


Revolta da Chibata é tema de graphic novel da dupla cearense Hemetério e Olinto Gadelha. O álbum sai pela conceituada Conrad Editora.



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TERRAL DOS SONHOS - O Cearense na Música Popular Brasileira
Mary Pimentel Aires - Fortaleza : Banco do Nordeste do Brasil / Gráfica e Editora Arte Brasil, 2006
204p. (Coleção Teses Cearenses) C.D.U. 323.17.78(81)
Nos anos 60, em pleno período autoritário, eclodiu em Fortaleza um movimento musical que repercutiu no Brasil afora. Em torno da Faculdade de Arquitetura e de bares como o Balão Vermelho e o Anísio, na Beira Mar, gravitavam estudantes universitários que utilizavam referenciais estéticos como expressão de uma insatisfação diante da censura, do fechamento que o país vivia e da repressão que se acentuou a partir de 1968.
Este movimento, de certo modo, era tributário de uma tradição musical que vinha do século XIX, com as modinhas de Nepomuceno e se reforçava no início do século com a verve de Ramos Cotoco, Branca Rangel e Juvenal Galeno.
Mais recentemente, com a boemia de Lauro Maia e Aleardo Freitas e a inquietude de Luis Assunção mantiveram uma tradição que os novos superaram sem negar a contribuição dos que vieram antes.
Nos festivais, tão em voga nesta década de transformações e contestação, se forjaram valores que partiram para tentar o mercado nacional.
São estas questões que Mary Pimentel trata: a essência do que seria “cearense”, sem cair na facilidade dos estereótipos, as relações com a industria, as propostas de uma nova estética. O resultado é um painel vivo e instigante, num texto rigoroso, mas de leitura prazerosa que vem preencher uma lacuna na bibliografia cearense e chamar a a tenção para a importância no contexto social.
Apresentação do Livro – TERRAL DOS SONHOS – De Mary Pimentel
Professor Gilmar de Carvalho
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Trechos Condensados do Prefácio da 3ª Edição
Pesquisador, Jornalista e Radialista da Rádio Universitária UFC - NELSON AUGUSTO
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Terral dos Sonhos – O Cearense na Música Popular Brasileira, mapeia como objeto de estudo a música popular composta no Ceará de 1964 a 1979. Nesse período aconteceu a formação, propagação e consagração do movimento que ficou conhecido na MPB como PESSOAL DO CEARÁ, o qual agrega a geração de artistas cearenses (músicos, cantores e letristas) que, a partir da década de 70, começa a ingressar no cenário musical brasileiro.
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Dessa geração de compositores que foram tentar a sorte na cidade grande, os que obtiveram maior destaque nacional foram Belchior, Fagner e Ednardo. A origem do nome do grupo se deve ao LP Ednardo e o Pessoal do Ceará, que tem como subtítulo “Meu Corpo, Minha Embalagem, Todo Gasto na Viagem”, lançado em 1972 , pelos cantores/compositores Ednardo e Rodger Rogério e pela cantora Teti. Esse disco que teve produção de Walter Silva pode ser considerado um marco na incursão desses novos compositores no mercado fonográfico.
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A publicação Terral dos Sonhos é uma minuciosa pesquisa feita em acervos de jornais, revistas e livros do gênero, além de entrevistas com artistas, colecionadores e pessoas envolvidas com a cultura alencarina. Para produzir sua dissertação, Mary Pimentel também se valeu da sua condição de colaboradora do movimento musical cearense, contudo com isenção científica de socióloga. A autora integrou inicialmente o grupo de canto coral - O Canto do Aboio - e fez parte do grupo Garotas 70, chegando a participar de shows e festivais.
Mary Pimentel Aires, ao situar os personagens do tempo de Terral dos Sonhos, também foi buscar os antecessores da canção alencarina, os quais, desde 1908 inscreveram seus nomes na história da Música Popular Brasileira.
Entre eles, Ramos Cotoco, Hilda Marçal Matos, Lauro Maia, Humberto Teixeira, 4 Ases & 1 Curinga, Luis Assunção, Evaldo Gouveia e o Trio Nagô. Todos incluídos na nossa hereditariedade musical trazida do século XIX pelos precursores Alberto Nepomuceno, Branca Rangel e Juvenal Galeno e também revelada em seguida por talentos do quilate de Aleardo Freitas, Gilberto Milfont, Catulo de Paula, Carlos Barroso, Paulo Neves, Pierre Luz, Mário Alves, Moacir Ribeiro de Carvalho, Waldemar da Ressureição, Caetano Accioly, Vocalistas Tropicais, Euclides Silva Novo, Mozart Brandão, Guilherme Neto, José Auriz Barreira, Zé Menezes, Jacques Klein e Eleazar de Carvalho.
Com este livro, Mary Pimentel Aires tornou-se a precursora do estudo científico contemporâneo dos artistas da canção alencarina.

PARA PENSAR O PESSOAL
Numas destas viagens demoradas em rápido avião me deparei com uma revista de bordo com matéria que chamou atenção, a qual vou postar alguns trechos com os devidos créditos.Texto: Bruno Hoffmann – Revista Brasil. Almanaque de Cultura Popular Ano 10
Agosto 2008 Nº 112. Desenho – Nássara – (publicado na capa do disco Polêmica com músicas de Noel Rosa e Wilson Batista).
Coloquei alguns vídeos e links para ilustrar o assunto.
Zeca Zines
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BRIGA DE BAMBA TAMBÉM DÁ SAMBA
A música brasileira reservou momentos para históricas discussões musicais. Seja por brigas verdadeiras, desavenças de pontos de vista ou por mera brincadeira, compositores criaram sambas que caíram no gosto popular. Neste Especial, reunimos alguns deles. Não sentenciaremos o resultado, papel que fica ao cargo do leitor. A nossa conclusão é que, em todas as batalhas, quem saiu ganhando foi a música brasileira.
WILSON – VS. - NOEL
No início dos anos 1930, Noel Rosa ouviu um samba chamado “Lenço do Pescoço”, gravado por Silvio Caldas. A canção era uma lavada exaltação à malandragem, com versos como: Eu passo gingando / Provoco e desafio / Eu tenho orgulho de ser tão vadio.
Apesar de várias de suas composições se mostrarem simpáticas aos malandros, resolveu responder ao compositor, o jovem e então desconhecido Wilson Batista.
Mas musicalmente. Nascia “Rapaz Folgado”, em que clama ao autor que compre sapato e gravata e deixe de lado a vida boa.
O que poderia parecer apenas “um chega pra lá” a um iniciante tinha, na verdade, outras motivação: O aspirante havia se envolvido com Juraci Correia de Morais, ou Ceci, o maior e mais conturbado amor da vida de Noel.
Wilson que de besta não tinha nada, viu na polêmica um atalho para o sucesso. Compôs então “Mocinho da Vila”: Injusto é seu comentário / Fala de malandro quem é otário.
E Noel decidiu dar um basta. Escreveu a definitiva “Feitiço da Vila”: Lá, em Vila Isabel / Quem é bacharel / Não tem medo de bamba / São Paulo dá café / Minas dá leite / E a Vila Isabel dá samba.
Acreditava que assim calaria de vez seu adversário. Estava enganado. O incansável Wilson compôs “Conversa Fiada”, obrigando Noel a replicar com a desmoralizante “Palpite Infeliz”: Pra que ligar a quem não sabe / Aonde tem o seu nariz? / Quem é você que não sabe o que diz?
E Wilson perdeu as estribeiras. Emendou a nada sutil “Frankenstein da Vila”, em alusão ao defeito que Noel tinha no queixo: Entre os feios és o primeiro da fila / Todos reconhecem lá na Vila / Essa indireta é contigo.
Aí Noel se magoou. Há quem diga que, furioso, foi de banca em banca comprar todos os exemplares do Jornal da Modinha, que havia publicado a letra.
Indagado se não teria passado dos limites, Wilson desconversou: “Noel era homem, não há mal algum em chamar homem de feio”.
Os dois ainda trocaram farpas com “João Ninguém”, de Noel, e “Terra de Cego” de Wilson.
Mas a briga que rendeu algumas das mais saborosas músicas da nossa história tinha chegado ao fim.
Vendo Xuxa que daqui a pouco chega aos 50 anos insistindo em fazer um programa infanto juvenil e o clone as avessas, uma criança de uns 5 anos, Maisa tentando ser adulta antes do tempo e a todo custo com palavras, frases e poses ensaiadas, tal qual o protótipo anterior, ocupar um espaço que na verdade é o Não Espaço e Negação do Tempo, onde ambas aparecem como super dotadas “de qualquer coisa” a primeira por parecer eternamente criança e a segunda por parecer eternamente adulta, ambas fora dos seus tempos e espaços.
É de se imaginar o que estas televisões estão fazendo não só com as cabeças dos que assistem, mas também com a cabeça dessas pessoas que encabeçam estes programas malucos e sem sentidos.
Shirley Temple, garota “prodígio” dos anos 50 que emocionou a América, amargou pro resto de sua vida o anonimato, Xuxa que apareceu primeiramente como ninfeta pré-fabricada emplacou durante bastante tempo programas infantis, e infanto juvenil, com uma alta carga de erotização. Agora vem Maisa retomando esta linha com avassaladora carga de conceitos estereotipados em programa que bate records de assistência.
É o circo onde pessoas são colocadas como animais raros para “apreciação” pública, e vender produtos, e para demonstrar a comédia ou miséria humana enquanto dura seu “reinado”.
O que será que aconteceu com essas meninas, quando eram pequenos seres humanos?
Sim porque nenhuma delas deve ter desfrutado de suas infâncias. O que será que foi feito com estas cabecinhas, por seus pais, ou seus exploradores comerciais?
É amedrontador notar neste vídeo com a pequena Maisa, seu desnorteamento... causado por terceiros. Crianças superdotadas e com alto grau de inteligência poderiam ter um destino muito mais interessante pra elas mesmas pra quando chegassem a idade adulta.
Deixo pra vocês observarem... com suas próprias conclusões.

Francisco Reis
Fui poupado “do vexame de morrer tão moço” para viver a glória de prestigiar o magistral Ednardo, cantor e compositor cearense que encantou os presentes no “Armazém de todos os sertões”, último dia 23, com melodias que laurearam a história da música brasileira, especialmente da nordestina.
Diferentemente dessa contracultura massificadora, de bagulhos que estão a impregnar a mente dos incautos, a obra de artistas da linhagem de Ednardo resgata do limbo a poesia, a essência artística contida na verdadeira música regional e, acima de tudo, enche-nos de alento, dá-nos a sensação de que nem tudo está perdido.
A apresentação não poderia ter sido mais original. Diferentemente daquelas feitas em palanques gigantescos, que ficam em altura e distância consideráveis, separando o artista da platéia, o palco foi montado a poucos metros do chão e em tamanho suficiente para acomodar os músicos, mais nada. Resgatando a simplicidade de outrora, em que só havia espaço para a boa música, pois não existia coreografia de mulheres seminuas a balançar a bunda em movimentos libidinosos, os organizadores do evento penetraram fundo na alma dos apreciadores da boa música.
Houve empatia entre os músicos e seus admiradores. Ednardo entremeava suas melodias com declarações de afeto, de agradecimento e, principalmente, de respeito ao povo e às coisas do Piauí. Fazia questão de registrar que em muitas daquelas canções havia a participação de artistas piauienses, parceiros como Clodo, Climério e Clésio, pouco conhecidos por aqui.
Felizmente, ainda há muitas mentes lúcidas prontas para louvarem “o que bem merece”. Foi o que se viu naquele magnífico espetáculo, quando pessoas de todas as idades, em coro, acompanharam o artista nas interpretações de sucessos como “Pavão misterioso”, “Terral”, “Lagoa de aluá” e outros de sua lavra, que imortalizaram esse cearense da estirpe de conterrâneos como Belchior e Fagner, e do quilate de Geraldo Azevedo, João do Vale, Zé Ramalho, Alceu Valença e de tantos outros que fazem parte da constelação musical nordestina.
Precisamos de menestréis, de poetas que cantem a vida, a sua simplicidade sem pieguice, “porque cantar parece com não morrer, é igual a não se esquecer que a vida é que tem razão”. Estamos cheios de “lapadas na rachada”, de “créus”, de sertanejos medíocres, de forrozeiros de araque e de outras porcarias que a mídia nos enfia goela abaixo, compulsoriamente, todo santo dia.
Seguindo a filosofia do tropicalista piauiense Torquato Neto, está na hora de louvar “o que deve ser louvado”, de se resgatar a verdadeira cultura e de “deixar o resto de lado”, principalmente essa baixaria que azucrina nossos ouvidos e, impunemente, prostitui nossa juventude.
Francisco Reis é Professor

Obs (1)- Publicação autorizado pelo Autor ao qual parabenizamos pelo excelente texto.
Obs (2)-Postei em outro tópico um vídeo de Ednardo cantando Alfa Beta Ação durante Show em Minas Gerais, vou repetir aqui pra quem quizer dar uma olhada.
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| MASSAFEIRA LIVRE |
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Vejam que maravilha! Dolores Duran! Grande cantora e compositora brasileira.
Parte do Programa Por Toda a Minha Vida, homenagem a Dolores Duran, com participações de Tom Jobim e Roberto Carlos, (Estrada do Sol) e outros - Tv Globo 18/07/2008.
As imagens do especial em grande parte são de atores e atrizes, mas tem muitos arquivos fotográficos e a voz nas músicas Por causa de você, e Fim de Caso, e outras é de Dolores Duran em áudios originais.
O especial todo é muito bom, vale dar uma olhada em tudo que está disponibilizado no YouTube sobre este especial.
Ednardo gravou duas músicas de João do Vale - "Na Asa do Vento" (Luiz Vieira e João do Vale) - disco Imã - Ednardo 1980 e "O Bom Filho A Casa Torna" (Eraldo Monteiro e João do Vale) - disco João Batista do Vale, produzido em 1995 por Chico Buarque, e também cantou junto à João do Vale no famoso Forró Forrado no Catete - Rio de Janeiro, onde João fazia as vezes de Mestre de Cerimônia, cantando e convidando vários artistas.
Escute também "O Bom Filho a Casa Torna" http://app.radio.musica.uol.com.br/radiouol/player/frameset.php?opcao=umamusica&nomeplaylist=003218-9_16<@>João_Batista_Do_Vale<@>O_Bom_Filho_À_Casa_Torna<@>Vários_Artistas<@>0344<@>Ednardo<@>BMG_Internacional<@>RCA
Na Asa do Vento é uma das mais conhecidas canções de João do Vale. Autor de dezenas e dezenas de sucessos como Carcará, Pisa na Fulô, Peba na Pimenta, Pipira, Estrela Miúda, e uma grande lista cantada e registradas por intérpretes como Ednardo, Chico Buarque, Nara Leão, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Betânia, Fagner, Clara Nunes, Tom Jobim, Amelinha, Alceu Valença, Gonzaguinha, Dolores Duran, e uma infinidade de outros artistas.
Veja esta matéria do Jornalista José Teles do Jornal do Commercio - Recife PE
BIOGRAFIA JOÃO DO VALE: Bom de papo, de cama, de copo e de música.
Um anônimo coletor, nomeado para a pequena Pedreiras, interior do Maranhão, mudou a vida de um garoto, neto de escravos, chamado João Batista Vale. Não havia vagas suficientes na escola municipal, e o filho do coletor não ia ficar sem estudar. “Tinha uns trezentos alunos, mas escolheram logo eu para dar lugar ao filho do homem.
Hoje eles botaram rua com meu nome, me homenageiam, só para desmanchar o que fizeram... Mas nem Deus querendo eu esqueço”. O menino, que de tanto dançar e cantar recebeu o apelido de “Pé de Xote”,tiraria daquela derradeira lição que a escola formal lhe ensinou a consciência para denunciar os problemas sociais, anos mais tarde, em suas músicas.
Enquanto a maioria dos compositores da chamada música nordestina explorou ad nauseam o drama da seca, João do Vale falava das desigualdades sociais,foi pioneiro em abordar, sem demagogia, o tema reforma agrária: “É só me dar terra pra ver como é que é/ Eu planto feijão, arroz e café... Eu sou bom lavrador/Mas plantar pra dividir/ Não faço isso mais não” (Sina de cabloco, com Jocastro Bezerra de Aquino).
João do Vale morreu no dia 6 de dezembro de 1996, em conseqüência de uma derrame cerebral. Apesar de uma obra com mais de duzentas canções registadas em seu nome (fora dezenas que vendeu), faleceu quase tão pobre quanto na época em que fugiu de casa, em 1949, aos 14 anos.
O escritor carioca Márcio Paschoal resgata parte da trajetória do injustiçado maranhense com a biografia Pisa na Fulô mas não Maltrata o Carcará – Vida e Obra do Compositor João do Vale, o Poeta do Povo (EditoraLumiar).
Assim como o título da obra peca pelo tamanho, o texto exagera em citações e correlações entre a vida do biografado e fatos da história do Brasil, ilustrando com lances pitorescos do espirituoso compositor. Quando o baião estava no auge, João do Vale pode comprar um Simca Chambord. “Tava vindo, todo prosa, pela Avenida Brasil, quando encostaram uns caras e disseram: ‘Aí neguinho, esmerilhando o carro do patrão! Pra não acabar matando uns e outros aí, não quero mais saber desse negócio de carro’”, conta, explicando por ter desfeito-se do automóvel.
Lavrador, ajudante e dono de caminhão, pedreiro, ex-reserva de Zizinho, no Bangu, ele ainda traçava massa na obra quando sua música Estrela miúda passou a tocar no rádio. Os primeiros direitos autorais teve dificuldades em receber por ser de menor idade, mas bateu pé e pagaram-lhe duzentos mil réis, uma fortuna, para quem faturava cinco mil réis mensais na construção. Na asa do vento, parceria com Luiz Vieira, gravada, em 56, por Dolores Duran, tornou João do Vale compositor em tempo integral.
Bom de copo, de cama e de papo, faria amizades que lhe renderiam dividendos a vida inteira. Uma delas, com os irmãos Roberto e Riva Farias, que o levaram para o cinema. Participou de quatro filmes. O primeiro, uma ponta em Mão Sangrenta (1954), de Carlos Hugo Christensen, o derradeiro como autor da trilha de Meu nome É Lampião(1969), de Roberto Farias.
João do Vale nunca escondeu que vendia as suas próprias músicas. O cantor e compositor João do Vale era de uma memória prodigiosa para os temas aprendidos em sua terra, muitos deles reutilizados em baiões, xotes, sambas. Entre meados dos anos 50 e dos 60, foi sucesso nas vozes de astros rádio, como Ivon Cury, Marlene, Jacksondo Pandeiro. No Nordeste, Marinês, gravava discos inteiros só com composições do maranhense.
Luiz Gonzaga o esnobou no início mas depois virou freguês de suas músicas (algumas com parceria fantasmas de Helena Gonzaga, mulher de Gonzagão).
João do Vale nunca escondeu que vendeu muitas composições, só nunca quis nomear os compradores. O Cheiro da Carolina, um baião clássico está registrada como parceria de Zé Gonzaga e Amorim Roxo.
O Xote das meninas, insinua o autor que pode ter sido da sua lavra (algo pouco provável, afinal com seu talento Zé Dantas não tinha o perfil de “comprositor”). Aliás o capítulo das parcerias deveria ter sido mais esmiuçado.
João do Vale raramente assina sozinho suas músicas. Entre seus parceiros há garçons, bicheiro, mulher de bicheiro. Enquanto enche o livro de fatos manjados sobre a conjuntura do País, Márcio Paschoal, aprofunda-se pouco no tema principal do livro. Por alto toca-se na prodigiosa resistência de João do Vale ao álcool, e predileção pelo sexo feminino. Autor prolífico, somente em 63, ele encarou um palco, e tomou gosto.
Foi uma das atrações do Zicartola, lendário botequim/restaurante, de Cartola e dona Zica,freqüentado por músicos e intelectuais. Lá foi entronado ídolo da esquerda festiva, e convidado para estrelar, com NaraLeão (substituída por Maria Bethânia) e Zé Ketti o musical Opinião.
Carcará seria o maior sucesso da peça e pontapé inicial da carreira de Bethânia.
Com acirramento entre a ditadura e a oposição,culminando com o AI-5, o maranhense foi perseguido, e censurado: “Chico foi para a Itália, Gil e Caetano para a Inglaterra e eu, para Pedreiras”, lembrava ele.
Depois do confinamento em sua cidade natal, João do Vale vai morar no distante subúrbio carioca de Rosa dos Ventos. Homem da roça não soube guardar o que a música deu.
Nos anos 80, o cantor João do Vale conseguiu reaver um pouco do prestígio, mesmo assim restrito ao Rio deJaneiro, e entre os felizardos que tiveram a sorte de freqüentar o Forró Forrado, no velho bairro do Catete, onde era a atração das terças, sempre com um convidado ilustre. De Chico Buarque a Mercedes Sosa, passando por Nara Leão muita gente cantou com o maranhense (este um dos melhores trechos do livro).
Marcio Paschoal pontilha sua obra de elogios óbvios de amigos e admiradores do biografado (prefácio de JoséSarney), mas quem definiu João do Vale com mais precisão, foi ele próprio, em uma entrevista concedida pouco antes de entrar no palco do Forró Forrado: “Eu sou um homem da terra, nasci dentro da roça. O negócio é cantar com os pés no chão. Descalço, com amor e nada mais.”
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