles e nos Rolling Stones, não se perceba no núcleo da MPB (eixo Rio-SP-Bahia) nem no rock tupiniquim, mas mostre seus filhos em outros rincões como Ceará, Paraíba e Minas.

MPB x Música Popular

O primeiro problema advém do próprio batismo da MPB.A sigla, criada para os festivais dos anos 60, deixa bem claro: é feita para e por aqueles que naquela década tinham um televisor. Assim, não é de estranhar que entre seus precursores estejam os alunos dos tradicionais colégios pagos de São Paulo e Rio. Os outros eram artistas populares, mas taxados por qualificativos menos edificantes.

Questão de família

Dylan abriu mão de seu sobrenome para incorporar ao apelido uma homenagem a seu poeta preferido, Dylan Thomas. Contrariando as raízes, aderiu ao cristianismo. Por aqui, a carteirada artística é recurso difundido. O artista diz logo de qual família é: Buarque, Leão, Morais. E a religião é tema que preferem contemporizar: há um séquito de "ateus, graças a Deus".
A situação do rock nacional - aclimatação um tanto paradoxal - não é muito diferente da encontrada na MPB.

O caminhoneiro e os fidalgos

Dylan é neto de imigrantes russos. Elvis era motorista de caminhão. Por aqui, o rock nasce longe das "camadas populares". Comprar uma guitarra elétrica é/era privilégio para poucos.
Os roqueiros brasileiros passaram longe da influência popular.
Se Dylan ouvia os cantores tradicionais do country, os daqui não chegaram perto da viola.

Além disso, como toda atividade produtiva no Brasil, os lugares do Rock brasileiro foram logo apossados pela classe média. Ou por seus herdeiros. Encontram-se entre os expoentes do rock nacional o filho do diplomata, o rebento do executivo, a cria do militar, o neto do visconde.
Assim, desvinculada das manifestações populares, a música jovem brasileira padece de um vício de origem.

O protesto e a lenga-lenga

Esse também é o caminho que afasta outro legado de Dylan: as músicas de protesto.
O cantor-protestante é, antes de tudo, um romântico: identifica-se com uma causa e destila atitude.
Os protestos dos roqueiros brasileiros não são de grande alento, pois inverossímeis; faltam-lhes sinceridade.
Jovens ricos de Brasília indagarem "Que país é esse" não parece fazer muito sentido. Na MPB estabilizada (Buarque-Gil-Veloso), as pretensões intelectuais de seus compositores impede a empatia com o ouvinte e dificulta a repetição de refrões. Nada mais natural, portanto, do que o monopólio de Vandré nos piquetes: dois acordes, um violão e um estribilho palatável.

O Rei e Raul

Ressalva deve ser feita a duas figuras que incorporaram a carcaça roqueira.
Raul Seixas usava jaquetas de couro no calor de Salvador. Pretendia, assim, ficar mais perto de Elvis. Sua música passou pelo deboche, pela crítica e pela profecia.
Seu disco "Abre-te Sésamo" flerta com a música caipira, orientalismo e religiões africanas. Morrendo melancolicamente abandonado a si mesmo, Raul nunca se arrogou a condição de intelectual."Status" rejeitado também por Roberto Carlos que, inteligentemente, soube estar sempre antenado à tendência: surgiu como discípulo de Buddy Holly, passou ao protesto setentista com "O Astronauta", flertou com a música negra americana, deu recados ecológicos na década de 80. Sua incursão na música religiosa, coerente dentro de sua trajetória, às vezes esconde a sagacidade de suas escolhas.

Por fim, os herdeiros.

Se é evidente a influência de Dylan no trabalho do mineiro Zé Geraldo, tendo este realizado a mescla do rock com a música caipira, e, ainda, que Zé Ramalho, lá na Paraíba, tenha incorporado muito da sonoridade do americano em sua música, a presença mais marcante de Dylan aparece no Pessoal do Ceará.

Ednardo, Fagner e, principalmente, Belchior partilham uma característica essencial de Dylan: a voz que não parece própria a um cantor, mas imprime tamanha personalidade à canção que impede outras interpretações. O bloqueio do cantor-autor é quebrado entre eles (como Ednardo cantando "A palo seco") ou por um intérprete excepcional, como Elis.

Além disso, é na obra dos três que aparece o grande desfile de perdedores e desaprumados, amadores (e) abandonados.
Mas o Pessoal do Ceará é um grupo de pessoas separadas e, trabalhando cada um em seu canto, surpreende o quanto são parecidos e ligados os seus cantares.
Provavelmente, Belchior tenha a mais completa relação de frustrações e aflições (Fotografia 3x4, Na hora do Almoço, Apenas um rapaz latino-americano); Ednardo, a mais criativa voz narrativa (Enquanto engoma a calça, Carneiro); Fagner, além do dialógo poético, é o que também canta o desconforto dos outros (Sinal Fechado, Guerreiro Menino).

Será que Joan Baez conhece Fortaleza?

MARCIO CENZI

domingo, 7 de setembro de 2008

Livro - Terral do Sonhos - Mary Pimentel




TERRAL DOS SONHOS - O Cearense na Música Popular Brasileira

Mary Pimentel Aires - Fortaleza : Banco do Nordeste do Brasil / Gráfica e Editora Arte Brasil, 2006
204p. (Coleção Teses Cearenses) C.D.U. 323.17.78(81)

Nos anos 60, em pleno período autoritário, eclodiu em Fortaleza um movimento musical que repercutiu no Brasil afora. Em torno da Faculdade de Arquitetura e de bares como o Balão Vermelho e o Anísio, na Beira Mar, gravitavam estudantes universitários que utilizavam referenciais estéticos como expressão de uma insatisfação diante da censura, do fechamento que o país vivia e da repressão que se acentuou a partir de 1968.


Este movimento, de certo modo, era tributário de uma tradição musical que vinha do século XIX, com as modinhas de Nepomuceno e se reforçava no início do século com a verve de Ramos Cotoco, Branca Rangel e Juvenal Galeno.
Mais recentemente, com a boemia de Lauro Maia e Aleardo Freitas e a inquietude de Luis Assunção mantiveram uma tradição que os novos superaram sem negar a contribuição dos que vieram antes.

Nos festivais, tão em voga nesta década de transformações e contestação, se forjaram valores que partiram para tentar o mercado nacional.

São estas questões que Mary Pimentel trata: a essência do que seria “cearense”, sem cair na facilidade dos estereótipos, as relações com a industria, as propostas de uma nova estética. O resultado é um painel vivo e instigante, num texto rigoroso, mas de leitura prazerosa que vem preencher uma lacuna na bibliografia cearense e chamar a a tenção para a importância no contexto social.

Apresentação do Livro – TERRAL DOS SONHOS – De Mary Pimentel
Professor Gilmar de Carvalho
________________________________________________

Trechos Condensados do Prefácio da 3ª Edição

Pesquisador, Jornalista e Radialista da Rádio Universitária UFC - NELSON AUGUSTO
...
Terral dos Sonhos – O Cearense na Música Popular Brasileira, mapeia como objeto de estudo a música popular composta no Ceará de 1964 a 1979. Nesse período aconteceu a formação, propagação e consagração do movimento que ficou conhecido na MPB como PESSOAL DO CEARÁ, o qual agrega a geração de artistas cearenses (músicos, cantores e letristas) que, a partir da década de 70, começa a ingressar no cenário musical brasileiro.
...
Dessa geração de compositores que foram tentar a sorte na cidade grande, os que obtiveram maior destaque nacional foram Belchior, Fagner e Ednardo. A origem do nome do grupo se deve ao LP Ednardo e o Pessoal do Ceará, que tem como subtítulo “Meu Corpo, Minha Embalagem, Todo Gasto na Viagem”, lançado em 1972 , pelos cantores/compositores Ednardo e Rodger Rogério e pela cantora Teti. Esse disco que teve produção de Walter Silva pode ser considerado um marco na incursão desses novos compositores no mercado fonográfico.

... ...
A publicação Terral dos Sonhos é uma minuciosa pesquisa feita em acervos de jornais, revistas e livros do gênero, além de entrevistas com artistas, colecionadores e pessoas envolvidas com a cultura alencarina. Para produzir sua dissertação, Mary Pimentel também se valeu da sua condição de colaboradora do movimento musical cearense, contudo com isenção científica de socióloga. A autora integrou inicialmente o grupo de canto coral - O Canto do Aboio - e fez parte do grupo Garotas 70, chegando a participar de shows e festivais.

Mary Pimentel Aires, ao situar os personagens do tempo de Terral dos Sonhos, também foi buscar os antecessores da canção alencarina, os quais, desde 1908 inscreveram seus nomes na história da Música Popular Brasileira.
Entre eles, Ramos Cotoco, Hilda Marçal Matos, Lauro Maia, Humberto Teixeira, 4 Ases & 1 Curinga, Luis Assunção, Evaldo Gouveia e o Trio Nagô. Todos incluídos na nossa hereditariedade musical trazida do século XIX pelos precursores Alberto Nepomuceno, Branca Rangel e Juvenal Galeno e também revelada em seguida por talentos do quilate de Aleardo Freitas, Gilberto Milfont, Catulo de Paula, Carlos Barroso, Paulo Neves, Pierre Luz, Mário Alves, Moacir Ribeiro de Carvalho, Waldemar da Ressureição, Caetano Accioly, Vocalistas Tropicais, Euclides Silva Novo, Mozart Brandão, Guilherme Neto, José Auriz Barreira, Zé Menezes, Jacques Klein e Eleazar de Carvalho.

Com este livro, Mary Pimentel Aires tornou-se a precursora do estudo científico contemporâneo dos artistas da canção alencarina.

... ...

Livro - No Tom da Canção Cearense - Wagner Castro


MÚSICA E POLÍTICA EM WAGNER CASTRO

Apresentação do Livro – NO TOM DA CANÇÃO CEARENSE - Do Rádio e Tv, dos Lares e Bares na Era dos Festivais (1963 – 1979) - Wagner Castro - Fortaleza: Edições UFC, 2008
292p.:il.
ISBN: 978-85-7282-292-3

Professor Gilmar de Carvalho

Somos um povo que canta, mesmo quando não tem motivos para cantar. A música deve vir da palma dos coqueiros, onde cantava a jandaia do poema indianista. Do batuque das senzalas e das procissões das irmandades religiosas. Também do canto do trabalho das fiandeiras, dos colhedores de algodão, de coco e das barcarolas dos que vivem do mar.

Tudo pode vir a ser música: vento, ruídos urbanos, assobio de um fragmento de canção que ficou e o acorde plangente de um violão seresteiro.

Wagner Castro, historiador e músico, une rigor e criatividade numa pesquisa que precisava ser feita. Agora, temos o resultado do seu mestrado em livro. Foi orientado por um “peso-pesado” da cultura no Ceará: Dilmar Miranda.

Wagner sabe o que diz e o que faz. Só poderia mesmo dar em um livro que se lê com prazer, com uma certa nostalgia (pelo menos pelos que viveram esses momentos) e com a certeza de que a vida continua, a cultura tem sua dinâmica e não se pode retroceder (a não ser na ficção) ou fazer com que a História se repita, mesmo que em tom de farsa, como dizem que Marx disse.

O texto de Wagner segue o cânon da academia, mas flui, vigoroso e inquieto, como o tempo que ele estudou. Tempo de passeatas, de vida regurgitando nas ruas, de gente que pretendia transformar o mundo.

As utopias estavam vivas e eram levadas a sério. A Revolução era um apanágio de muitos, de quase todos. Claro que estamos falando da metáfora de “um dia”, estudado por Walnice Galvão, e não do golpe de 1964, que frustrou os sonhos igualitários de uma geração.

O texto de Wagner, impregnado por essa música, difusa ou contundente, ecoa as vozes do chamado “Pessoal do Ceará” e dialoga com grupos de teatro, manifestos literários, exercícios de “super-8” e experimentações no campo das artes plásticas que ganhavam espaço nos suplementos culturais.

É uma Fortaleza que não existe (terá existido um dia?) a não ser na memória, nos poucos vinis, nos mimeógrafos de uma geração de jovens poetas e nas palmas abafadas de um público que não disse a que veio.

Os festivais uniam política e Indústria Cultural. Vivíamos a mesma angústia levantada por José Ramos Tinhorão (em “A Província e o Naturalismo”) de sermos produtores sem fruidores. A música de qualidade se perdia no ar.
O bar do Anísio, o Balão Vermelho, as cantinas das faculdades, a quadra do CEU e o Teatro Universitário se tornaram pequenos demais para a necessidade de amplificação dos protestos e do que fazíamos naqueles tempos. Os festivais vieram como instância de difusão do que era feito aqui. “Aqui no Canto”, dizia o da Rádio Assunção.

Nossa relação com o disco vinha desde os tempos da Casa Edison, a partir dos primeiros anos do século XX, quando Mário Pinheiro (filho de cearense) gravou Raimundo (Cotoco) Ramos.

O aspecto, aparentemente competitivo, escondia que estávamos todos do mesmo lado: o da liberdade de expressão e da denúncia da violação dos direitos individuais. Instaurava-se uma longa noite de vinte e um anos. E agora?
Nós que queríamos mudar o mundo, agora precisávamos salvar nossa pele. Não poderíamos recuar, sob pena de nos sentirmos covardes. Mas, aonde nos levariam a tortura e a clandestinidade?

Cantar como exercício de liberdade? Por que não?
Houve em 68 na Europa e nos Estados Unidos, mas o nosso ecoou mais forte porque marcado pelo ímpeto de fazer calar uma geração. Viva Cláudio Pereira!
Estávamos nas ruas e, ainda hoje, o auditório da Reitoria da UFC homenageia um ditador que muitos chamavam de “presidente”.
Mas o livro de Wagner precisa ser lido ao som de Rodger, Ednardo, Petrúcio, Belchior, Tetty, Augusto Pontes, Fausto Nilo, Fagner, dentre outros.

Precisamos evocar Aderbal Júnior (depois Freire Filho), José Humberto, Olga Paiva, Nonato Freire, “Gritas” e “Grutas”.
Das cores e formas do pessoal da Casa de Raimundo Cela. Do SIN ao Saco, chegando ao Siriará.
Precisamos filtrar isso tudo e termos a consciência de que vaiamos e aplaudimos, jogamos pedras, muitos foram presos, outros foram mortos, mas a vida continuou e nos trouxe até esse ponto de podermos ver tudo isso, no plano da memória e no livro de Wagner Castro como uma das possíveis leituras feitas desse período tenso, rico, difícil de ser vivido. Esse doloroso rito de passagem de uma juventude para a idade adulta deixou seqüelas que estão vivas até hoje.

Mas o canto se eleva mais alto: “faz escuro, mas eu canto”. Tanta coisa passou, continua o ânimo de deixar marcas, aqui perdidas no éter ou arranhadas no vinil, cuja agulha rombuda insiste em fazer tocar. Já não somos mais jovens, mas estamos vivos. Talvez tenhamos deixado de ser atores para nos tornarmos personagens dessa crônica inquieta. Wagner sabe disso, vai nos cercando, dando conta da cena e fazendo emergir o grito primal por liberdade, ainda que tardia, de uma geração.

O palco improvisado aumenta a importância da performance. A corda do violão se rompe sob a tensão. A voz desafina. Mas os aplausos são fortes, para todos os que viveram esse momento de crise e para Wagner Castro que teve a sensibilidade de levar tudo isso para sua pesquisa que agora acaba em livro.

GILMAR DE CARVALHO

sábado, 6 de setembro de 2008

Livro - sobre o Pessoal do Ceará - Pedro Rogério

PARA PENSAR O PESSOAL

Muitos são os caminhos possíveis para se contar uma história. O registro equilibrado e reflexivo da pesquisa acadêmica, as cores intensas da tessitura presente nos registros da imprensa diária, o reconstituir de fatos, datas e minúcias legadas por arquivos, produtos e documentos, a lembrança naveana daquilo que se viveu, como protagonista ou testemunha; ou ainda o diálogo entre fontes capazes e desejosas de compartilhar memórias que, mais do que um caráter individual, digam de uma coletividade, de um aspecto social, da atmosfera de uma cidade. De cara de seus personagens, do gosto dos seus dias, dos passos de sua trajetória. Caminhar a vida, recontar a história. Cada novo dia, ontem e agora.

É na dinâmica da combinação de todas essas abordagens – formas de contar uma mesma história, viva em suas várias versões, presentes na intensidade com que o campo de forças nela envolvidas segue fazendo o debate se estender de ontem ao hoje – que o professor, pesquisador, musicista e radialista Pedro Rogério revisita a história do grupo de músicos, compositores, intérpretes e produtores culturais responsável pelo que viria a ser conhecido como Pessoal do Ceará.

Não só por ter convivido com o Pessoal do Ceará de forma privilegiada – como filho de um dos mais líricos e inovadores compositores e da mais simbólica voz feminina daquela geração - , mas também por esse motivo, Pedro Rogério assumiu a tarefa de fazer sua parte no recontar dessa história.
Uma epopéia, por assim dizer, cujo interesse vem aumentando nos últimos tempos, inclusive por parte da academia, mas cujas dimensões e importância ainda fazem por merecer mais relatos à altura.Na bagagem de Pedro, cabem, ladeados, Rodger Rogério, Teti, Raimundo Fagner, Antonio Carlos Belchior, Ednardo, Wilson Cirino, Petrúcio Maia, Fausto Nilo, Piti, Francis Vale, Dedé Evangelista, Ricardo Bezerra, Augusto Pontes, Tânia Cabral, Cláudio Pereira e... Pierre Bourdieu.

Isso mesmo. O sociólogo francês é convocado a emprestar suas lentes a um olhar sobre o Pessoal que, nos anos 70, reinseriu o Ceará no mapa da música brasileira, um feito ainda não igualado, em termos de visibilidade, pelas novas levas de talentosos artistas que beberam na fonte daquela turma e a ela sucederam.

As origens e as influências compartilhadas pelos que viriam a se tornar artífices do Pessoal são esquadrinhadas por Pedro Rogério, aqui o pesquisador cuidadoso, detalhista, atento ao “habitus” e ao “campo” de Bourdieu para dar à luz sua tese; uma leitura possível para o embate entre unidade e diversidade responsável por fazer com que o Pessoal do Ceará causasse tanto impacto, mesmo passando longe de se assumir como “movimento”.

Sem trazer outro manifesto que não a determinação de ir além fronteiras e a vontade de cantar, entre tantos outros motes, as coisas de sua aldeia, que eles já sabiam tão provinciana quanto universal.
À parte essa soma de individualidades em contraste com o conceito de grupo, a dissertação de Pedro Rogério – em boa hora transposta em livro pela Universidade Federal do Ceará, para satisfação dos interessados no tema – demonstra que sim, havia muito em comum entre os personagens dessa história que continua a se fazer e a se contar.
Suas influências de múltiplos vértices, entre Lauro Maia, Luis Assunção, Humberto Teixeira, Beatles, Stones, Dylan, Bossa Nova, Tropicália e Clube da Esquina, da tradição ao liquidificador da indústria cultural, sua origem de classe média, os locais que compartilhavam na Fortaleza dos anos 60 e até sua breve iniciação musical formal, seguida pela escolha autodidata nos códigos da música popular, estão entre os ingredientes que levaram à convergência, às parcerias, à caminhada dividida pelos integrantes deste Pessoal, na estrada rumo ao sul e à sorte.

Enquanto o olhar local divisa com mais facilidade as diferenças entre cada artista, é principalmente como um grupo que o Brasil olha para os “novos cearenses”;muitos dos quais falaram a Pedro Rogério em depoimentos exclusivos, de grande interesse para o leitor. E que ajudam, entre redundâncias e novidade, confirmação e divergência, a tecer a renda dessas reflexões.

A bibliografia sobre a música e a cultura do Ceará ganha um significativo reforço com este livro, em que a sociologia pára para ouvir e pensar o Pessoal do Ceará.
Aplausos para Pedro Rogério

DALWTON MOURA
Jornalista

Apresentação do Livro - PESSOAL DO CEARÁ - Habitus e campo musical na década de 70
De Pedro Rogério
Edições UFC, 2008
Universidade Federal do Ceará
188p.
ISBN: 978-85-7282-293-0

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Quebra-Pau no Samba

Numas destas viagens demoradas em rápido avião me deparei com uma revista de bordo com matéria que chamou atenção, a qual vou postar alguns trechos com os devidos créditos.

Texto: Bruno Hoffmann – Revista Brasil. Almanaque de Cultura Popular Ano 10
Agosto 2008 Nº 112. Desenho – Nássara – (publicado na capa do disco Polêmica com músicas de Noel Rosa e Wilson Batista).

Coloquei alguns vídeos e links para ilustrar o assunto.

Zeca Zines

_____________________________________________________________

BRIGA DE BAMBA TAMBÉM DÁ SAMBA

A música brasileira reservou momentos para históricas discussões musicais. Seja por brigas verdadeiras, desavenças de pontos de vista ou por mera brincadeira, compositores criaram sambas que caíram no gosto popular. Neste Especial, reunimos alguns deles. Não sentenciaremos o resultado, papel que fica ao cargo do leitor. A nossa conclusão é que, em todas as batalhas, quem saiu ganhando foi a música brasileira.

WILSON – VS. - NOEL

No início dos anos 1930, Noel Rosa ouviu um samba chamado “Lenço do Pescoço”, gravado por Silvio Caldas. A canção era uma lavada exaltação à malandragem, com versos como: Eu passo gingando / Provoco e desafio / Eu tenho orgulho de ser tão vadio.
Apesar de várias de suas composições se mostrarem simpáticas aos malandros, resolveu responder ao compositor, o jovem e então desconhecido Wilson Batista.

Mas musicalmente. Nascia “Rapaz Folgado”, em que clama ao autor que compre sapato e gravata e deixe de lado a vida boa.
O que poderia parecer apenas “um chega pra lá” a um iniciante tinha, na verdade, outras motivação: O aspirante havia se envolvido com Juraci Correia de Morais, ou Ceci, o maior e mais conturbado amor da vida de Noel.

Wilson que de besta não tinha nada, viu na polêmica um atalho para o sucesso. Compôs então “Mocinho da Vila”: Injusto é seu comentário / Fala de malandro quem é otário.
E Noel decidiu dar um basta. Escreveu a definitiva “Feitiço da Vila”: Lá, em Vila Isabel / Quem é bacharel / Não tem medo de bamba / São Paulo dá café / Minas dá leite / E a Vila Isabel dá samba.
Acreditava que assim calaria de vez seu adversário. Estava enganado. O incansável Wilson compôs “Conversa Fiada”, obrigando Noel a replicar com a desmoralizante “Palpite Infeliz”: Pra que ligar a quem não sabe / Aonde tem o seu nariz? / Quem é você que não sabe o que diz?

E Wilson perdeu as estribeiras. Emendou a nada sutil “Frankenstein da Vila”, em alusão ao defeito que Noel tinha no queixo: Entre os feios és o primeiro da fila / Todos reconhecem lá na Vila / Essa indireta é contigo.

Aí Noel se magoou. Há quem diga que, furioso, foi de banca em banca comprar todos os exemplares do Jornal da Modinha, que havia publicado a letra.
Indagado se não teria passado dos limites, Wilson desconversou: “Noel era homem, não há mal algum em chamar homem de feio”.
Os dois ainda trocaram farpas com “João Ninguém”, de Noel, e “Terra de Cego” de Wilson.
Mas a briga que rendeu algumas das mais saborosas músicas da nossa história tinha chegado ao fim.


CECI – VS. – NOEL – A Dama do Cabaré

Juraci, que atendia pelo nome artístico de Ceci, era dançarina da boate Apolo, um lugar pouco familiar da Lapa, região central do Rio.
Noel, assíduo freqüentador, a conheceu em 1934 e nunca mais pensou seriamente em outra mulher - nem mesmo em sua própria esposa.
Viveram um amor complicado, mas que gerou grandes sambas (a música novamente agradece).
“Dama do Cabaré”, “Eu sei Sofrer”, “Pra que Mentir”, são apenas algumas delas.
Em “O maior castigo que eu te dou”, Noel sintetizou a relação de amor e ódio: O maior castigo que te dou / É não te bater / Pois sei que gostas de apanhar / Não há ninguém mais calmo do que eu sou / Nem há maior prazer / Do que te ver me provocar.

A derradeira canção destinada a Ceci foi “Último Desejo”, escrita quando o poeta da Vila já estava debilitado pela tuberculose, doença que o mataria antes de completar 27 anos.
No leito de morte, cantarolou a canção, nota por nota, para Vadico, um de seus mais freqüentes parceiros. E pediu que entregasse uma cópia a Ceci. O amigo levou a letra da música à amada de Noel e, ao se despedir, achou por bem esclarecer: “Acho que ele te castiga um pouco nesse samba, Ceci”.

OS ADVERSÁRIOS SE UNEM

No auge da polêmica entre Wilson e Noel, os compositores se encontraram em um bar ao lado dos Arcos da Lapa. O clima foi amistoso. Wilson abriu um sorriso e disse: “Noel, tenho mais uma aqui pra você”, e cantou “Terra de Cego”. O músico ficou intrigado com a melodia, que considerou muito boa. Propôs, então, uma parceria. Sentou-se na mesa e, pouco tempo depois, estava pronta “Deixa de Ser Convencida”: Deixa de ser convencida / Todos sabem qual é seu velho modo de vida.
A única parceria entre ambos foi destinada a quem? Sim, a ela, Ceci.



Maysa Cantando - Meu Último Desejo de Noel Rosa -acompanhada de Rildo Hora na Gaita
________________________________________________________

DALVA – VS. – HERIVELTO – Teu mal é comentar o passado.

Um amor conturbado e sambas inesquecíveis. Dalva de Oliveira e Herivelto Martins eram casados, mas viviam em pé-de-guerra. As discussões não se restringiam ao lar: eram ecoadas pelas ondas do rádio. A briga pública começou quando Dalva cantou “Errei, Sim”, encomendada a Ataulfo Alves: Manchei teu nome / Mas foste tu o culpado / Deixava-me em casa / Me trocando pela orgia.
http://br.youtube.com/watch?v=7xfKqSf0BXA

Em resposta, Herivelto compôs “Cabelos Brancos”: Não falem dessa mulher perto de mim (...) Por ela vivo aos trancos e barrancos / Respeitem ao menos os meus cabelos brancos.
E os sambas brotavam, para deleite dos ouvintes-fãs-fofoqueiros.
Ainda foram criadas, para Dalva cantar, “Fim de Comédia”, de Ataulfo Alves, E “Que Será”, de Rossini Pinto.
Herivelto respondeu com mais dois sambas: “Caminhemos” e “Segredo”. Ironicamente neste último, exige mais descrição por parte da cônjuge: Teu mal é comentar o passado / Ninguém precisa saber o que houve entre nós dois...



Dalva de Oliveira - cantando Neste Mesmo Lugar de Armando Cavalcanti e Klécius Caldas - TV TUPI
_________________________________________________

CHICO – VS. – TROPICALISTAS – Nem toda loucura é genial.

Em 1967, um artista começava a se tornar unanimidade nacional, como definiu à época Millôr Fernandes. O jeito tímido, o ar de genro ideal e os caprichados sambas tradicionais diferenciavam Chico Buarque da turma que pretendia revolucionar a música brasileira: a Tropicália.

Por isso, passou a ser tachado de antiquado pelo movimento. Em resposta aos tropicalistas, Chico escreveu um artigo no jornal Última Hora sob o título “Nem toda loucura é genial, nem toda lucidez é velha”.
E muitos viram em “Essa Moça Tá Diferente” o contra golpe mortal. Na canção, a personagem anseia se modernizar a qualquer custo, desdenha de tudo que pareça velho, mas “samba escondida, que é pra ninguém reparar”.




Chico Buarque - cantando Essa Moça tá Diferente

______________________________________________


ERNESTO – VS. – ADONIRAN – Se não tem mancada, não tem samba, Arnesto.

Ele ficou com a fama de quem convida para o samba em sua própria casa e, apesar disso, não comparece. Não há quem desconheça a história, embora sua identidade tenha sido preservada pelo inconfundível sotaque italianado de Adoniran Barbosa.
Em sua defesa, Ernesto Paulelli – ou Arnesto – garante que nunca convidou ninguém para samba algum. Tornou-se amigo de Adoniran em 1939. O Sambista prometeu que lhe faria um samba, pois havia gostado da sonoridade do nome. Anos depois, a novidade corria as emissoras de rádio: O Arnesto nos convidou / prum samba ele mora no Brás / Nóis fumo e não encontrêmo ninguém.

“Olha lá, mulher, esta música é pra mim!”
Ao encontrar o compositor, agradeceu a homenagem, mas comentou que já estava meio cansado de tanto ouvir piadinhas. Adoniran justificou: “Se não tem mancada, não tem samba, Arnesto”.




Adoniran Barbosa - Cantando Samba do Arnesto

terça-feira, 2 de setembro de 2008

O Que Será que Aconteceu com essas Meninas?

Vendo Xuxa que daqui a pouco chega aos 50 anos insistindo em fazer um programa infanto juvenil e o clone as avessas, uma criança de uns 5 anos, Maisa tentando ser adulta antes do tempo e a todo custo com palavras, frases e poses ensaiadas, tal qual o protótipo anterior, ocupar um espaço que na verdade é o Não Espaço e Negação do Tempo, onde ambas aparecem como super dotadas “de qualquer coisa” a primeira por parecer eternamente criança e a segunda por parecer eternamente adulta, ambas fora dos seus tempos e espaços.

É de se imaginar o que estas televisões estão fazendo não só com as cabeças dos que assistem, mas também com a cabeça dessas pessoas que encabeçam estes programas malucos e sem sentidos.

Shirley Temple, garota “prodígio” dos anos 50 que emocionou a América, amargou pro resto de sua vida o anonimato, Xuxa que apareceu primeiramente como ninfeta pré-fabricada emplacou durante bastante tempo programas infantis, e infanto juvenil, com uma alta carga de erotização. Agora vem Maisa retomando esta linha com avassaladora carga de conceitos estereotipados em programa que bate records de assistência.

É o circo onde pessoas são colocadas como animais raros para “apreciação” pública, e vender produtos, e para demonstrar a comédia ou miséria humana enquanto dura seu “reinado”.

O que será que aconteceu com essas meninas, quando eram pequenos seres humanos?
Sim porque nenhuma delas deve ter desfrutado de suas infâncias. O que será que foi feito com estas cabecinhas, por seus pais, ou seus exploradores comerciais?

É amedrontador notar neste vídeo com a pequena Maisa, seu desnorteamento... causado por terceiros. Crianças superdotadas e com alto grau de inteligência poderiam ter um destino muito mais interessante pra elas mesmas pra quando chegassem a idade adulta.

Deixo pra vocês observarem... com suas próprias conclusões.