domingo, 16 de maio de 2010
Mucuripe
Indicado por Claudete Jucá
domingo, 15 de novembro de 2009
Fagner x Caetano: A Luta do Século
Central da Música, foi um dos primeiros sites de sucesso criado em abril / 2000 por Diego Sana, (Vitória / ES), com seções inteiras de entrevistas, artigos, matérias, resenhas e colunas sobre música, com vários colaboradores de todo o Brasil. O CDM terminou no início de 2004, mas deixou uma grande quantidade de conteúdo sobre música e foi premiado por duas vezes pelo iBest.
Em homenagem aos seus criadores e colaboradores, Zeca Zines pinça uma das matérias realizada pelo colaborador Ednaldo Calahani e indica a seguir o link onde vocês podem encontrar uma parte das matérias regatadas por seu criador Diego Sana.
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Fagner x Caetano: A Luta do Século
Texto publicado originalmente na Central da Musica
Por Ednaldo Calahani em 11/5/2003 – 11:23:28
A rivalidade mais famosa da música brasileira foi entre Emilinha e Marlene. Na porta da rádio Nacional do Rio, multidões de fãs das duas cantoras trocavam insultos, e muitas vezes se engalfinhavam para decidir quem era a melhor. Só que elas, na verdade, eram bem amigas, e se divertiam com a disputa que, enfim, só fazia aumentar a popularidade de ambas.
Bem diferente foi a rinha real entre dois galos bravos da MPB, que quase chegou às vias de fato, e na qual os fãs pouco se envolveram. Retomá-la aqui tem o objetivo de refrescar-lhes a memória, ainda que com o fogo dessa contenda cujos estilhaços se fixaram no nosso inconsciente musical coletivo.
Tudo começou em 1972, Médici no governo, quando Fagner, posando de anti-João Gilberto, lançou sua primeira gravação (“Mucuripe”) no Disco de Bolso do Pasquim; curiosamente, do outro lado vinha Caetano, com “A Volta da Asa Branca”. Logo em seguida, pela antiga Philips, saiu seu primeiro LP, apadrinhado por famosos como Chico e Elis, e logo eleito “favorito do verão” pelo circuito alternativo carioca. Foi um pisão no calo dos baianos, que logo fizeram valer seu status quo na mesma gravadora, reavivando então uma rivalidade geográfica do tempo do império. Nessas, vendo-se boicotado no circo armado, Fagner foi passar uma temporada em Paris, só voltando a gravar em 1975, na Continental, o “Ave Noturna”, mais experimental ainda que o primeiro disco.
No ano seguinte, o amigo Belchior, também pela Philips, estourou com seu LP “Alucinação”, atingindo marcas de vendagem e popularidade nunca alcançados pelos baianos. Isso não foi nada, comparado com a menção explícita a Caetano nas letras: o “antigo compositor baiano”, que dera “a idéia de uma nova consciência”, e que agora estava “em casa, guardado por Deus, contando seus metais” (em “Como Nossos Pais”).
A meu ver, era como um repente, um desafio à pasmaceira e omissão política que exalava dos ex-tropicalistas, mas não foi assim que eles entenderam a coisa. Reagiram, de novo, por baixo do pano, e Belchior, mesmo com o estrondoso sucesso comercial, teve que se mudar para a WEA.
Fagner, filho de pai sírio e fiel às amizades, não se conformou com a nova puxada de tapete, e não deixou barato nas entrevistas: disse que Caetano “já era” (uma expressão comum na época), e que devia ter ficado em Londres. Caetano, cujo fraseado vocal e traços físicos também não disfarçam a quota de sangue sarraceno que lhe corre nas veias, chamou Fagner de “mau-caráter”.
O clima pesou, e Chico, amigo comum, tinha que ter cuidado em não convidá-los para a mesma festa. Bem que ele tentou jogar água na fervura, mas o racha já estava feito.
A verdade é que o Caetano pós-Londres estava “numas de deixar rolar”. Depois de fracassar com o genial “Araçá Azul”, gravou, em 1975, dois belos discos que se complementavam (“Jóia” e “Qualquer Coisa”), recebidos pela crítica com bocejos, e que também venderam pouco.
Quando emergiu o então chamado Pessoal do Ceará (Ednardo, com o Pavão Mysteriozo, de 1974, Fagner e Belchior), sua maré criativa estava em baixa.
No episódio da briga, alguns críticos tomaram o partido dos cearenses. Aí, em 1977, Caetano lançou “Bicho”, exaltando a moda “disco” que aportava no Brasil, e veio o bombardeio: em plena ditadura, que não largava a rapadura, onde já se viu louvar a alegria! Era o tempo das “patrulhas ideológicas”.
Para Caetano, polemista arguto, não foi difícil dar olé na habitual estreiteza mental da crítica. Nas entrevistas e shows desse disco e do seguinte (“Muito”), ouvimos sua voz de trovão em discursos irados. O problema é que ele aproveitou o súbito poder conquistado para uma revanche com seus desafetos.
Elis, que sempre gravou Caetano em seus discos, mas que fez coro contra o “Bicho”, nunca mais foi perdoada (vide o modo jocoso como é referida no livro “Verdade (??) Tropical”).
Fagner, por seu turno, teve que a partir daí se desdobrar para retomar seu espaço na mídia e no mercado. Ironicamente, a partir de “Noturno” (da novela global Coração Alado, em 1980), ele, cujas ambições não o faziam se contentar em ser mais um “maldito”, se tornou um grande vendedor de discos.
Caetano, mesmo estando empatado na quantidade de temas de abertura para novelas, só veio a ter um êxito comercial notável recentemente, com a pérola brega “Sozinho”, de Peninha.
Diz Rita Lee que ele sempre viveu do sucesso da butique da irmã, Betânia. Por outro lado, sua “fina estampa” lhe garante um cachê bem maior para shows.
O livro “Nada será como antes”, de Ana Maria Bahiana (editora Civilização Brasileira, 1980), traz entrevistas elucidativas, da época, com as duas partes. Na matéria de Caetano, Ana cita que chegou a considerá-lo um “deus”, na época em que ela precisava de deuses.
Também tive meu tempo de achá-los “deuses”, ele e o Fagner, agora não mais.
Só que a grande maioria dos críticos, depois da fragorosa derrota diante do “Bicho”, adotou uma postura de passividade bovina, outorgando comodamente a Caetano a incumbência de traçar, ao seu bel-prazer, a “linha evolutiva da MPB”, como ele mesmo gosta de falar.
Assim, Barão Vermelho, Djavan, Carlinhos Brown, RPM, Lenine, Marina, Chico César, Chico Science, Arnaldo Antunes, a despeito de seus méritos, só passaram a ser “bons” depois do crivo do baiano. Na outra face, ai daquele que, em qualquer época, tenha desagradado o menino de Santo Amaro da Purificação.
De Vandré a Makalé e ao maestro Júlio Medaglia, todos levaram sua alfinetada vudu.
Luiz Gonzaga, outrora referencial da Tropicália, depois que gravou dois vigorosos discos com Fagner, só mereceu citações lacônicas.
Até Gil deve ter tomado seu puxão de orelhas, depois da parceria com Belchior em “Medo de Avião n. 2” (1980). Ruy Castro, te cuida…
O que mais me incomoda nisso tudo é que o Pessoal do Ceará, um grupo tão ou mais criativo que o da Tropicália, e que inclusive levava adiante a proposta tropicalista, foi posto pra escanteio por conta dessa bravata.
Mesmo aqueles cujo som revela cristalinamente sua influência (caso de Lenine e Chico César), parecem ter vergonha de admiti-la em público.
Num especial da MTV, comandado por Gil, sobre a música de todas as regiões do Brasil, pintaram de Carla Perez a Tom Zé, outro que teve o tapete puxado por discordar do clã baiano.
Porém, assim como no site “Expresso 2222”, nenhuma vírgula de referência a Fagner, Ednardo e Belchior (sem falar nos músicos como Robertinho do Recife e Manassés), artistas que tiveram e tem sucesso comercial sem nunca abrirem mão da qualidade e da inventividade.
Faltou-lhes habilidade política para se fixarem como medalhões da MPB?
Pode ser.
Ednardo, que nunca entrou diretamente na briga, mas que acabou recebendo as balas perdidas, dá “bananas pra todo esse auê”, em “Tecer Novo Mundo”, do disco “Libertree” (1984).
Talvez sábio seja ele, ou Luiz Gonzaga, para quem “na dança do cossaco, não fica cossaco fora”.
http://www.sanainside.com/arquivos-do-central-da-musica/colunas/dr-piranha-fagner-x-caetano-a-luta-do-seculo/
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Não faz parte da matéria acima, mas Zeca Zines insere duas músicas de Ednardo sobre o assunto, Tecer Novo Mundo gravado no disco Libertree (1984) EMI-Odeon, e Desconcerta-te gravada no disco Ednardo (1979) CBS :
Tecer Novo Mundo
Ednardo
Emergência real pra geléia geral
Tá nas raias do maracujá
E quem tomar, meu amigo
As delícias dos fruto da flora
Vai ver que a fauna se arranja
Dando até uma canja ao show bizz da tv
Bananas ao vento, já faz tanto tempo
Bananas pra todo esse auê
Desde quando alguém já falou
Pindorama país do futuro
O sistema computa, computa, computa
É mais outro tijolo no muro
Virou jaula da farra da fera
Marginália pro ano 2000
A prova dos nove da alegria
Segura a vida, agarra Luzia
Tudo o que for maravilha
E venha junto ver o nascer do dia
Noves fora um, noves fora dois, noves fora mil
O computador não segura
O meu coração tão Brasil
Desconcerta-te
Ednardo
Já foi mais, agora é menos
Mesmo que ainda queira ser muito
Esse menino caviloso fala à toa dessa alegoria
Alegre ou triste sempre vamos juntos
E você não me conhece?
Mas meu corpo e o meu verbo insiste
E resiste ao chute dos polidos sapatos
Que você disfarça em alpercatas de rabicho
Meus dedos pisados nessa violência
Sangraram nos gumes das pedras
Que você nunca sacou
Sacou, sacou?
E ainda tocam a desarmonia desse acordar
E a minha voz lampeja nas manhas
Desse poluído lar
Luminando raios, luminando raios
Que antes tarde do que que nunca
Acontece coração
Tece e trança tua teia, meu irmão
Mas desconcerta-te
Tudo garante o fácil, a falsa calmaria
Dessa atitude sadia
Longe de tudo vadia
Minha emoção
Vamos até o fim
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
O Tamanho da Estrada de Santana
Ruy Vasconcelos
Naquele tempo e por uma série de razões a canção popular era um veículo opulento. O mercado ainda não estava tão estruturado. E havia um limite, um constrangimento à criação, que, paradoxalmente, a desafiava: a falta de liberdade de expressão. Mas havia também o fato mais ou menos cru de que os consumidores de disco eram quase que exclusivamente de classe-média. E, claro, de uma classe-média que pela primeira vez na história do país se beneficiava de uma educação universitária massificada.
A década de 70, no rescaldo dos inquietos 60, viu surgir pólos de criação onde houve universidade forte fora do eixo Rio-Sampa: na Bahia, em Minas, no Recife e em Brasília. Mas Fortaleza também esteva presente e de forma marcante.
O que se convencionou chamar de Pessoal do Ceará não é uma ficção. Mas um grupo que de forma mais ou menos organizada soube repartir tarefas. Entre intérpretes, compositores, letristas, instrumentistas, produtores, vimos surgir nomes como os de Raimundo Fagner, Belchior, Ednardo, Petrúcio Maia, Fausto Nilo, Brandão, Téti, Rodger Rogério, Ricardo Bezerra, Manassés de Sousa, Cirino, Augusto Pontes, Marta Lopes e tantos outros.
Em particular, salta aos olhos a inata qualidade literária do texto de certas canções. Brandão, Belchior e Fausto Nilo contribuíram bastante neste sentido. As letras de Brandão são como poemas autônomos que por acaso foram musicados, tal sua excelência. Belchior foi, então, um atento ouvinte de Dylan e de outras grandezas do universo pop. E Fausto Nilo, uma mente arejada o suficiente para pensar a palavra em música como uma amplidão de espaço que vaza para fora do som.
A diferença aqui é que todos os três não pensavam apenas em música. Pensavam mais longe, em algo que sendo uno é diverso, e responde pelo nome de arte. Como a vida.
Por seu turno, há um aperreio e um improviso muito grande em certas gravações se contrapostas à assepsia sonora de hoje. Quando se escuta coisas como “Estrada de Santana” dá para perceber o quanto há de bricolagem nessas sessões de estúdio.
Algo que está sendo resgatado, no momento presente, pela pesquisa esquizofrênica e ousada de Dustan Gallas: soar artesanal dentro de um estúdio digital. No caso dessas sessões de estúdio nos 70 eram quase gravações ao vivo. Ou pouco mais que isto. Havia uma comovente simplicidade e falta de atavios, que faz lembrar velhas (e doces) senhas: “da rodoviária para o estúdio”, “arrumar o cabelo e seguir”, “meu corpo, minha embalagem, todo gasto na viagem”.
Sofisticada artesanalidade. Tempos de constrangimento geram uma arte exigente assim. Há algo de muita emergência em canções como "Estrada de Santana". Algo que nos compele a percorrê-la de novo a cada vez que a escutamos. O lirismo misterioso, tenso e brilhante desse texto vale por dias bonitos de chuva: "Quem ouviu passarinho cantar,/ao meio dia, no silêncio de um lugar,/sozinho e sozinho esperou/que a noite trouxesse a esperança do sonho/ e a companhia do luar".
O que seduz nessa canção não é apenas sua vivaz referência à paisagem de um interior qualquer do Ceará. Mas o modo como ela nos instala lá: os passarinhos, o riacho temporário, a mata, o pequeno cemitério rural, etc. E, no entanto, escutando-a com melhores fones-de-ouvido, percebemos que essa vivacidade vem menos por conta da descrição da paisagem e mais pelo fato de ela ser evocada por um exilado: "Mas sou eu que não posso voltar//Não, não, não corro a Estrada Velha de Santana [...]". Essa impotência de estar nos lugares da eleição pesa nas carnes do cearense como uma maldição de proporções devastadoras, bíblica mesmo.
Em "Estrada de Santana" o migrante exilado mal dimensiona, de fato, o pedaço de vida que lhe foi roubada - embora sinta na carne que o foi: "Sem jamais entender o que alguém perdeu./ E perdeu, e ficou assim." Este "assim" ganha uma função adjetiva, como na fala popular. Algo que se aproxima de "desalento", "desesperança". Segue para além de uma simples e casual troca de estado de humor. Implica algo mais fundo: uma mudança na personalidade por razões de saudade de casa.
Ora, nenhum outro povo do Brasil, como o cearense, é mais especialista nisso: saudade de casa. E porque vivemos no mundo. E, claro, nem sempre por escolha. Assim "Estrada de Santana" assoma como mais uma das grandes canções de exílio que povoam o cancioneiro cearense. Um ilustre conjunto que vai de Catulo da Paixão Cearense (que era filho de cearense migrado para o Maranhão) ["ah, que saudades do luar da minha terra!"] e passa pelo ciclo de letras composto por Humberto Teixeira para músicas de Luiz Gonzaga e que incluem clássicos como "Asa Branca".
No início de "Tudo Outra Vez", Belchior nos diz: "Há tempo, muito tempo que eu estou longe de casa". É claro que estas palavras possuíam, à época, uma ressonância e uma urgência política mais vasta, mas não menos radicam nessa tradição do exílio. A mesma cantada por Ednardo ("Eu venho das dunas brancas/ Pr'onde eu queria voltar"). É apenas notório que, por razões óbvias, os duros anos de ditadura tenham acerado ainda mais essa condição de exilados.
Mas também em “O Astro Vagabundo” há inquietações de sobra para traduzir esse período. Qualquer coisa de muito sombrio e belo habita nessa canção. Nela o exílio para uma espécie de apocalipse ao mesmo tempo iminente e cotidiano – ou seja, feito daquelas simultaneidades possíveis só em sonhos – é a clássica imagem dos trovadores para o órgão sexual feminino: o pequeno jardim cercado, o Éden.
Dormir nesse jardim é o lenitivo. Esquecer por um lapso o pesadelo da realidade. O arranjo de cordas (que é de Wagner Tiso), os teclados, a amargura, o dilaceramento da voz de Fagner, exaltando-se na segunda parte, tornam a canção de uma sinceridade irresistível.
A lista é longa e a letra é breve. Se pode falar desse período como daquela “noite posta sobre a mesa” de “Asa Partida” – onde, aliás, há este verso que praticamente resume tudo: “eu não queria a vida desse jeito”. Ou seja, essa saudável inquietação diante de uma realidade extremamente defeituosa.
O Pessoal do Ceará pôs essa noite sobre a mesa com uma impressiva nitidez. Há o magistral (e majestoso) final de “Pavão Mysteriozo” ("Eles são muitos/ Mas não sabem voar"), carregado de utopia como nuvens densas num sertão de muitos meses de estio.
Quer dizer, "eles" - todos que não os migrantes - são muitos, também no sentido de poderosos. Mas não tem a dimensão do vôo, do sonho, alimentados por essa torturante saudade de casa que ensina mais do que qualquer escola, porque constitui em si uma odisséia.
O tema também reincide na delicada geografização de “Pequeno Mapa do Tempo”, de Belchior, com seus requintes de analogia entre a sonoridade das palavras e a concreção dos lugares citados. E em que tudo segue em suave crescendo até se chegar à "estrela do norte/Paixão, morte é certeza", que repõe Fortaleza no seu devido lugar - como uma espécie de Jerusalém. Ou, ainda antes disso, claro, essas velas do Mucuripe saindo para o risco e para uma intemporalidade maior do que a morte.
Quase como último espasmo coletivo, houve o disco-coletânea Massafeira. O disco surgiu como o registro e o subproduto mais notável de um evento mais amplo, envolvendo artes plásticas e performances que ocuparam o Theatro José de Alencar e marcaram época em Fortaleza.
Um empenho pessoal de Ednardo, com co-produção de Augusto Pontes, que sempre foi uma sorte de coringa ou eminência parda da galera. Massafeira, o álbum duplo, marcado pela diversidade, é uma espécie de limiar entre gerações. Hoje, um notável cult. Em “Frio da Serra”, a interpretação de Marta Lopes é preciosa. Vívida. Cheia de frescor: "Lá embaixo, no espaço/ as casas estão com frio". Há algo mais cearense do que o modo como ela pronuncia palavras como “poste” [pósti], com esse "s" tendendo a 'sh'; ou, sobretudo, “dinheiro” [dim-êro], onde o "h" é quase supresso, na bela letra de Brandão? [Coisas assim são de grande vigor cultural, embora passem longe do estereótipo ou do sotaque da telenovela].
Outros destaques vão para a barroca balada “Atalaia” ("paisagem de agreste clarim") interpretada à Fagner por Ferreirinha [Francisco Casaverde]; o bandolim do multinstrumentista Zé Maia em faixas como “Vento Rei”; o espontâneo talento de Wagner (depois Tazo) Costa - à época pouco mais que um menino - em "Isopor" ("Eu vou sair desse jogo malvado,/ Você só quer me ganhar"); e a copla medieval “Aurora”, cantada por Ednardo e Belchior, onde ocorrem versos como “sonhos de aurora eu sonhava/ no colo de minha irmã”, ou ainda: “abre as janelas, manhã”.
Aqui, a manhã entra em vocativo. Conversa-se com ela. E essa prosa parece remeter para uma daquelas casas sertanejas: brancas alpendradas, de pé-direito baixo, perto de um açude. Casas de onde nunca deveríamos ter saído, fosse este mundo mais justo. Ou nossa república menos imperfeita.
A importância de Massafeira, tanto enquanto evento como em seu registro fonográfico, ainda resta por ser dimensionada. A impressão, para quem a testemunhou, era a de uma tempestade pop, que até então só víamos no cinema, desabando ao vivo e em cores, durante quatro dias, em Fortaleza. Para descrever o evento, usou-se no encarte do álbum duplo a expressão "carnaval fora de época". Até entende-se o que se quer dizer com isso. Porém Massafeira foi muito além do que esta expressão tenta traduzir. Afinal, carnaval fora de época - hoje em dia - está mais para algo como a micareta, o Fortal ou alguma estupidez do gênero.
O que seduzia na imensa festividade, no exótico, na diversidade, naquele sobejo de contracultura - o fetiche das guitarras e amps, a tal "velha roupa colorida", os cabelos invariavelmente longos, desgrenhados - era a atmosfera em si.
E isso tudo numa acanhada capital do subúrbio, em plena linha do Equador. Na periferia da periferia do mundo. Aquelas guitarras rascantes ecoando pelas galerias e entornos de seu pequeno e charmoso teatro. Era algo de uma notável sugerência de novidade e vida. E, melhor, de novidade na diversidade. E num tempo em que, por mordaças várias, estávamos apenas começando a saborear a delícia de expressar-nos sem censuras. Inclusive as das patrulhas ideológicas de esquerda.
Para um povo, como o cearense, tão pouco afeito a manifestações assim - mais gregárias, em que o herói são todos e nenhum - o evento resta quase como um marco, nota dissonante. Mas de uma dissonância alegre, espontânea e promissora. O que Massafeira legou foi uma enorme fé na capacidade de elocução coletiva a partir de uma Fortaleza, convenhamos, bem mais provinciana que hoje. Não por acaso, chegou a despertar ciúmes em outros estados. Daí que não poucas matérias ao se referirem ao evento, ou a seu registro em disco, insinuarem que a gravadora CBS - a hoje Sony Music, uma das mais poderosas multinacionais da indústria fonográfica - ser acrônimo de Cearense Bem Sucedido, em referência ao poder de barganha do grupo (em especial de Fagner) junto à direção da empresa.
Em tempo, há dois discos que decretam o ponto final desse impulso: o próprio Massafeira, no plano coletivo; e o álbum Beleza (1979), de Fagner, na esfera mais individual. O álbum é de uma formosura dilacerante. Poucas composições. Arranjos opulentos, sob a supervisão de João Donato. Um time de músicos estelar.
Não há uma única faixa onde não reincida o título do disco. Inclusive a própria faixa título, com letra de Brandão que é verdadeiro achado ("e quando se vê o arame/ que amarra toda gente/ pendendo das estacas/ sob um sol indiferente"). A plangência da voz de Fagner chega a seu paroxismo. Guarda mesmo algo de indizível, limítrofe. Em todas as trilhas, tudo é asa partida, dor. Por exemplo, em uma canção (por sinal subestimada) como "Quer Dizer".
Pode-se sentir a cinco quadras de distância a potência elegíaca desse conjunto de canções tristes. A suíte de um trabalho de luto. Luto individual, mas que também se pode entender como canto de cisne ou estender como mortalha dessa fase heróica do Pessoal do Ceará.
Não é nehum segredo de estado, aliás, que os três nomes mais rutilantes do grupo não são propriamente os melhore amigos na face da terra. Mas é ao menos um consolo relembrar que, em tempos idos, eles já se envolveram em colaborações mais estreitas.
Desde então, Belchior tem trabalhado anos a fio na estrada, em turnês - sobretudo pelo interior de São Paulo e pelo Sul. Ednardo exerceu trabalhos diversos a partir do Rio, sua base. E Fagner, após um começo fulgurante - a exemplo dos dois outros - em que teve discos tão experimentais como Orós, com colaboração de Hermeto Pascoal - cortejou o mercado de forma mais agressiva e popularesca.
Mas o tempo passou. Será que hoje ainda seria possível produzir, por acaso, um disco conceitual com a contundente amargura de Beleza? Ou um exeperimental com as mirabolâncias de Orós?
Difícil responder. Os tempos são outros. A própria noção de disco é já tão outra.
A importância das grandes gravadoras foi alvejada em cheio pelas novas mídias digitais. O que era um sonho distante, remoto, só possível no Rio ou em São Paulo lá pelos já distantes anos 70, é algo que está ao alcance de qualquer cantor de banheiro: gravar um disco.
Levas de cd's produzidos e gravados em Fortaleza são despejados no mercado mês após mês. Mas qual de fato à importância da primeira geração que, de modo coletivo, dotou o Ceará de uma voz e de um sotaque bastante distintos?
O tamanho dessa Estrada de Santana é uma boa medida para se sair atrás de uma resposta. Daquelas capazes de preencher a moral de uma história. O momento foi ímpar. E eles eram jovens.
Não houve solução de continuidade. Ou sequer uma geração subseqüente que soubesse abiscoitar essas finezas. Dialogar com elas. Como quase tudo neste país, esse momento não se desdobrou para fora de si. Cristalizou-se.
E claro, a vida não estava ganha. E era preciso ganhá-la. Nesse processo, se foi um pessoal. Alguns devotaram-se a um sucesso um tanto tacanho. Outros desapareceram dentro daquela noite.
E a mesa em que ela estava posta, por um mau agouro, talvez se tenha convertido apenas num balcão para negócios sortidos e bem menos espontaneidade e arte.
Quantos de fato souberam do tamanho dessa estrada?
Nota - artigo originalmente publicado no jornal O Povo, em 2003, em versão abreviada. Dica: é possível baixar na íntegra o álbum duplo Massafeira (1980) pela internet.
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Blog de Ruy Vasconcelos - AFETIVAGEM
http://afetivagem.blogspot.com/2008/12/o-pessoal-do-cear-um-encmio.html
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Ruy Vasconcelos é Jornalista, Escritor e Tradutor.
sábado, 8 de novembro de 2008
Cavalo Ferro - Ednardo, Teti, Rodger Rogério
Ednardo, Teti, Rodger Rogério, cantando Cavalo Ferro de Fagner e Ricardo Bezerra.
Disco: Meu Corpo Minha Embalagem, Todo Gasto na Viagem - Pessoal do Ceará - 1973
CAVALO FERRO
Fagner / Ricardo Bezerra
Montado num cavalo ferro
Vivi campos verdes, me enterro
Em terras trópico-americanas
Trópico-americanas, trópico-americanas
E no meio de tudo, num lugar ainda mudo
Concreto ferro, surdo e cego
Por dentro desse velho, desse velho
Desse velho mundo
Pulsando num segundo letal
No planalto central
Onde se divide, se divide, se divide
O bem e o mal
Vou achar o meu caminho de volta
Pode ser certo, pode ser direto
Caminho certo sem perigo, sem perigo
Sem perigo, sem perigo fatal
domingo, 26 de outubro de 2008
DVD Manassés
DVD MANASSÉS - AO VIVO2005 - Gravado em 2004, durante a Feira de Música de Fortaleza no Centro de Convenções.
Contêm o Show; Entrevista; Depoimentos e Vídeo Clip.
Produção Independente - Manassés / ProDisc
Manassés começou a tocar seu instrumento ainda criança, em praça públicas e em circos. Na adolescência forma duas bandas - Os Barras Limpas e depois, Os Dissonantes, em Maranguape / CE, sua cidade de origem.
Em 72 compõe a Banda do Pessoal do Ceará junto ao Ednardo, Teti e Rodger Rogério, depois viaja para França onde reside e trabalha vários anos, percorrendo vários países. Em 78, ao voltar para o Brasil, compõe a Banda de Fagner e também forma a Banda Santarém juntamente com Petrúcio Maia, Ife e Candinho, com os quais realiza disco e vários shows.
Zeca Zines viu o DVD e recomenda com entusiamo.
Manassés é um músico e compositor brilhante, respeitado internacionalmente, dono de rara sensibilidade em suas criações que muito contribuem para a música brasileira.
A seguir uma entrevista e um vídeo clip de Manassés.
Manassés - Nananasalturas
Outros dois discos do Manassés.
Manassés - Pra Você - 1986
Manassés - Manassés - 1979
http://poeiraecantos.blogspot.com/search/label/Manass%C3%A9s
Disco da Banda Santarén - formada por Manassés, Petrúcio Maia, Ife, Candinho
Banda Santarén - 1980
http://poeiraecantos.blogspot.com/search/label/Banda%20Santar%C3%A9n%20%5BCE%5D
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
VII FIC - Festival Internacional da Canção - 1972

Um dos Festivais mais importantes na década de 70 - VII FIC - Festival Internacional da Canção - 1972, - Rio de Janeiro - Maracãnanzinho, revela grandes artistas e é considerado como o último grande festival da Era dos Festivais.
Neste festival foram revelados nomes como: Ednardo, Fagner, Belchior, Alceu Valença, Raul Seixas, Sérgio Sampaio, Hermeto Pascoal, Raul Seixas, Renato Teixeira, Sirlan, Paulo César Pinheiro, Rildo Hora, Ruy Mauriti, entre muitos outros compositores e intérpretes, que juntos aos mais conhecidos como: Jackson do Pandeiro, Marlene, Os Mutantes (Rita Lee / Arnaldo / Sérgio / Liminha). Fizeram a festa.
E em análise mais detalhada, Jorge Ben antes de ser "descoberto" pelos tropicalístas, teve neste festival seu ápice.
O VII FIC aconteceu em momento muito conturbado da política pela ditadura militar e consta na história que durante este período do governo Médici (1969 - 1974), foi quando as maiores repressões (não só às artes) aconteceram, os historiadores constatam que foi o mais repressivo e violento, os jornais, revistas, rádio e televisão sofreram violenta censura, impedindo que a população fosse informada do que estava acontecendo.
Consta que este VII FIC foi bastante marcada pela intervenção da censura federal durante a ditadura, com vários episódios que foram desde a destituição sumária de todo o Juri Nacional, incluindo espancamento de um de seus membros que queria ler uma nota de explicação e repúdio à arbitrariedade.
Lí no site Jornalismo Cultural sobre o VII FIC http://www.jornalismocultural.com.br/musica/globo1972.htm
Em artigo escrito por Mirella Falcão, que entre outras coisas explicita: este VII FIC foi pela primeira vez, um festival transmitido em cores para o Brasil e Exterior.
Para selecionar as 30 músicas, entre as 1.912 inscritas, compunham a comissão: César Camargo Mariano, Julio Medaglia, Roberto Freire, Décio Pignatari e Sérgio Cabral. Esses três últimos viriam participar também do júri, juntamente com Mário Luís Barbato, Rogério Duprat, Alberto de Carvalho, João Carlos Martins, Guilherme Araújo, Big Boy e Walter Silva. Nara Leão presidiu o júri que classificou 14 músicas para a final.
Esse júri, contudo, foi afastado da final nacional por ordem dos militares, que não gostaram de entrevista dada por Nara Leão, fazendo duras críticas ao governo. Um novo júri de gringos selecionou duas músicas para a competição internacional, gerando uma série de protestos e pancadaria.
Na final nacional, Roberto Freire, ao tentar ler um manifesto representando o júri expurgado, foi arrastado do palco e brutalmente espancado. No manifesto, depois lido pelo apresentador Murilo Néri, defendia-se a escolha de "Cabeça", de Walter Franco, e "Nó na Cana", de Ari do Cavaco e César Augusto.
Entretanto, as canções ganhadoras foram "Fio Maravilha", composição de Jorge Ben defendida por Maria Alcina, e "Diálogo", samba de Baden Powel e Paulo César Pinheiro, interpretado por Cláudia Regina e Baden. Nenhuma das composições brasileiras saiu vitoriosa na fase internacional.
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Ficha Técnica - VII Festival Internacional da Canção - 1972
Realização: Rede Globo de Televisão
Diretor Geral: José Otávio Neves Diretor Artístico: Solano Ribeiro Local: Maracanãzinho (Rio de Janeiro)
Juri Nacional: Alberto de Carvalho, Big Boy, Décio Pignatari, Guilherme Araújo, J.Carlos Martins, Lea Maria, Mário Luiz, Nara Leão (presidente), Roberto Freire, Rogério Duprat, Sérgio Cabral, Walter Silva
1ª Eliminatória: 16/09/1972
Nem becos nem saidas (Abílio Manoel) - Abílio Manoel
Diferenças (Rildo Hora / Manoel Nunes)
Depois do portão (J.Abridon / L.Mendes Jr)
22º andar (Edson Conceição / A.Silva)
Serearei (Hermeto Paschoal) - Alaide Costa
4 graus (Fagner / Dedé ) - Fagner
Nó na cana (Ari do Cavaco e Cesar Augusto) - Nina e Elson
Eu sou eu , Nicuri e o Diabo (Raul Seixas) - Banda - Os Lobos
Diálogo (Baden Powell / P.C.Pinheiro) - Tobias, Cláudia,Regina e B.Powell
Eu quero é botar meu bloco na rua (Sérgio Sampaio) - Sérgio Sampaio
Papagaio do Futuro (Alceu Valença) - Alceu Valença
Cabeça (Walter Franco) - Walter Franco
Fio Maravilha (Jorge Ben) - Maria Alcina
Nos cafundós do Zé (Ruy Maurity / J. Jorge) - Ruy Maurity
Corpo a corpo (Tulio Mourão / Nelson Motta)
2ª Eliminatória: 17/09/1972
Pente (Luiz Carlos Porto / Antonio Fernando) - Banda O Peso
Bip Bip (Ednardo / Belchior) - Ednardo, Belchior e Claudio Ornellas
Reza ao padre Cícero (Luis Wanderlei) - Luís Wanderlei
Loucura pouca é bobagem (J.Rocha / Maurício Are)
Let me sing (Edith Wisner/Raul Seixas) - Raul Seixas
Flor Lilás (Luli) - Luli e Lucina
Olerê Camará (L.Reis / J.Lourenço) - Ana Maria
Marinheiro (Renato Teixeira) - Renato Teixeira
Frevança (Tom / Dito ) - Tom e Dito
Liberdade Liberdade (Oscar Toralles) - Banda - A Bolha
A volta do ponteiro (R.Lourenço) - Banda - Os Originais do Samba
Viva Zapatria (Sirlan / Murilo ) - Sirlan
Mande um abraço pra velha (Mutantes) - Banda - Mutantes
Automóveis (Osvaldo Montenegro) - Os 3 Moraes
Carangola (Fauzi Arap / Fototi) - Marlene
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Embora a TV Globo tenha gravado ao vivo e a cores pela primeira vez um festival internacional para o Brasil e Exterior, os registros de vídeos e gravações de áudio deste VII FIC, "desapareceram" de forma inexplicável. Do todo que foi registrado, restam apenas dois discos LPs, que também sumiram logo após lançados, e mesmo assim nas mãos de poucos colecionadores.
Importante registrar que o único vídeo que existe informando deste festival e disponibilizado em sites públicos como o You Tube é um pequeno trecho de Maria Alcina cantando "Fio Maravilha" de autoria de Jorge Ben, e curiosamente o autor foi processado pelo jogador de futebol acusando de usar seu nome, ora, ora!... Fio Maravilha só se tornou conhecido por causa da música de Jorge Ben. (Na realidade era um jogador medíocre) - Maria Alcina chegou no VII FIC vestida com o uniforme do Flamengo, camisa, calção e chuteiras com uma torcida organizada pelo clube de futebol e os gringos que de última hora foram postos pra julgar as músicas disseram - Yes - Brazil - Carnaval - Samba - Futebol.
Particularmente, e também pelo senso geral, acho que o material de suportes vídeofonográficos (som e imagens) com um time com estes nomes não é de se jogar fora. Que existe, existe, não temos dúvidas, a pergunta será - Porque não publicam? E se não quiserem publicar - Porque não disponibilizam, para todos?
Recentemente conversando com Ednardo compositor da música BIP BIP, expliquei que estava fazendo uma pesquisa e ele foi super gentil em falar sobre vários fatos deste festival.
Confirmou a destituição do juri e a repressão generalizada, a agressão a um dos membros - Roberto Freire - e a repressão aos artistas participantes, relatando que policiais entraram no camarim improvisado no vestiário do Maracanãnzinho e sem nenhuma razão que justificasse, agrediram verbalmente com palavras: "cabeludos, viados, drogados, e subversívos"...
E ainda organizaram um "corredor de vaias" para artistas que saiam do camarim para se apresentar, para desespero de Solano Ribeiro (organizador da fase nacional), que já estava enfrentando o "pepino" da destituição do Juri e a agressão a um deles.
E Solano teria dito, "...Senhores, deixemos aplausos e vaias para o público" - e um deles retrucado -"nós somos público também"... - E Solano: então a platéia é o melhor lugar para vocês se manifestarem, aqui estamos nos bastidores do palco"...Mas nenhum deles saiu de lá.
Parece que este festival foi barra pesada mesmo, pra música e cultura brasileira, pros artistas e produtores.
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Os Discos Publicados
Relação das músicas do Disco: VII FIC - Finalistas Nacionais
SOM LIVRE - SSIG -1017 (Ano 1972)
LADO A
1. VIVA ZAPATRIA (Sirlan - Murilo Antunes de Oliveira) - Sirlan
2. LET ME SING, LET ME SING (Edith Nadine Seixas - Raul Seixas) – Os Lobos
3. DIÁLOGO (Baden Powell - Paulo Cesar Pinheiro) RENATA E FLÁVIO
4. CARANGOLA (Fauzi Arap - Fototi) MARLENE
5. A VOLTA DO PONTEIO (Roberto Lourenço da Silva - Roberto Ferreira dos Santos) OS ORIGINAIS DO SAMBA
6. SEREAREI (Hermeto Pascoal) ALAÍDE COSTA
LADO B
1. FIO MARAVILHA (Jorge Ben) MARIA ALCINA
2. NÓ NA CANA (Ari do Cavaco - Cezar Augusto) ELSON E MIRNA
3. EU SOU EU, NICURI É O DIABO (Raul Seixas) OS LOBOS
4. EU QUERO É BOTAR MEU BLOCO NA RUA (Sergio Sampaio) EUSTÁQUIO SENA
5. MANDE UM ABRAÇO PRA VELHA (Os Mutantes) CORAL SOM LIVRE
6. CABEÇA (Walter Franco) EUSTÁQUIO SENA
Consta que retirarem do Disco 2 músicas finalistas:BIP BIP de Ednardo e Belchior, interpretada por Ednardo e Belchior e Cláudio Ornellas; 4 GRAUS de Fagner e Dedé Evangelista – interpretada por Fagner;
Note também que mudaram vários intérpretes originais
Foi lançado também outro disco do VII FIC
Os Grandes Sucessos do FIC 72
Phonogram/Fontana 6470 500
(Ano 1972)
Lado A:
1. Eu quero é botar meu bloco na rua (Sérgio Sampaio) – Sérgio Sampaio
2. A volta do ponteiro (Roberto Lourenço da Silva - Roberto Ferreira dos Santos) - Beto Scala
3. Fio Maravilha (Jorge Ben) - Jorge Ben
4. Diálogo (Quebranto) (Baden Powell - Paulo César Pinheiro) Cláudia Regina e Tobias
5. Nó na cana (Ary do Cavaco - César Augusto) - Juracy
6. Marinheiro (Renato Teixeira) - Renato Teixeira
7. Eu sou eu, Nicuri é o Diabo (Raul Seixas) - Lena Rios
Lado B:
1. Viva Zapátria (Sirlan Jesus - Murilo Antunes de Oliveira) - MPB-4
2. Let me sing, let me sing (Edith Nadine - Wisner Seixas - Raul Santos Seixas) - Raul Seixas
3. Corpo a corpo (Túlio Mourão - Nélson Motta) - Fábio
4. Mande um abraço pra velha (Arnaldo Baptista - Sérgio Baptista - Rita Lee - Arnolpho Lima Filho) - Mutantes
5. Quatro graus (Fagner José Evangelista) - Fagner
6. Pente (Luís Carlos Porto - Fernando Vale) - O Peso
O detalhe curioso é que esse LP traz não as versões apresentadas no festival, mas (o que parece ser) o registro que os autores mandaram para o comitê que selecionou as músicas para as eliminatórias. E na contracapa, traz uma lista com as 30 canções selecionadas para o festival
terça-feira, 9 de setembro de 2008
Bob Dylan e o Pessoal do Ceará
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BOB DYLAN E O PESSOAL DO CEARÁ
É interessante - e talvez sintomático - que a influência de Dylan, presente nos Beatles e nos Rolling Stones, não se perceba no núcleo da MPB (eixo Rio-SP-Bahia) nem no rock tupiniquim, mas mostre seus filhos em outros rincões como Ceará, Paraíba e Minas.
MPB x Música Popular
O primeiro problema advém do próprio batismo da MPB.A sigla, criada para os festivais dos anos 60, deixa bem claro: é feita para e por aqueles que naquela década tinham um televisor. Assim, não é de estranhar que entre seus precursores estejam os alunos dos tradicionais colégios pagos de São Paulo e Rio. Os outros eram artistas populares, mas taxados por qualificativos menos edificantes.
Questão de família
Dylan abriu mão de seu sobrenome para incorporar ao apelido uma homenagem a seu poeta preferido, Dylan Thomas. Contrariando as raízes, aderiu ao cristianismo. Por aqui, a carteirada artística é recurso difundido. O artista diz logo de qual família é: Buarque, Leão, Morais. E a religião é tema que preferem contemporizar: há um séquito de "ateus, graças a Deus".
A situação do rock nacional - aclimatação um tanto paradoxal - não é muito diferente da encontrada na MPB.
O caminhoneiro e os fidalgos
Dylan é neto de imigrantes russos. Elvis era motorista de caminhão. Por aqui, o rock nasce longe das "camadas populares". Comprar uma guitarra elétrica é/era privilégio para poucos.
Os roqueiros brasileiros passaram longe da influência popular.
Se Dylan ouvia os cantores tradicionais do country, os daqui não chegaram perto da viola.
Além disso, como toda atividade produtiva no Brasil, os lugares do Rock brasileiro foram logo apossados pela classe média. Ou por seus herdeiros. Encontram-se entre os expoentes do rock nacional o filho do diplomata, o rebento do executivo, a cria do militar, o neto do visconde.
Assim, desvinculada das manifestações populares, a música jovem brasileira padece de um vício de origem.
O protesto e a lenga-lenga
Esse também é o caminho que afasta outro legado de Dylan: as músicas de protesto.
O cantor-protestante é, antes de tudo, um romântico: identifica-se com uma causa e destila atitude.
Os protestos dos roqueiros brasileiros não são de grande alento, pois inverossímeis; faltam-lhes sinceridade.
Jovens ricos de Brasília indagarem "Que país é esse" não parece fazer muito sentido. Na MPB estabilizada (Buarque-Gil-Veloso), as pretensões intelectuais de seus compositores impede a empatia com o ouvinte e dificulta a repetição de refrões. Nada mais natural, portanto, do que o monopólio de Vandré nos piquetes: dois acordes, um violão e um estribilho palatável.
O Rei e Raul
Ressalva deve ser feita a duas figuras que incorporaram a carcaça roqueira.
Raul Seixas usava jaquetas de couro no calor de Salvador. Pretendia, assim, ficar mais perto de Elvis. Sua música passou pelo deboche, pela crítica e pela profecia.
Seu disco "Abre-te Sésamo" flerta com a música caipira, orientalismo e religiões africanas. Morrendo melancolicamente abandonado a si mesmo, Raul nunca se arrogou a condição de intelectual."Status" rejeitado também por Roberto Carlos que, inteligentemente, soube estar sempre antenado à tendência: surgiu como discípulo de Buddy Holly, passou ao protesto setentista com "O Astronauta", flertou com a música negra americana, deu recados ecológicos na década de 80. Sua incursão na música religiosa, coerente dentro de sua trajetória, às vezes esconde a sagacidade de suas escolhas.
Por fim, os herdeiros.
Se é evidente a influência de Dylan no trabalho do mineiro Zé Geraldo, tendo este realizado a mescla do rock com a música caipira, e, ainda, que Zé Ramalho, lá na Paraíba, tenha incorporado muito da sonoridade do americano em sua música, a presença mais marcante de Dylan aparece no Pessoal do Ceará.
Ednardo, Fagner e, principalmente, Belchior partilham uma característica essencial de Dylan: a voz que não parece própria a um cantor, mas imprime tamanha personalidade à canção que impede outras interpretações. O bloqueio do cantor-autor é quebrado entre eles (como Ednardo cantando "A palo seco") ou por um intérprete excepcional, como Elis.
Além disso, é na obra dos três que aparece o grande desfile de perdedores e desaprumados, amadores (e) abandonados.
Mas o Pessoal do Ceará é um grupo de pessoas separadas e, trabalhando cada um em seu canto, surpreende o quanto são parecidos e ligados os seus cantares.
Provavelmente, Belchior tenha a mais completa relação de frustrações e aflições (Fotografia 3x4, Na hora do Almoço, Apenas um rapaz latino-americano); Ednardo, a mais criativa voz narrativa (Enquanto engoma a calça, Carneiro); Fagner, além do dialógo poético, é o que também canta o desconforto dos outros (Sinal Fechado, Guerreiro Menino).
Será que Joan Baez conhece Fortaleza?
MARCIO CENZI
domingo, 7 de setembro de 2008
Livro - Terral do Sonhos - Mary Pimentel

TERRAL DOS SONHOS - O Cearense na Música Popular Brasileira
Mary Pimentel Aires - Fortaleza : Banco do Nordeste do Brasil / Gráfica e Editora Arte Brasil, 2006
204p. (Coleção Teses Cearenses) C.D.U. 323.17.78(81)
Nos anos 60, em pleno período autoritário, eclodiu em Fortaleza um movimento musical que repercutiu no Brasil afora. Em torno da Faculdade de Arquitetura e de bares como o Balão Vermelho e o Anísio, na Beira Mar, gravitavam estudantes universitários que utilizavam referenciais estéticos como expressão de uma insatisfação diante da censura, do fechamento que o país vivia e da repressão que se acentuou a partir de 1968.
Este movimento, de certo modo, era tributário de uma tradição musical que vinha do século XIX, com as modinhas de Nepomuceno e se reforçava no início do século com a verve de Ramos Cotoco, Branca Rangel e Juvenal Galeno.
Mais recentemente, com a boemia de Lauro Maia e Aleardo Freitas e a inquietude de Luis Assunção mantiveram uma tradição que os novos superaram sem negar a contribuição dos que vieram antes.
Nos festivais, tão em voga nesta década de transformações e contestação, se forjaram valores que partiram para tentar o mercado nacional.
São estas questões que Mary Pimentel trata: a essência do que seria “cearense”, sem cair na facilidade dos estereótipos, as relações com a industria, as propostas de uma nova estética. O resultado é um painel vivo e instigante, num texto rigoroso, mas de leitura prazerosa que vem preencher uma lacuna na bibliografia cearense e chamar a a tenção para a importância no contexto social.
Apresentação do Livro – TERRAL DOS SONHOS – De Mary Pimentel
Professor Gilmar de Carvalho
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Trechos Condensados do Prefácio da 3ª Edição
Pesquisador, Jornalista e Radialista da Rádio Universitária UFC - NELSON AUGUSTO
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Terral dos Sonhos – O Cearense na Música Popular Brasileira, mapeia como objeto de estudo a música popular composta no Ceará de 1964 a 1979. Nesse período aconteceu a formação, propagação e consagração do movimento que ficou conhecido na MPB como PESSOAL DO CEARÁ, o qual agrega a geração de artistas cearenses (músicos, cantores e letristas) que, a partir da década de 70, começa a ingressar no cenário musical brasileiro.
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Dessa geração de compositores que foram tentar a sorte na cidade grande, os que obtiveram maior destaque nacional foram Belchior, Fagner e Ednardo. A origem do nome do grupo se deve ao LP Ednardo e o Pessoal do Ceará, que tem como subtítulo “Meu Corpo, Minha Embalagem, Todo Gasto na Viagem”, lançado em 1972 , pelos cantores/compositores Ednardo e Rodger Rogério e pela cantora Teti. Esse disco que teve produção de Walter Silva pode ser considerado um marco na incursão desses novos compositores no mercado fonográfico.
... ...
A publicação Terral dos Sonhos é uma minuciosa pesquisa feita em acervos de jornais, revistas e livros do gênero, além de entrevistas com artistas, colecionadores e pessoas envolvidas com a cultura alencarina. Para produzir sua dissertação, Mary Pimentel também se valeu da sua condição de colaboradora do movimento musical cearense, contudo com isenção científica de socióloga. A autora integrou inicialmente o grupo de canto coral - O Canto do Aboio - e fez parte do grupo Garotas 70, chegando a participar de shows e festivais.
Mary Pimentel Aires, ao situar os personagens do tempo de Terral dos Sonhos, também foi buscar os antecessores da canção alencarina, os quais, desde 1908 inscreveram seus nomes na história da Música Popular Brasileira.
Entre eles, Ramos Cotoco, Hilda Marçal Matos, Lauro Maia, Humberto Teixeira, 4 Ases & 1 Curinga, Luis Assunção, Evaldo Gouveia e o Trio Nagô. Todos incluídos na nossa hereditariedade musical trazida do século XIX pelos precursores Alberto Nepomuceno, Branca Rangel e Juvenal Galeno e também revelada em seguida por talentos do quilate de Aleardo Freitas, Gilberto Milfont, Catulo de Paula, Carlos Barroso, Paulo Neves, Pierre Luz, Mário Alves, Moacir Ribeiro de Carvalho, Waldemar da Ressureição, Caetano Accioly, Vocalistas Tropicais, Euclides Silva Novo, Mozart Brandão, Guilherme Neto, José Auriz Barreira, Zé Menezes, Jacques Klein e Eleazar de Carvalho.
Com este livro, Mary Pimentel Aires tornou-se a precursora do estudo científico contemporâneo dos artistas da canção alencarina.
Livro - No Tom da Canção Cearense - Wagner Castro

MÚSICA E POLÍTICA EM WAGNER CASTRO
Apresentação do Livro – NO TOM DA CANÇÃO CEARENSE - Do Rádio e Tv, dos Lares e Bares na Era dos Festivais (1963 – 1979) - Wagner Castro - Fortaleza: Edições UFC, 2008
292p.:il.
ISBN: 978-85-7282-292-3
Professor Gilmar de Carvalho
Somos um povo que canta, mesmo quando não tem motivos para cantar. A música deve vir da palma dos coqueiros, onde cantava a jandaia do poema indianista. Do batuque das senzalas e das procissões das irmandades religiosas. Também do canto do trabalho das fiandeiras, dos colhedores de algodão, de coco e das barcarolas dos que vivem do mar.
Tudo pode vir a ser música: vento, ruídos urbanos, assobio de um fragmento de canção que ficou e o acorde plangente de um violão seresteiro.
Wagner Castro, historiador e músico, une rigor e criatividade numa pesquisa que precisava ser feita. Agora, temos o resultado do seu mestrado em livro. Foi orientado por um “peso-pesado” da cultura no Ceará: Dilmar Miranda.
Wagner sabe o que diz e o que faz. Só poderia mesmo dar em um livro que se lê com prazer, com uma certa nostalgia (pelo menos pelos que viveram esses momentos) e com a certeza de que a vida continua, a cultura tem sua dinâmica e não se pode retroceder (a não ser na ficção) ou fazer com que a História se repita, mesmo que em tom de farsa, como dizem que Marx disse.
O texto de Wagner segue o cânon da academia, mas flui, vigoroso e inquieto, como o tempo que ele estudou. Tempo de passeatas, de vida regurgitando nas ruas, de gente que pretendia transformar o mundo.
As utopias estavam vivas e eram levadas a sério. A Revolução era um apanágio de muitos, de quase todos. Claro que estamos falando da metáfora de “um dia”, estudado por Walnice Galvão, e não do golpe de 1964, que frustrou os sonhos igualitários de uma geração.
O texto de Wagner, impregnado por essa música, difusa ou contundente, ecoa as vozes do chamado “Pessoal do Ceará” e dialoga com grupos de teatro, manifestos literários, exercícios de “super-8” e experimentações no campo das artes plásticas que ganhavam espaço nos suplementos culturais.
É uma Fortaleza que não existe (terá existido um dia?) a não ser na memória, nos poucos vinis, nos mimeógrafos de uma geração de jovens poetas e nas palmas abafadas de um público que não disse a que veio.
Os festivais uniam política e Indústria Cultural. Vivíamos a mesma angústia levantada por José Ramos Tinhorão (em “A Província e o Naturalismo”) de sermos produtores sem fruidores. A música de qualidade se perdia no ar.
O bar do Anísio, o Balão Vermelho, as cantinas das faculdades, a quadra do CEU e o Teatro Universitário se tornaram pequenos demais para a necessidade de amplificação dos protestos e do que fazíamos naqueles tempos. Os festivais vieram como instância de difusão do que era feito aqui. “Aqui no Canto”, dizia o da Rádio Assunção.
Nossa relação com o disco vinha desde os tempos da Casa Edison, a partir dos primeiros anos do século XX, quando Mário Pinheiro (filho de cearense) gravou Raimundo (Cotoco) Ramos.
O aspecto, aparentemente competitivo, escondia que estávamos todos do mesmo lado: o da liberdade de expressão e da denúncia da violação dos direitos individuais. Instaurava-se uma longa noite de vinte e um anos. E agora?
Nós que queríamos mudar o mundo, agora precisávamos salvar nossa pele. Não poderíamos recuar, sob pena de nos sentirmos covardes. Mas, aonde nos levariam a tortura e a clandestinidade?
Cantar como exercício de liberdade? Por que não?
Houve em 68 na Europa e nos Estados Unidos, mas o nosso ecoou mais forte porque marcado pelo ímpeto de fazer calar uma geração. Viva Cláudio Pereira!
Estávamos nas ruas e, ainda hoje, o auditório da Reitoria da UFC homenageia um ditador que muitos chamavam de “presidente”.
Mas o livro de Wagner precisa ser lido ao som de Rodger, Ednardo, Petrúcio, Belchior, Tetty, Augusto Pontes, Fausto Nilo, Fagner, dentre outros.
Precisamos evocar Aderbal Júnior (depois Freire Filho), José Humberto, Olga Paiva, Nonato Freire, “Gritas” e “Grutas”.
Das cores e formas do pessoal da Casa de Raimundo Cela. Do SIN ao Saco, chegando ao Siriará.
Precisamos filtrar isso tudo e termos a consciência de que vaiamos e aplaudimos, jogamos pedras, muitos foram presos, outros foram mortos, mas a vida continuou e nos trouxe até esse ponto de podermos ver tudo isso, no plano da memória e no livro de Wagner Castro como uma das possíveis leituras feitas desse período tenso, rico, difícil de ser vivido. Esse doloroso rito de passagem de uma juventude para a idade adulta deixou seqüelas que estão vivas até hoje.
Mas o canto se eleva mais alto: “faz escuro, mas eu canto”. Tanta coisa passou, continua o ânimo de deixar marcas, aqui perdidas no éter ou arranhadas no vinil, cuja agulha rombuda insiste em fazer tocar. Já não somos mais jovens, mas estamos vivos. Talvez tenhamos deixado de ser atores para nos tornarmos personagens dessa crônica inquieta. Wagner sabe disso, vai nos cercando, dando conta da cena e fazendo emergir o grito primal por liberdade, ainda que tardia, de uma geração.
O palco improvisado aumenta a importância da performance. A corda do violão se rompe sob a tensão. A voz desafina. Mas os aplausos são fortes, para todos os que viveram esse momento de crise e para Wagner Castro que teve a sensibilidade de levar tudo isso para sua pesquisa que agora acaba em livro.
GILMAR DE CARVALHO
sábado, 6 de setembro de 2008
Livro - sobre o Pessoal do Ceará - Pedro Rogério
PARA PENSAR O PESSOALMuitos são os caminhos possíveis para se contar uma história. O registro equilibrado e reflexivo da pesquisa acadêmica, as cores intensas da tessitura presente nos registros da imprensa diária, o reconstituir de fatos, datas e minúcias legadas por arquivos, produtos e documentos, a lembrança naveana daquilo que se viveu, como protagonista ou testemunha; ou ainda o diálogo entre fontes capazes e desejosas de compartilhar memórias que, mais do que um caráter individual, digam de uma coletividade, de um aspecto social, da atmosfera de uma cidade. De cara de seus personagens, do gosto dos seus dias, dos passos de sua trajetória. Caminhar a vida, recontar a história. Cada novo dia, ontem e agora.
É na dinâmica da combinação de todas essas abordagens – formas de contar uma mesma história, viva em suas várias versões, presentes na intensidade com que o campo de forças nela envolvidas segue fazendo o debate se estender de ontem ao hoje – que o professor, pesquisador, musicista e radialista Pedro Rogério revisita a história do grupo de músicos, compositores, intérpretes e produtores culturais responsável pelo que viria a ser conhecido como Pessoal do Ceará.
Não só por ter convivido com o Pessoal do Ceará de forma privilegiada – como filho de um dos mais líricos e inovadores compositores e da mais simbólica voz feminina daquela geração - , mas também por esse motivo, Pedro Rogério assumiu a tarefa de fazer sua parte no recontar dessa história.
Uma epopéia, por assim dizer, cujo interesse vem aumentando nos últimos tempos, inclusive por parte da academia, mas cujas dimensões e importância ainda fazem por merecer mais relatos à altura.Na bagagem de Pedro, cabem, ladeados, Rodger Rogério, Teti, Raimundo Fagner, Antonio Carlos Belchior, Ednardo, Wilson Cirino, Petrúcio Maia, Fausto Nilo, Piti, Francis Vale, Dedé Evangelista, Ricardo Bezerra, Augusto Pontes, Tânia Cabral, Cláudio Pereira e... Pierre Bourdieu.
Isso mesmo. O sociólogo francês é convocado a emprestar suas lentes a um olhar sobre o Pessoal que, nos anos 70, reinseriu o Ceará no mapa da música brasileira, um feito ainda não igualado, em termos de visibilidade, pelas novas levas de talentosos artistas que beberam na fonte daquela turma e a ela sucederam.
As origens e as influências compartilhadas pelos que viriam a se tornar artífices do Pessoal são esquadrinhadas por Pedro Rogério, aqui o pesquisador cuidadoso, detalhista, atento ao “habitus” e ao “campo” de Bourdieu para dar à luz sua tese; uma leitura possível para o embate entre unidade e diversidade responsável por fazer com que o Pessoal do Ceará causasse tanto impacto, mesmo passando longe de se assumir como “movimento”.
Sem trazer outro manifesto que não a determinação de ir além fronteiras e a vontade de cantar, entre tantos outros motes, as coisas de sua aldeia, que eles já sabiam tão provinciana quanto universal.
À parte essa soma de individualidades em contraste com o conceito de grupo, a dissertação de Pedro Rogério – em boa hora transposta em livro pela Universidade Federal do Ceará, para satisfação dos interessados no tema – demonstra que sim, havia muito em comum entre os personagens dessa história que continua a se fazer e a se contar.
Suas influências de múltiplos vértices, entre Lauro Maia, Luis Assunção, Humberto Teixeira, Beatles, Stones, Dylan, Bossa Nova, Tropicália e Clube da Esquina, da tradição ao liquidificador da indústria cultural, sua origem de classe média, os locais que compartilhavam na Fortaleza dos anos 60 e até sua breve iniciação musical formal, seguida pela escolha autodidata nos códigos da música popular, estão entre os ingredientes que levaram à convergência, às parcerias, à caminhada dividida pelos integrantes deste Pessoal, na estrada rumo ao sul e à sorte.
Enquanto o olhar local divisa com mais facilidade as diferenças entre cada artista, é principalmente como um grupo que o Brasil olha para os “novos cearenses”;muitos dos quais falaram a Pedro Rogério em depoimentos exclusivos, de grande interesse para o leitor. E que ajudam, entre redundâncias e novidade, confirmação e divergência, a tecer a renda dessas reflexões.
A bibliografia sobre a música e a cultura do Ceará ganha um significativo reforço com este livro, em que a sociologia pára para ouvir e pensar o Pessoal do Ceará.
Aplausos para Pedro Rogério
DALWTON MOURA
Jornalista
Apresentação do Livro - PESSOAL DO CEARÁ - Habitus e campo musical na década de 70
De Pedro Rogério
Edições UFC, 2008
Universidade Federal do Ceará
188p.
ISBN: 978-85-7282-293-0
quinta-feira, 24 de julho de 2008
Coronlaine - Coral Performático
Sempre é bom saber o que artistas brasileiros andam fazendo pelo mundo. Exempo disso é o Coronlaine - um coral frenético e bem afinado e performático feito exclusivamente por brasileiros que viajam bastante pelo mundo. Tem gente de vários locais do Brasil, seu regente e grande parte dos componentes são da Bahia, mas vivem aí por vários locais. Vejam o Coronlaine , Zeca Zines indica com entusiamo, é muito bom.
O Coronlaine, (brazilian show choir), é regido pelo maestro Cícero Alves Filho (www.ciceroalvesfilho.com.br), aqui neste destaque interpreta Pedras Que Cantam, composição de Dominguinhos e Fausto Nilo, com belíssimo arranjo Coral de Márcio Mattos. Local: Pensilvânia-EUA.
Outras performances:
Trem das Onze de Adoniran Barbosa
http://br.youtube.com/watch?v=GL5HnfXQYyU
La Bamba de Ritchie Valens
http://br.youtube.com/watch?v=YnLKnb8bvJk
Rock Around the Clock de Max Freedman e Jimmy De , imortalizada por Bill Halley and his Comets.
http://br.youtube.com/watch?v=YrV1IWIApOM
Mas vejam Ednardo Fagner Belchior cantando esta música de Dominguinhos e Fausto Nilo em Fortaleza na Praça do Ferreira, fico imaginando se algum dia houver um show desse pessoal juntos Cearenses e Baianos Os três do Ceará e a moçada desse coral, é sensacional!
quinta-feira, 17 de abril de 2008
Entrevista Musical - Ednardo - Centro Cultural BNB
Entrevista Musical Ednardo Parte 01- Centro Cultural BNB em Fortaleza, aberta ao público, 30 Janeiro 2007, falando da importância das atitudes regionais e independentes, em contra ponto as empresas da grande mídia e gravadoras masters que reduzem a musicalidade brasileira aos interesses de seus lucros imediatos e tiram de circulação a musica brasileira em suas riquezas artísticas e diversidades pelas prática criminosa do jabá e manipulação absurda dos meios de comunicação de massa.
Este DVD estará disponível a partir de Maio de 2008, na íntegra e distribuido pelo CCBNB - Centro Cultural BNB - Fortaleza, para escolas, universidades, bibliotecas, rádios e tv's públicas e educativas.
Junte-se a este depoimento, diversos outros no post durante o 1º Encontro Nacional de Música Independente em Curitiba abril 2008.
Entrevista Ednardo - Centro Cultural BNB Fortaleza - Parte 2
quinta-feira, 20 de setembro de 2007
Ednardo cantando Mucuripe
Ednardo cantando Mucuripe (Fagner e Belchior) show Do Pageú ao Papicu, Fortaleza 13 de abril de 1997.
Mucuripe
(Fagner e Belchior)
As velas do Mucuripe vão sair para pescar
Vou levar as minhas mágoas pras águas fundas do mar
Hoje a noite namorar, sem ter medo da saudade
Sem vontade de casar
Calça nova de riscado, paletó de linho branco
Que até o mês passado, lá no campo ainda era flor
Sob o meu chapéu quebrado
Um sorriso ingênuo e franco
De rapaz novo e encantado de vinte anos de amor
Aquela estrela é dela
Vida, vento, vela leva-me daqui
