domingo, 17 de maio de 2009

Homenagem a Augusto Pontes


































O Blog Zeca Zines, faz Homenagem mais que merecida ao grande filósofo, poeta, autor, publicitário e agitador cultural da cena cultural e musical cearense e brasileira - Francisco Augusto Pontes.

Autor de mais de 200 letras, apenas umas 12 músicas onde contribuiu com suas letras e genialidade, são conhecidas do público ou gravadas, entre as quais: Carneiro e Água Grande em parceria com Ednardo; Lupiscínica em parceria com Petrúcio Maia; O Lago e A Mala em parceria com Rodger Rogério; Velho Demais e Sopa de Saudade e Palmito em parceria com Zeca Bahia; e outras inéditas com um dos fundadores da Tropicália, o baiano Piti que estava residindo em Fortaleza com o qual fez a parceria Caminho do Mar.
Também realizou parceria com os compositores do grupo piauiense residente em Brasília: Climério - Pelada; E Clésio - Folia ou Pressa; e existem outras com o Clodo e também O Mundo Mudar e Pancada do Mar em parceria com Rodger Rogério.

É conhecida a história que várias de suas frases e pensamentos geniais, foram utilizadas por muitos sem o devido reconhecimento de parceria tais como na música e letra de Mucuripe, onde consta apenas como de Fagner e Belchior; e também na letra e música de Apenas um Rapaz Latino Americano, onde consta apenas a autoria de Belchior - ambas sem citarem a parceria fundamental de Augusto Pontes, quando justamente estas frases poéticas - "Vida, Vento, Vela - Leva-me Daquí"; e Eu sou apenas um rapaz, latino americano, sem dinheiro no banco e sem parentes importantes" - foram fundamentos e esteios principais na construção destas duas músicas e letras, o LEIT-MOTIV.

Assim como estas situações, existem muitas outras.

Em homenagem a esta grande figura humana, Zeca Zines transcreve de forma condensada uma sequencia de matérias publicadas sobre Augusto Pontes, que nos deixou recentemente, para que muitos outros saibam sobre sua importância cultural tanto para o Ceará quanto para o Brasil.

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Paulo Linhares - Especial para o Jornal O POVO - 16 Maio 2009
Ex - Secretário de Cultura do Estado do Ceará que substituiu o então Secretário de Cultura - Augusto Pontes durante o período da gestão do Governador Ciro Gomes.


O RAPAZ LATINO AMERICANO


Augusto Pontes foi o melhor pensador contemporâneo do Ceará.
Numa época cheia de celebridades fúteis e fátuas, nada mais dúbio do que a concordância imposta a nós pela homenagem momentânea.
Principalmente aqueles que encontraram em vida uma concordância permanente com o público. Não é o caso de Augusto. O que caracterizou seu pensamento foi exatamente nunca ter se reconciliado candidamente com o mundo em que viveu.
Sua acidez, ironia e verve desconcertante o faziam um permanente desafiador de ideias feitas. Como na doutrina grega das paixões, que incluía a cólera entre as emoções agradáveis, mas situava a esperança e o medo entre os males, Augusto Pontes demolia o bom senso careta dominante no campo intelectual com uma cólera quase santa.
Em todos os momentos. Basta lembrar quando Augusto era professor da Universidade Nacional da Brasília e a burguesia estudantil, filha do poder, brincava de fazer revolução, numa assembleia estudantil.
Convidado a discursar, Augusto disse que a única coisa que eles, inconfessadamente, gostariam de reivindicar, era mais vagas no estacionamento da universidade.
A cólera de Augusto Pontes contra a ignorância bem situada era cheia de humor, e o tipo de riso atônito que provocava tentava realizar a sua reconciliação com o mundo.
Sim, mas se seu humor o ajudava a encontrar o seu lugar no mundo, não o levava a vender sua alma a ele. Era um pensamento que sempre provocava incômodo, pois jamais se reconciliava com o óbvio.
Se o seu gênio não combinava com o dos homens com o gosto acertado, ele não abandonava o sólido terreno do real. No pensamento de Augusto Pontes, a têmpera desconstrutivista se associava a uma curiosa objetividade cheia de detalhes.

O que nunca permitia que sua atitude intelectual o levasse a perder de vista a relação com o mundo e o estatuto real das coisas do mundo que ele atacava. Assim, as famosas “pontes para a comunicação” e as “pontes para a cultura”, fundamentos teóricos que ele divulgava em todo espaço público, colocavam seu pensamento longe da ideia de um indivíduo fechado.
Elas possibilitam afirmar que sem Augusto Pontes não existiria a atitude ousada e avisada que permitiu Ednardo, Belchior, Fagner, Rodger, Teti, etc., em seus melhores momentos, se transformassem em artistas muito maiores.

O texto da música Carneiro, imortalizada por Ednardo, é a mais perfeita tradução do campo cultural cearense: “Amanhã se der carneiro/vou mimbora daqui pro Rio de Janeiro. As coisas vem de lá... E vou voltar em vídeo tapes e revistas multicoloridas. Pra menina meio distraída repetir a minha voz: Que Deus salve todos nós e Deus salve todos vós”.

O impasse da vida artística digna num Estado pobre.
A centralização da indústria cultural sudestina.
A vontade humana, demasiadamente humana de conquistar plateias.
A súplica cearense por uma salvação tardia.
Tá tudo na letra Carneiro.

Com suas “Pontes para a comunicação”, Augusto nos ensinou a partir de sua cátedra real da Scala Publicidade, a melhor agência de propaganda que o Ceará já teve, que nossa propaganda poderia ter a nossa cara, sem ser piegas, autocomplacente, atrasada.

Augusto desafiou a caretice da nossa esquerdolatria ironizando as viúvas da ditadura, quando ninguém tinha coragem de fazê-lo.
Augusto desafiou a caretice universitária fazendo tremer os pilares das verdades bem conhecidas, onde quer que imponham os olhos.

Mas a crítica de Augusto nunca tomou partido em prol de uma irrascibilidade política desantenada com o mundo cearense.

Ele nunca acreditou no moralismo pequeno burguês udenista da pequena denúncia, e sempre incentivou o pensamento largo, ousado, apontando numa perspectiva capaz de nos salvar da miséria intelectual que nos livraria da miséria econômica.
Sua obsessão com a superação desta pobreza atávica intelectual e artística nunca o levou a usar nem a muleta do pauperismo, da tal cultura popular, nem a lógica coercitiva do pensamento acadêmico bem comportado.

Dizia sobre os primeiros que o mérito do cego não está no guia e para os outros criou um projeto de Escola de Comunicação - a Ecoa - que um dia será a grande base teórica para as mudanças que precisamos fazer nos cursos de comunicação.

Que Augusto tenha morrido pobre, sofrendo com os impasses duma cidade medíocre e bárbara, num dos períodos mais obscuros de sua vida urbana, só me leva a lembrar algumas frases de Hanna Arendt. “A história conhece muitos períodos de tempos sombrios, em que o âmbito público se obscureceu e o mundo se tornou tão dúbio que as pessoas deixaram de pedir qualquer coisa à política além de que mostre a devida consideração pelos seus interesses vitais e liberdade pessoal”.

Os grandes homens são raros, como as obras primas. O rapaz latino americano de sua famosa carta “sou apenas um rapaz latino americano, sem dinheiro no bolso, sem parente importantes”.... se foi.

Mas seu pensamento vai fertilizar nossa terra, porque, parafraseando W. Benjamin, ele se manteve sempre como alguém que consegue ficar à tona num naufrágio, capaz de subir ao topo de um mastro que já desmorona.
E dali ele teve uma oportunidade de fazer sinais que nos levarão à salvação.
-
PAULO LINHARES também é publicitário e diretor de conteúdo e marketing da TV O POVO.


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AUGUSTO PONTES - O GURU AOS 70

Dalwton Moura
Diário do Nordeste - Caderno 3 - 2006


Jornalista, publicitário, compositor, ex-secretário de Cultura, Francisco Augusto Pontes chega hoje aos 70 anos.
Em entrevista ao Caderno 3, rememora passagens da infância na Fortaleza das lâmpadas pintadas de preto, em plena Segunda Guerra, dos tempos de universidade, da reunião dos que viriam a ser conhecidos como “Pessoal do Ceará”.
A publicidade na década de 70, a Massafeira Livre, os caminhos da cultura e os encontros e desencontros dos músicos cearenses - entre o sucesso nacional e o desconhecimento no próprio quintal - também entraram na prosa, bem-humorada e saborosa pelas tiradas características que fazem de Augusto um referencial para várias gerações.

Com a palavra, o guru:

Caderno 3 — Vai ter festa para essa data especial, ou você prefere ficar mais tranqüilo nessas ocasiões?

Augusto Pontes— Não, não vai ter festa não (risos)... É um dia normal. Às vezes o pessoal aparece, a gente se encontra. Mas não tem começo certo não...

— Fazendo 70 anos, que lembranças você tem da sua infância em Fortaleza? O que mais marcava na cidade, naquela época?

Augusto— Eu nasci na antiga Vila Maciel, perto da Serrinha, no caminho de Maranguape. Papai tinha lá um sítio. Acho que ainda deve ter o lugar, um nome tão simpático.
Mamãe veio pra cá, morar em Fortaleza. Sempre morei por aqui. Só morei aqui e, já bem depois, nos anos 70, por ali, em Brasília e em Teresina.
O que me lembro mais de Fortaleza naquele tempo é que a gente tinha que pintar de preto as lâmpadas incandescentes, do lado que dava para o mar, por causa do negócio da guerra.
Eu morava na praia, ali na Tenente Benévolo, e as casas usavam esse artifício. Todo mundo tinha que fazer isso.
Papai, muito habilidoso, gostava de fazer essas coisas. Lembro dos primeiros passeios na Praça do Ferreira e na Gentilândia, onde tinham os pontos de encontro, a turma do futebol. Tinha os times do Gentilândia, do Peñarol, o próprio Ceará ficava perto, o 24 de Maio, que a sede era na Marechal Deodoro. Do outro lado, o (estádio) Presidente Vargas.

— E os primeiros contatos com os livros, como se deram? Por influência da família?

Augusto— É, os primeiros contatos foram muito cedo, em casa, com meu pai, que me apresentou Machado de Assis, Monteiro Lobato, Humberto de Campos... Lembro de ter lido bastante no Seminário da Prainha, onde passei um ano só, mas também foi o suficiente.
Fiz o primário no 7 de Setembro e de lá fui pro Seminário. Passei só um ano, por incompatibilidade de gênios (risos)... Sempre fui muito à vontade, e com aquela disciplina não consegui continuar.
Mas valeu o ano que estudei lá, valeu pelo primário bem feito. Aí a gente não precisa estudar mais nunca, né? Você aprende a ler e a saber o que está lendo...

— E como foi que você descobriu a música?

Augusto— Nas serestas. Tinha muitas serestas naquele tempo, muitas. E o rádio também, os auditórios de rádio, que eu gostava de ir, a PRE-9, a Rádio Iracema... O rádio tinha um “cast” grande de cantores, músicos. As rádios tinham orquestra.
Tinha muito também as quermesses, e muitos regionais, muitos cantores. A música era muito presente na vida de Fortaleza. Tinha os trios, os grupos vocais que se formavam, os Vocalistas tropicais, Quatro Ases e um Coringa, Trio Nagô, Trio Jangadeiro, até o Trio Irakitan tinha um integrante cearense. Já os discos só vieram depois que o comércio, o “marketing” trouxe. O primeiro toca-disco em casa, lembro que foi muito tardiamente. Tinha mais era rádio, as novelas de rádio, como “Penumbra”, “Renúncia”, “O Direito de Nascer”, com trilha.

— Você trabalhou em rádio...

Augusto— É, depois do Seminário fui fazer técnica de contabilidade, e virei perito contador. Mas até hoje tenho dificuldade em fazer imposto de renda, como todo mundo (risos).
Mas eu trabalhei em rádio sim, muitos anos. Escrevia programas, fui diretor artístico da Uirapuru, da Dragão do Mar, trabalhei na Rádio Nacional de Brasília.
Por conta disso até eu fui fazer o curso de jornalismo, pra poder ter o direito de ser jornalista. Não engolia muito bem esse negócio de ser jornalista prático.

— E a publicidade, Augusto? Você trabalhou naquela que é considerada por muitos uma espécie de “época de ouro” da publicidade cearense, em que havia mais romantismo, mais charme na atividade. Era isso mesmo, ou há uma certa mitificação nisso?

Augusto— Acho que não. A década de 70 foi realmente a melhor época da publicidade aqui.
A Scala, a Mark, a Slogan, a Terraço, em todas as grandes agências eu trabalhei.
Lembro de trabalhar inclusive com o grande Gilmar de Carvalho, muito modesto, que a custo se tornou redator, porque achava que não era, apesar de ser gênio, de ser um grande escritor.

Agora, tinha mais romantismo na publicidade daquela época. Era muito mais intuitiva, muito mais artística. E tinha muitos casos curiosos também.

Lembro de um deles, em que mandaram retirar uns outdoors do óleo Pimentel, que diziam “Quem assina o que faz garante muito mais”. E o Moisés Pimentel era candidato nas eleições. O outdoor mostrava um carro de supermercado e uma lata. Era quase uma urna e um voto (risos).Tinha aqueles anúncios famosos do Bento Alves, do Macarrão Fortaleza, “Quando a comida é boa, ninguém quer largar”... Esse quase vai proibido também.

Outro, de TV, tinha uma cozinheira cantando: “É só uma pitada de sal nesse programa insosso”, e anunciando o sal Marissol. A TV queria proibir, porque mangava da própria TV. Ficaram chateados, reclamaram, e aí gentilmente, tiraram o anúncio.

Uma coisa tão inocente! Lembro que a Coelce, a Teleceará anunciavam muito nessa época.

Tinha também o sabão Pavão: ´Uma mão lava a outra com perfeição e as duas lavam tudo com Pavão´. Enfim, a publicidade era uma atividade muito romântica, era uma alegria fazer.

Eu fiz muitos textos, muitos jingles. Hoje, os publicitários se acham muito geniais.

Naquele tempo a gente saía pra beber, convivia mais.

Não sinto saudade do futuro

Caderno 3 — Não sei se isso veio a partir da publicidade, ou se foi o inverso, mas uma das suas maiores características é a facilidade para bolar “slogans”, títulos, frases. Como surgiu esse hábito?

Augusto Pontes — Eu atribuo essas coisas à proximidade com o povo, com a vida. Acho que não é nada especial meu não. Era uma característica não só minha, mas de muita gente. É uma coisa da nossa cultura.

— Mas frases clássicas como “Quando a mesa cresce, a cultura desaparece”, que se conta que você dizia quando juntava gente demais no Bar do Anísio, têm uma assinatura sua...

Augusto — É verdade... Nos coquetéis de lançamento de livro era “A cultura em álcool imersa, logo dissipa e dispersa” (risos). Essas frases sintetizam as coisas. "O sertanejo é antes de tudo um forte. Avalie no Rio Grande do Norte" (risos).

Agora, o pessoal inventa muita coisa e atribui a mim. Tem muita coisa que dizem que eu dizia, e eu nem pensei.

— E as frases usadas no meio musical, como “Meu corpo, minha embalagem, todo gasto na viagem”?

Augusto— Essa, que acabou dando título ao primeiro disco dos cearenses (o LP conhecido como “Pessoal do Ceará”, lançado em 1973 por Ednardo, Téti e Rodger Rogério), era de uma letra enorme que eu tinha, e que só musicaram algumas partes.

“Vida, vento, vela, leva-me daqui”, o final do “Mucuripe” (clássico de Fagner e Belchior). Tinha algumas frases que eram usadas pela turma, “Eu sou apenas um rapaz latino-americano”, na música do Belchior... Eu considero isso uma homenagem, não faz mal nenhum terem usado não.

Nunca pedi parceria por isso. São todos grandes amigos, é natural que um use uma frase ou outra.
Sempre digo que o plágio é um atestado de humildade.

Porque, se eu vou fazer uma canção, eu não consigo usar uma frase de outro. Agora, o nosso amigo Aldir Blanc fez uma música e chamou “Lupiscínica”, e não colocou “Lupiscínica 2”.

Aí é outra coisa. É chato, dói, porque ele inclusive grafou igualzinho. Aí fiquei chateado.

— O Rodger Rogério e o Petrúcio foram os primeiros parceiros?

Augusto— O meu primeiro parceiro foi o Rodger sim. Depois o Petrúcio. Com o Rodger fiz inicialmente “Mundo, mudar” e “A pancada do mar”. Acho que eu tinha uns 26 anos por ali. Ele entrou na universidade cedo, eu entrei tardiamente. Tinha ficado muito tempo sem estudar, abandonei ali no primeiro ano colegial. Depois voltei e fiz de tudo.— Que impulso te levou a ser compositor popular?

Augusto— Não teve nada assim... Eu achava bonitas aquelas músicas e queria fazer também. Tive a sorte de encontrar parceiros, e acho que levava jeito. Lembro de toda aquela música, do rádio, das quermesses, dos cantores.
Depois, a bossa nova foi uma grande influência pra gente. Fazer música passou a ser um interesse não só meu, mas de muita gente em Fortaleza.

— Chama a atenção a diferença de linguagem, o salto estético daquela geração. Se não eram propriamente um grupo, como muita gente faz questão de lembrar, vocês compartilhavam dessa intenção de fazer uma música diferente, moderna?

Augusto— Era, havia essa vontade. Isso vinha muito da literatura. Graciliano, Guimarães, Clarice Lispector, aquela invenção de palavras. Tanto que, como criadores de música, somos anteriores aos baianos.
Mas quando os baianos surgiram, aconteceram (fizeram sucesso), ficamos entusiasmados. Havia esse desejo de fugir daquela coisa mais antiga da canção popular. Um desejo de incluir outros sentimentos, cantar o amor, a terra e a vida misturados...

E fomos incentivados por muitas coisas, havia um movimento de criação em todo o Brasil, com o Cinema Novo, o teatro... Isso refletiu em toda a turma de cantores e compositores que se chegou entre a Universidade, a Praça do Ferreira, o TJA e o Bar do Anísio.

— Mas quando é que o ato de fazer música deixa de ser apenas essa criação mais descompromissada e passa a ser uma pretensão artística e profissional?

Augusto— Acho que desde muito cedo a gente tinha intenção. Tem a música, né: “Amanhã se der o carneiro, carneiro / Vou-me embora daqui pro Rio de Janeiro”.
Agora, quando todo mundo foi, em 74, por ali, essa parte é um pouco triste. Eu até me ausentei da composição, dei um recessozinho.
Porque tornou-se uma coisa mecânica, meio de vida. Aí tinha todos os ingredientes dos interesses.
Éramos uns 300, né, mas ficaram resolvendo as coisas só com uns três ou quatro. Aí não dava, né?
Três ou quatro eram os baianos, que agora são 300. É o contrário.

— Havia, então, muita desunião entre os integrantes do chamado “Pessoal”?

Augusto— Não sei se desunião, acho que nem hoje tem desunião não. O que houve com os cearenses foi que, antes deles ganharem dinheiro, brigaram. Brigaram, se separaram. Aí diminuiu da turma toda pra três rapazes.
Três rapazes não davam conta! Começa a pintar cachê, a vaidade de aparecer, uns se achando melhores que os outros. Qualquer canção, quando desponta, é muito bonita, toca mais que outra que ninguém conhece.
Isso é o que me salva um pouco, porque “Carneiro”, “Lupiscínica” nunca saem de moda.

— Você se ressente de não ser mais reconhecido pelo público, não ter sua obra mais visitada?

Augusto— Ao contrário: eu me acho mais conhecido do que mereço. Não me ressinto disso não. Acho que é isso mesmo. Acho que tá tudo bem, tá tudo certo.
Não tenho saudades do futuro. Fiz até uma brincadeira: digo que não tem presente, ou é passado ou é futuro.
Até na Secretaria de Cultura, usava esse eixo: passado, presente, futuro.

— Você recebeu muitas críticas na sua gestão na secretaria. Faz uma autocrítica, ou se sentiu perseguido?

Augusto— Ali, qualquer pessoa que se debruçar vai compreender. A secretaria era muito ligada a negócio de coquetel, beletrismo. Aí mudou: entrou a culinária, a música popular, o folclore, o artesanato.
Virou cultura mesmo, e a arte foi pro seu lugar de crítica da cultura.
Os meus amigos mais chegados ficaram decepcionados, um até me disse que eu desconheci os amigos. E eu explicava: “Você é meu amigo, mas não é amigo do secretário”.

Mas eu acho que valeu a pena meu sacrifício ali, minha dedicação. Eu não soube fazer direito, mas quem veio depois soube fazer.
Quando o Ciro (Gomes) me convidou, senti a responsabilidade: “Mas rapaz, secretário de cultura, eu nunca fui”. E ele: “E eu nunca fui prefeito”. Aí calou minha boca.
Eu era muito crítico, mas acho que me dei bem. Muitos compreenderam, elogiaram. Mas críticas tinha que haver, pelo rumo da cultura no País.

— E a Massafeira: seria possível algo semelhante hoje?

Augusto— A Massafeira foi um movimento que explodiu. Ninguém é autor dele. Todos participaram. Era uma explosão da vida. Era muita gente criando, muitas coisas lindas, uma vontade de fazer. Esse é outro papel que eu acho que deve caber a uma secretaria de cultura: não querer programar, e sim incentivar. Deixar que as pessoas programem. Dali saíram vários artistas, Lúcio Ricardo, Mona Gadelha, Stélio Valle, grandes nomes, mas que ficaram espremidos.

Como atualmente tem muitos intérpretes e instrumentistas incríveis no Ceará, mas a tendência é ficar só um fazendo sucesso. Agora, independente disso, com certeza poderia haver hoje em dia algo parecido com o que a Massafeira foi em 79. Só falta alguém coordenar, sem ser pra mostrar só as suas obras.
Daria pra fazer uma coisa forte nacionalmente, pra dar um sossegozinho aos baianos. Eles trabalham demais (risos).

— Pra completar, como é que você lida com esse título de “guru”? E o que o guru tem como objetivo, daqui por diante?

Augusto— Que guru, nada! Nunca ocupei esse lugar. Ao contrário: gurus são esses homens cultos do Ceará. Eu soube me aproximar deles. Mas nunca me achei guru.
Eu sempre tive foi tendência a ligar as pessoas, aproximar quem nem sonhava em se encontrar. Os amigos de hoje são os de sempre, o Rodger, o Francis (Vale, cineasta e produtor), o Fausto (Nilo, compositor), que é minha grande inveja. Eu queria ser o Fausto Nilo, quando eu crescer (risos).

Hoje, com 70 anos, moro com duas das minhas quatro filhas, e quero é viver mais. É muito bom estar vivo nesse momento, o País sendo feito, as pessoas reclamando, mas sem parar pra entender, né?
Se houver uma crise de sinceridade, aí melhora tudo. Imagina as pessoas confessando que não sabem fazer tudo, admitindo que precisam do outro. Olha que sonho! Antigamente era assim, e a gente fazia as coisas.

(DM)

sábado, 14 de março de 2009

Incoerência católica

Artigo publicado em 14 de março de 2009 no jornal Folha de São Paulo, pelo escritor e médico Dr. Drauzio Varella.


http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1403200923.htm

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Os males que a igreja causa em nome de Deus vão muito além da excomunhão de médicos


AOS COLEGAS de Pernambuco responsáveis pelo abortamento na menina de nove anos, quero dar os parabéns. Nossa profissão foi criada para aliviar o sofrimento humano; exatamente o que vocês fizeram dentro da lei ao interromper a prenhez gemelar numa criança franzina.Apesar da ausência de qualquer gesto de solidariedade por parte de nossas associações, conselhos regionais ou federais, estou certo de que lhes presto esta homenagem em nome de milhares de colegas nossos.
Não se deixem abater, é preciso entender as normas da Igreja Católica. Seu compromisso é com a vida depois da morte. Para ela, o sofrimento é purificador: "Chorai e gemei neste vale de lágrimas, porque vosso será o reino dos céus", não é o que pregam?

É uma cosmovisão antagônica à da medicina. Nenhum de nós daria tal conselho em lugar de analgésicos para alguém com cólica renal. Nosso compromisso profissional é com a vida terrena, o deles, com a eterna. Enquanto nossos pacientes cobram resultados concretos, os fiéis que os seguem precisam antes morrer para ter o direito de fazê-lo.
Podemos acusar a Igreja Católica de inúmeros equívocos e de crimes contra a humanidade, jamais de incoerência. Incoerentes são os católicos que esperam dela atitudes incompatíveis com os princípios que a regem desde os tempos da Inquisição.

Se os católicos consideram o embrião sagrado, já que a alma se instalaria no instante em que o espermatozoide se esgueira entre os poros da membrana que reveste o óvulo, como podem estranhar que um prelado reaja com agressividade contra a interrupção de uma gravidez, ainda que a vida da mãe estuprada corra perigo extremo?

O arcebispo de Olinda e Recife não cometeu nenhum disparate, agiu em obediência estrita ao Código Penal do Direito Canônico: o cânon 1398 prescreve a excomunhão automática em caso de abortamento.

Por que cobrar a excomunhão do padrasto estuprador, quando os católicos sempre silenciaram diante dos abusos sexuais contra meninos, perpetrados nos cantos das sacristias e dos colégios religiosos? Além da transferência para outras paróquias, qual a sanção aplicada contra os atos criminosos desses padres que nós, ex-alunos de colégios católicos, testemunhamos?

Não há o que reclamar. A política do Vaticano é claríssima: não excomunga estupradores.
Em nota à imprensa a respeito do episódio, afirmou Gianfranco Grieco, chefe do Conselho do Vaticano para a Família: "A igreja não pode nunca trair sua posição, que é a de defender a vida, da concepção até seu término natural, mesmo diante de um drama humano tão forte, como o da violência contra uma menina".

Por que não dizer a esse senhor que tal justificativa ofende a inteligência humana: defender a vida da concepção até a morte? Não seja descarado, senhor Grieco, as cadeias estão lotadas de bandidos cruéis e de assassinos da pior espécie que contam com a complacência piedosa da instituição à qual o senhor pertence.

Os católicos precisam ver a igreja como ela é, aferrada a sua lógica interna, seus princípios medievais, dogmas e cânones. Embora existam sacerdotes dignos de respeito e admiração, defensores dos anseios das pessoas humildes com as quais convivem, a burocracia hierárquica jamais lhes concederá voz ativa.
A esperança de que a instituição um dia adote posturas condizentes com os apelos sociais é vã; a modernização não virá. É ingenuidade esperar por ela.

Os males que a igreja causa à sociedade em nome de Deus vão muito além da excomunhão de médicos, medida arbitrária de impacto desprezível. O verdadeiro perigo está em sua vocação secular para apoderar-se da maquinária do Estado, por meio do poder intimidatório exercido sobre nossos dirigentes.

Não por acaso, no presente episódio manifestaram suas opiniões cautelosas apenas o presidente da República e o ministro da Saúde.
Os políticos não ousam afrontar a igreja. O poder dos religiosos não é consequência do conforto espiritual oferecido a seus rebanhos nem de filosofias transcendentais sobre os desígnios do céu e da terra, ele deriva da coação exercida sobre os políticos.

Quando a igreja condena a camisinha, o aborto, a pílula, as pesquisas com células-tronco ou o divórcio, não se limita a aconselhar os católicos a segui-la, instituição autoritária que é, mobiliza sua força política desproporcional para impor proibições a todos nós.

quinta-feira, 5 de março de 2009

100 Anos de Patativa do Assaré

Hoje, 5 de março, o poeta Patativa do Assaré completaria 100 anos.

A terra e o homem sertanejo transfigurados em poesia pôs o sertão cantado no centro dos temas políticos cruciais para o Brasil, no secúlo XX. “Sobre política eu faço é ironia, é crítica”.
A frase está registrada no livro Patativa, poeta pássaro do Assaré, do pesquisador e professor da Universidade Federal do Ceará, Gilmar de Carvalho.

Quase quatro década antes, Patativa deixara escrito na autobiografia que escreveu para o livro Inspiração Nordestina, em 1956: “Não tenho tendência política, sou apenas um revoltado contra as injustiças que venho notando desde que tomei algum conhecimento das coisas, provenientes talvez da política falsa, que continha muito fora do programa da verdadeira democracia”.

Mesmo sem partido, Patativa do Assaré foi um poeta engajado do seu jeito. Não teve causa social a partir dos anos 60 do século XX que Patativa não tivesse tratado em sua poesia. Cantou a reforma agrária muito antes de se ligar a militantes das Ligas Camponesas e de surgir o Movimento dos Sem Terra, fez versos contra a ditadura militar e pelas Diretas Já.

E foi, sim, o maior cantador das desigualdades sociais do Brasil. O realismo dos versos não embelezaram a feiura da pobreza que até hoje assola bolsões nos centros urbanos e rurais.


POÉTICA DA LIBERDADE
http://www.opovo.com.br/opovo/vidaearte/860567.html

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Brasi de Cima e Brasi de Baxo
(Trecho)

(Cante lá que eu canto cá)


Meu compadre Zé Fulô,
Meu amigo e companhêro,
Quage um ano que eu tou
Neste Rio de Janêro;
Eu saí do Cariri
Maginando que isto aqui
Era uma terra de sorte,
Mas fique sabendo tu
Que a miséra aqui no Su
É a mesma do Norte

Tudo o que procuro acho.
Eu pude vê neste crima,
Que tem o Brasi de baxo
E tem o Brasi de Cima
Brasi de Baxo, coitado!
É um pobre abandonado;
O de cima tem cartaz,
Um do ôtro é bem deferente:
Brasi de Cima é pra frente,
Brasi de Baxo é pra trás

Aqui no Brasi de Cima,
Não há dô nem indigença,
Reina o mais soave crima
De riqueza e de opulença;
Só se fala de progresso,
Riqueza e novo processo
De grandeza e produção.
Porém, no Brasil de Baxo
Sofre a feme e sofre o macho
A mais dura privação.

... ... ...

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Ginga Pop - MARACATU

Nasceu na África, chegou ao Brasil nas caravelas, meteu-se nos matos e mocambos, mesclou-se com tapuias e tupis. Começou como história real, virou devoção religiosa e já conta mais de século de vida profana, renovando-se a cada carnaval. Nas últimas décadas, extrapolou os três dias de Momo, entrou para a universidade e faz parte da contemporânea cena musical


Eleuda de Carvalho
da Redação - Jornal O POVO - 05 de Fevereiro de 2005


Minha embaixada chegou. Deixa meu povo passar. Meu povo pede licença. Pra na batucada desacatar (Assis Valente, carnaval de 1934)


Coisa de negro. De negro e branco. De negro, branco e índio.
Totalmente brasileiro, o maracatu é uma das mais bonitas expressões musicais, cênicas e coreográficas do nosso carnaval.
Em especial, no Ceará e em Pernambuco.

Maracatu - O nome, dúvidas de filólogos. Mário de Andrade, o poeta modernista e profundo pesquisador da música popular brasileira, sugere uma origem ameríndia.
Mescla de maracá, o instrumento musical e religioso de tapuias e tupis, e catu, que significa lindeza. Ou, ainda, de mará, guerra. Guerra bonita. Guerra de brincadeira. Resquício das inúmeras, violentas lutas de negros e índios, nesta imensidão do Novo Mundo, contra o domínio de Portugal.


Porto de Ceuta, 1415.

As naus portuguesas chegam ao litoral norte da África pela primeira vez. A viagem faz parte do grande projeto ibérico de reconquista, isto é, da expulsão dos mouros da península.
Porém, os lusitanos não se conformaram em somente tanger os muçulmanos do seu território.

Com apoio da igreja católica, se investiram de cruzados e desbravaram o mundo, a converter infiéis. Já em 1444 acontece a primeira venda pública de escravos em Lisboa.
Dois anos depois, os portugueses aproavam no golfo da Guiné. Negócio rendoso, este da escravaria.


Para o rei e para o papa. Em 1452, o apresamento dos negros da África é reforçado por bula de Nicolau V, que escreveu ao monarca de Portugal: ''Nós lhe outorgamos, pelos presentes documentos, com nossa autoridade apostólica, plena e livre permissão de invadir, capturar e subjugar os sarracenos e pagãos e qualquer outro incrédulo ou inimigo de Cristo, onde quer que seja, como também seus reinos, ducados, condados, principados e outras propriedades e reduzir essas pessoas à escravidão perpétua''.


Em 1482, o navegador Diogo Cão chega ao reino do Congo.
Escreveu uma carta ao rei: ''Na era da criação do mundo de 6881, do nascimento de Nosso Senhor, o mui alto, mui excelente e príncipe el-rei D. João II mandou descobrir estas terras e pôr este padrão por Diogo Cão, escudeiro da sua casa''.

Cão envia uma embaixada de quatro dos seus homens ao manicongo, o rei, na capital de seu reino, a cidade de Mbanza. Como não voltassem, prendeu o mesmo tanto de negros e os levou a Portugal, para serem catequizados e devidamente batizados.

Voltando em 1484, mandou um deles a Mbanza, ao encontro do manicongo. Um cronista da época registrou: ''Todos os grandes do reino estavam em Mbanza. Os portugueses entraram na cidade. O rei estava sentado num trono de marfim colocado sobre um estrado. Coube aos frades entregar ao rei os presentes do monarca português - louças e talheres em ouro e prata; alfaias do culto; pratos de ouro e prata; brocados em peças, panos de seda; veludos de carmezim; painéis de boa pintura; rabos de cavalo guarnecidos de prata. Finalmente surgiu uma cruz de prata, benzida pelo papa Inocêncio VIII. Os portugueses ajoelharam-se. O rei, que tinha o tronco nu, um rabo de cavalo a pender-lhe do ombro esquerdo e manto de damasco a tapar-lhe os pés, inclinou-se. Seguiu-se depois uma ruidosa festa, à maneira africana''. É desses encontros que vem a tradição da embaixada.



Nem todos os manicongos foram tão receptivos quanto aquele. Até porque Portugal não respeitava os tratados nem a receptividade dos nativos. Aprisionavam membros da casa real. Destruíam aldeias e cidades. Tomavam o ouro, o marfim, as peles preciosas. Um clima de revolta no ar. Por volta de 1600, o reino do Congo tem à frente uma rainha, Nginga Nbandi, ou simplesmente rainha Ginga.

Ela foi batizada com o nome de Ana de Souza em 1622 mas, não suportando os desmandos da coroa portuguesa, morreu guerreando em defesa de seu reino. É esta rainha guerreira que vai virar o símbolo principal, embora encoberto, das festas de coroação dos reis do Congo, o Auto dos Congos - brincadeira permitida pelo portugueses tanto em Portugal quanto na imensa colônia da América. Festejo com toda a pompa no adro das igrejas de Nossa Senhora do Rosário. Um momento de saborear a liberdade e a glória perdidas na escravidão. A festa liberava os negros, ao menos por um dia.

Do auto dos congos dos séculos 17 e 18, surgiram os maracatus. No Ceará, há registro deles desde o século 19.
Entraram século 20 adiante, animando os carnavais. Hoje em dia existem em Fortaleza os maracatus Az de Ouro, onde pontifica a figura majestosa do mestre Juca do Balaio; o Vozes d'África, Nação Iracema, Nação Baobab (de Raimundo Praxedes), o Rei de Paus, o Rei Zumbi, o Kizomba (onde brinca Descartes Gadelha) e o estreante Nação Fortaleza.

O maracatu mereceu registros de pesquisadores como Mário de Andrade, Câmara Cascudo e do maestro Guerra-Peixe. Em meados dos anos 60, Jorge Mautner compôs ''Maracatu Atômico'', gravado por Gilberto Gil.

Na década de 70, Alceu Valença, em Pernambuco, e Ednardo, no Ceará, criaram maracatus com levada pop de guitarras. O ritmo ganhará novo e definitivo impulso nos anos 90, com Chico Science e seu Nação Zumbi, que fundiram maracatu rural e hip hop.

Por aqui, Calé Alencar também se dedicava às loas, tanto nos seus discos e shows quanto puxando o cortejo na avenida. O ritmo daqui, tradicionalmente mais ralentado, vem se modificando aos poucos, com introduções de músicos como Descartes Gadelha, que acelerou a levada. A batida dos tambores e a pancada do triângulo de ferro também estão na matriz de uma dezena de grupos e bandas, como Eletrocactus, Dr. Raiz, Kauandes, Kapruk, Soul Nêgo, Dona Zefinha, Batikum, Moraca, Tambores de Guaramiranga, Brincantes Cordão do Caroá, Caravana Cultural e Vigna Vulgaris. Todos com muito ritmo, muita garra, muita beleza. E muita, muita ginga.

Colaborou - Teresa Monteiro

Gamela da nossa mistura.

O cantor e compositor cearense botou o maracatu pra tocar no rádio e na tevê. Com Pavão Mysteriozo, a batida do ferro e o poema de cordel estavam todos os dias na Globo.

Maracatu Estrela Brilhante
Maracatu o teu brilho errante
Gamela da nossa mistura
Tão linda tão mista e tão pura
Maracatu
Garra maracá já guerreiro
Batuque ferro e ganzá
A flecha cravada no céu brasileiro
Infinitamente cantar, cantar, cantar

''Maracatu Estrela Brilhante'', de Ednardo - disco Imã.

A UFC fervilhava, naqueles fins dos anos 60. Aliás: o mundo inteiro ardia com a chama acesa por uma geração insubmissa que ousou subverter os costumes, demolir o poder.
Por estas bandas de cá, esse fogo queimava. Parte dos moços escolheu o sonho da psicodelia ao pesadelo que se anunciava nos clarins dos quartéis. Outra parte preferiu o coletivo à singularidade. Teve também os que costuraram o roto tecido social com as linhas da arte. Mesclando os ingredientes do inconformismo e o combate à velha ordem, criaram acordes novos, dissonantes.

Falaram de tudo isso, do momento, da rebeldia, da força da juventude. É nessa encruzilhada de tempo e espaço que emerge o chamado Pessoal do Ceará. Dentre eles, o estudante de química José Ednardo Soares Costa Sousa.

No princípio, tocaram seus violões, soltaram a voz nos centros acadêmicos, daí aos bares da cidade, aos botecos da beira do mar. Que som é esse?

Um dia, tiveram que sair da aldeia. Brasília. São Paulo. Rio de Janeiro. Pra ''voltar em vídeo-tape e revistas supercoloridas'', como cantou Ednardo em ''Carneiro'', faixa de abertura do seu primeiro disco solo.
Primeiro, veio acompanhado, em 1973. Na capa do LP diferente, a almofada e os bilros da rendeira.
Era o Pessoal do Ceará: Ednardo, Rodger Rogério e Téti (o outro título do disco é Meu corpo, minha embalagem, todo gasto na viagem). Ednardo abre a cena com o maracatu ''Ingazeiras'', que ele fez em homenagem ao artista plástico Aldemir Martins. Depois, outro maracatu assinado por ele, ''Terral''.
Aí vêm ''Cavalo-Ferro'' (Ricardo Bezerra e Fagner), Rodger Rogério cantando ''Curta-Metragem'' (dele e José Evangelista, o Dedé), Téti em ''Dono dos teus olhos'', de Humberto Teixeira.
E ainda tem outro maracatu do Ednardo, ''Beira-Mar''. Pronto. Do asfalto carnavalesco, o maracatu cearense ingressava pela porta da frente na MPB.
Em 74, com O Romance do Pavão Mysteriozo, Ednardo consolida seu caminhar.
Neste disco emblemático, além da faixa título, inesquecível, tem ''Dorothy Lamour'' (de Petrúcio Maia e Fausto Nilo) e ''A palo seco'' (de Belchior). Em 76, ''Pavão Mysteriozo'' é tema de abertura da novela Saramandaia, de Dias Gomes, e Ednardo lança outro LP.

O nome, um luxo - Do boi só se perde o BERRO e é justamente o que eu vim apresentar.
Aqui, a história cearense serve de mote pra canções como ''Artigo 26'' e ''Padaria Espiritual'', ambas sobre o movimento literário que agitou Fortaleza no final do século 19;

Tem ''Passeio Público'', para os confederados, e o maracatu ''Longarinas''. No disco de 77, O Azul e o Encarnado, Ednardo resgata o pastoril (entre as faixas, salta um ritmo maranhense, em ''Boi Mandingueiro''). A reverência aos ancestrais está presente em Cauim, de 78, também título de filme dirigido por Ednardo.

Em 79, o disco Ednardo inclui a saborosa ''A manga-rosa'', a lírica ''Flora'', e a instrumental ''Araguaia''. Parcerias em ''Lagoa de Aluá'' (com Climério e Vicente Lopes), ''Enquanto engoma a calça'' (dele e Climério), além de ''Lupiscínica'' (de Petrúcio Maia e Augusto Pontes).
Em 80, Ednardo lança o solo Imã e o duplo Massafeira (fruto do evento homônimo, que reuniu o Pessoal do Ceará à nova geração - Calé Alencar, Chico Pio, Stélio Valle, Pachelly Jamacaru, os irmãos Fonteles, além da presença luxuosa de Patativa do Assaré).

Ainda nos anos 80, o artista lança Terra da Luz, outro Ednardo e Libertree.
Volta a gravar em 91, o ao vivo Rubi.
Em 2000, Única Pessoa.
Em 2002, lança, com Belchior e Amelinha, um segundo Pessoal do Ceará.
Assina também as trilhas sonoras dos filmes Tigipió, de 85, Luzia-Homem, de 87 (no qual também atua), e O calor da pele, de 94.

Ednardo nasceu em Fortaleza, no dia 17 de abril de 1945. À beira dos 60 anos, o artista continua criando, encantando e influindo em novas gerações por todo o Brasil.

Eleuda de Carvalho

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ENTREVISTA - Concedida por Ednardo à Eleuda de Carvalho - Publicada no O POVO em 25 Fevereiro de 2005.

O POVO - Antes de falar sobre sua música e de como incorporou à sua linguagem a batida do maracatu cearense, qual foi a primeira imagem do maracatu que você viu, ouviu? Por exemplo, o Estrela Brilhante, que você homenageou na canção.

Ednardo - Não deve passar despercebido, nem aos olhos mais desatentos, o simbologismo do maracatu em suas cargas conceituais. Força cósmica, o maracatu perpassa incólume ao tempo. No caldeirão brasileiro de raças, somos índios, pretos, brancos, amarelos, vermelhos, marrons, sararás, caboclos, cafuzos, crioulos.
A característica notável e ímpar do maracatu cearense, além da presença de nosso povo miscigenado, é a atitude guerreira na síntese de resistência em festa de libertação e manutenção de culturas.
Além do interessante vestuário, os rostos pintados, a dança, os instrumentos de percussões onde adicionam o triângulo de maracatu, fabricado com sabedoria de tonalidades harmônicas, são todos estes itens elementos diferenciais, significativos e inconfundíveis.

Na infância, vi pela primeira vez os maracatus em Fortaleza: Estrela Brilhante, Ás de Espadas, Ás de Ouro, vinham faiscantes pela rua que não tinha eficiente iluminação pública, causavam efeito especial à auto-iluminação dos blocos feita por dezenas de lampiões, candelabros de lamparinas revestidos com tênues tecidos vermelho-laranja-amarelo que tinham efeitos de tochas de fogo, faziam uma espécie de cordão que circundava o bloco.

Vinha o baliza com uns passos gingados e um bastão nas mãos, sua dança uma mistura da pisada indígena com a malemolência africana, o abre-alas para os morubixáuas e suas índias e uma grande ala de índios, os pajés faziam circunvoluções, um cheiro de ervas aromáticas no ar, aí vinha a corte real, com a calunga, os grandes leques de abano, o balaieiro com frutas da região incrivelmente equilibradas na cabeça sem por as mãos enquanto gingava.

Depois soube que tinham rituais, primeiro se reuniam no Parque da Liberdade (Cidade da Criança, em frente à praça Coração de Jesus), depois juntavam-se os blocos na praça do Passeio Público e começavam a bater tambores, entoar loas, de longe a gente escutava a preparação e quando o maracatu passava tinha tal emoção contagiante, o grave dos tambores, o contraponto com o timbre metálico agudo dos triângulos.

OP - Fale do Pavão Mysteriozo, o folheto, e de como você criou, a partir dele e com a pancada do maracatu, uma das mais emblemáticas músicas do Brasil, tema de uma novela surrealista do Dias Gomes, Saramandaia (1976).

Ednardo - Com um pé na realidade nas cenas e culturas do Ceará, e outro nas realidades urbanas, Fortaleza, São Paulo, Rio, aprendizado e estradas, informações amplas e descobrindo outras. O Nordeste brasileiro tem confluência com a tradição ibérica, hoje em dia, mesmo os mais novos - que ainda não saibam onde estão pisando - é bom que se liguem no prosseguimento do que foi construído por seus antecessores de todas as raças.
O folheto de cordel do Pavão Mysteriozo é uma destas consciências de que artistas são depositários da sabedoria popular, devemos procurar entender estes ensinamentos, podemos dar nosso grau conforme momento e lugar, atuamos no emblema contemporâneo do mundo. Apenas dei forma, ritmo e voz, concretizando em sons o que todos já sabem, e podiam estar esquecidos, como se escolhe flores, palavras e energias para ofertar a quem estiver aberto para receber.

OP - O maracatu era, até você capturar em pleno vôo este misterioso e belo pavão, umas canções do Capiba, quer dizer, se alguém sabia o que era, era via Pernambuco. Tanto que muita gente ainda pensa que o nosso maracatu é derivado do maracatu de lá, trazido na década de 30 pelo folião Pedro Boca Aberta, depois de um carnaval que ele passou no Recife.
O escritor cearense Gustavo Barroso, no seu livro de memórias Coração de Menino, relembra o pavor que tinha da batida lenta dos maracatus no centro de Fortaleza, fala das caras tisnadas, isto recordando fatos de 1880, por aí.

Ednardo - O maracatu do Ceará existe há bastante tempo. Ao perceber sua beleza, trabalhei para criar uma das possibilidades de abrir escaninhos locais onde eram mantidos e mostrar para um maior número de pessoas.

Se tão antigo em organizações de blocos quanto o de Pernambuco, é interrogação que será mais esclarecida quando fizerem estudos detalhados, mas esta espécie de ''simbiose estética'' está entranhada em nossos arquétipos culturais e raciais, tem visíveis diferenciações, leva a crer que é pouco provável que tenha sido simplesmente ''importado'' de outro estado, isto pareceria estratégia de exclusividade sobre o maracatu.

O sincretismo religioso que acontece no Brasil entre as civilizações ameríndias, européias e africanas desde o descobrimento à atualidade não pertence a um estado definido por fronteiras físicas, está onde estão pessoas de diferentes credos e raças. Existem versões sobre o sincretismo nos diversos aspectos do cerimonial, estético, doutrinário das teorias místicas relacionadas com a formação do mundo e conjunto de divindades que formam a história das religiões.

Uma delas, seria a forma da civilização dominante impor sutilmente sua própria religião e cultura aos dominados e a outra, da cultura dominada burlar a dominante, fingindo adorar seus deuses, mas na realidade venerando suas próprias entidades, associando umas às outras. Sabe-se dos cortejos negros das irmandades religiosas do Crato, Icó, registrado por Eduardo Campos, Sérgio Pires, Gilmar de Carvalho, e também nas memórias de Gustavo Barroso.

Mas em nenhum momento o pessoal que faz o maracatu cearense tem dúvidas que isto pertence a eles, nesta mistura entre o sagrado e o profano, entre o sonho e a realidade.

OP - Diferente dos dois estilos do maracatu do Pernambuco, o mais do candomblé, de Nação chamado, e o mais acaboclado da Zona da Mata - mas ambos com um ritmo acelerado.
Já o maracatu cabeça-chata tem esta coisa lenta, lenta, lenta, linda, quase uma latomia, um bendito pungente, som hipnótico, uma tristeza pungente marcada pela batida poderosa no triângulo de ferro.

Ednardo - O maracatu cearense não tem viés de tristeza e severidade, são palavras que serviriam para o equívoco de tese que alguns defendem para retirá-lo do carnaval e colocá-lo no folclore, como objeto de pesquisa no passado.
O maracatu cearense tem a força da resistência e alegria.

Filmando Cauim em Fortaleza, na parte do roteiro do filme realizada no carnaval de 1977, um dos focos no maracatu cearense, um repórter foi me entrevistar em plena ação de filmagens: - Você não acha inadequado e triste o maracatu cearense, seria melhor retirá-lo do carnaval.
Na época, faziam campanha para o carnaval cearense se assemelhar às escolas de samba do Rio.

No insight do momento mostrei que os componentes do maracatu estavam desfilando com rostos de felicidade para o público e não para a câmera.
Perguntei: onde você está vendo tristeza? Lembro que conversando com Descartes Gadelha (72), ele junto com amigos estavam formatando a Escola de Samba Ispáia Brasa, quando falou de concepções rítmicas que forneciam uma identidade misturando batuques indígenas com negros, eu disse que era um achado fenomenal e quando possível levasse para o maracatu do Ceará.

Eu já havia dado uma acelerada rítmica em alguns maracatus que gravei em discos, Descartes com outros amigos formataram o Maracatu Nação Baobab, que revolucionou o maracatu cearense e também rendeu críticas absurdas. Falavam que ele estava descaracterizando o maracatu. Ora, logo ele, iluminado com luz intensa!

OP - O que você pode falar sobre a geração manguebeat, o Chico Science juntando maracatu e hip hop e influenciando toda uma nova galera?
Aqui, você sabe que seu trabalho, em particular, está no âmago da rapaziada que usa os ritmos populares numa linguagem atual. Mas ninguém fala muito. Como é esta história do santo de casa não fazer milagres?

Ednardo - Maracatu é célula básica, uma das vertentes rítmicas da música brasileira, célula tronco, fornece a seiva para outras transformações.
Quando o pessoal do Ceará e Pernambuco utilizam estas informações, é para continuar a linha evolutiva da música brasileira, de seus ícones ancestrais à atualidade.
Desde as primeiras músicas gravadas em meus discos, existem vários maracatus, em diversas nuances: ''Terral'', ''Pavão Mysteriozo'', ''Longarinas'' (anos 70); ''Ser e Estar'', ''Ponto de Conexão'' (anos 80), em abordagens desde maracatus lentos aos acelerados.

O Chico e a valorosa geração manguebeat forneceram suas contribuições ao maracatu de Pernambuco, lembro que Ariano Suassuna criticou Science e Nação Zumbi, mas a moçada de Pernambuco gostou e depois Suassuna se rendeu à evidência.

Também vamos dizer viva a Descartes Gadelha, que antes do Science teve coragem de misturar e acelerar os ritmos e colocar o bloco na rua, vivas ao Calé Alencar, Pingo de Fortaleza, Dilson Pinheiro, pela continuidade do maracatu tradicional e pelo zelo de registros, e a todos os mestres do maracatu cearense e seus trabalhos que se estendem na esfera de preocupações sociais.

Tenho consciência do alcance das músicas que faço e seus naturais limites. Foram realizadas com objetivos amplos, mas também simples vontade de cantar. Sei que estão no âmago das novas galeras, mas não penso em alimentar expectativas em histórias de santos de casa e milagres. Sigo compondo e cantando, o restante fica por conta de vocês.



OP - No I Festival de Violeiros e Cantadores (outubro de 2004, em Quixadá e Quixeramobim), quando você subiu ao palco e começou a cantar - e olhe que você rearranjou suas composições, inclusive, o ''Pavão Mysteriozo'' - todo mundo cantou junto. Como é criar uma música que ultrapassa duas, três décadas?

Ednardo - Em shows pelo Nordeste, em Teresina, encontrei mestre Luiz Gonzaga, sorriso estampado no rosto e voz forte chamando: - Ednardo venha cá, ouvi dizer que você não está cantando ''Pavão Mysteriozo'' nos shows, faça isso não meu filho, você foi abençoado pelo povo, sucesso genuíno.
Até hoje canto ''Asa Branca'' porque o povo pede, não deixe de lado essa música, gosto muito dela e o povo também. Foi ensinamento de mestre.

No Festival de Violeiros e Cantadores, ouvi de novo os mestres (entre muitos que tenho) e coloquei no roteiro esta e outras músicas de meu repertório, também abençoadas pelo povo.
Os arranjos atuais partem principalmente da compreensão dos arranjos originais e também pela leitura de novos músicos cearenses da banda que me acompanha, confio em suas sensibilidades, são excelentes profissionais, os acordes e ritmos, tudo passa por minha concordância.

Ao constatar que ultrapassam gerações, duas, três décadas, permanecendo íntegras e significantes, penso que é porque assim foram feitas. Posso me considerar um sujeito de sorte e de forma geral querido pelo público, além do mais, minhas músicas, quando analisadas pelo povo e críticos especializados, pelo que percebo, fornecem sensação de que não fugi da raia de meu tempo e espaço e, segundo atestam, continuam servindo de faróis para muitos.

OP - A gente aqui vê você menos do que desejaria. ''Amanhã, se der o carneiro/ vou-me embora daqui pro Rio de Janeiro...''. E você foi. Bate a saudade? Como é ver o Ceará de longe? Você pensa em voltar, ou só ''em vídeo-tape''?

Ednardo - Também desejaria que nossas cidades nos vissem e ouvissem muito mais, que o foco de atenções tivesse identidades próprias, não esperasse ver ou ouvir primeiro seus artistas em outros locais, principalmente no exterior, para depois reconhecê-los como legítimos representantes de nosso povo.

A pergunta, mesmo específica e dirigida, cabe amplamente à grande parte dos artistas brasileiros. Mas as respostas, talvez, seriam mais esclarecedoras se fornecidas pelos que articulam a mídia e meios de comunicação.
Seria legal que nossos meios de comunicação, nossos governantes, tivessem orgulho de seus artistas, que são antenas da raça, e nos tratassem melhor para não sermos forçados a cada instante a dar nomes aos bois que atravessam os trilhos da música brasileira, hoje em dia mais respeitada no exterior que no Brasil.

Mas estou mais perto de minha terra que muitos que aí residem. É claro que sempre bate saudades de Fortaleza, mas como voltar pra uma cidade da qual nunca saí?

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Sustenta a Pisada!

O registro mais antigo do maracatu recua ao ano de 1711, num carnaval (à época dizia-se entrudo) em Olinda. Era o ancestral dos famosos maracatus de nação, da folia pernambucana, uma estilização dos autos de congos.
Nação aí é sinônimo de etnia ou povo africano - nação angola, nação congo, nação bantu. Do nação participam entre 30 e 50 figuras no cortejo real, começando pelo porta-estandarte, com suas vestes ao modo da corte do rei francês Luís XV.
Ao lado dele, vem a baliza, com seu requebrado, sua graça. Geralmente, uma moça. Em seguida vêm as damas do paço (isto é, as mulheres nobres que circundavam a rainha, no paço ou palácio).
Uma delas conduz a boneca chamada calunga, portadora da religiosidade e representando as entidades espirituais. Depois, outros personagens da corte, o duque e a duquesa, um casal de príncipes e uma das figuras mais importantes e mais diretamente ligadas à parte histórica que originou, depois, a estilização no auto dos congos: o embaixador.

A corte abre alas para o rei e a rainha, devidamente coroados, vestindo seus mantos de veludo rebordados de pedrarias, carregando solenes o cetro e a espada. Rei e rainha são protegidos por um imenso guarda-sol, oriundo da tradição árabe.
Para evoluir, o nação é animado por vários tambores grandes (zabumbas), médios (alfaias), caixas e taróis, ganzás e o gonguê (um só ou um par de sinos, percutidos com uma vareta de metal).
Completando o cortejo, a ala das baianas, com suas imensas saias rodadas, e os caboclos, representando as etnias indígenas, vestidos de pena e estalando pequenos arcos e flechas.
Em Pernambuco, o maracatu nação também é chamado de baque virado.
No Ceará, o cortejo do maracatu assemelha-se ao de nação pernambucano, no figural e instrumentação, mas difere por algumas características singulares, quais sejam - o rosto dos brincantes, pintado de preto, a figura do balaieiro, com o enorme cesto de frutas equilibrado na cabeça, os defumadores, aspergindo incenso para abrir os caminhos, e o triângulo de ferro, marcando o compasso.

Aqui também é fundamental a boneca, igualmente chamada de calunga. Mais recente é o maracatu rural, ou de baque solto, que nasceu nos canaviais da Zona da Mata pernambucana já em meados do século passado.
Também são conhecidos por maracatu de orquestra, por contar com um grupo de músicos que utilizam instrumentos metálicos de sopro, como os trombones, saxes e cornetas.
No figural, destaque para os caboclos de lança, portando vistosas golas terminadas por chocalhos na parte de trás, e as cabeleiras imensas de ráfia colorida. Eles costumam usar óculos espelhados e brincar com uma flor presa entre os dentes. O mestre canta a palo seco (isto é, sem acompanhamento instrumental), respondido pelo coro feminino e o troar dos chocalhos, apitos e demais instrumentos.

O canto do mestre é improvisado. Além dos metais, o cortejo é animado por gonguê, ganzá, tarol, cuíca, surdo e zabumba. Confira alguns instrumentos percussivos que fazem parte dos cortejos.

Eleuda de Carvalho e Tereza Monteiro

ABÊ - É um instrumento artesanal, feito de cabaça recoberta por uma ''saia'' de contas ou miçangas. Quando friccionadas, fazem um som que lembra a palavra xequerê, como também o instrumento é conhecido.

AGOGÔ - Instrumento de percussão em ferro, de origem africana. O nome é nagô, significando sino. O agogô também está presente nos cerimoniais do candomblé.

ALFAIA - É um tambor grande, mais alto que o zabumba mas de circunferência um pouco menor, revestido por couro de bode. Seu som grave segura o baque e repercute direto com as batidas cardíacas. É o mais orgânico dos tambores, justamente por bater no compasso do coração. É tocado com duas baquetas.

CAIXA - Tambor revestido com pele natural nas laterais. De tamanho pequeno, pende do corpo do tocador à altura do umbigo. O som produzido é intermediário entre o tarol e a alfaia. No Ceará, chama-se também caixa-de-guerra.

CAXIXI - De origem indígena, é um chocalho feito de palha trançada com a base de cabaça, cortada em forma circular e a parte superior reta, terminando com uma alça também de palha, por onde o tocador passa os dedos da mão, menos o polegar. O caxixi também é muito utilizado junto com o berimbau, na capoeira.

GONGUÉ - Ou gonguê. É composto por duas chapas de ferro fundido com aço e ligadas entre si. O instrumentista segura o gongué por um cabinho metálico e o percute com um bastãozinho de madeira.

TRIÂNGULO - Mais característico elemento percussivo do maracatu cearense, o triângulo é feito com uma peça de ferro larga e pesada de chassi de caminhão. Ao contrário dos triângulos convencionais, seu som é grave, profundo, solene. Na hora em que o maracatu aponta na avenida, é justamente a poderosa batida no triângulo que faz todos os olhos se voltarem na sua direção. Embora com as inovações dos últimos anos, que aceleraram o ritmo, até os anos 80 mais compassado, o triângulo ou simplesmente ferro mantém-se como a marca da originalidade neste cortejo que nasceu longe, na África, lá no século 16.


Batendo tambor

A levada do bumbo e a marcação do ferro, que caracterizam o maracatu cearense, estão no balaio sonoro de três gerações que fazem música em Fortaleza, desde os anos 70.

Desde os anos 70, com o Pessoal do Ceará - e especialmente com Ednardo - o maracatu escapoliu dos três dias de folia para contribuir e singularizar a música feita por estas bandas.
A geração 80 teve uma participação fundamental nesta levada.
Desta década, o mais ligado à tradição e, em particular, ao maracatu, é Carlos Alberto Alencar, o Calé.
Através do selo Equatorial (Nossa História em Música e Letra), o artista vem resgatando valores de há muito esquecidos, como Lauro Maia, que criou o balancê junto com o violonista Aleardo Freitas. Via Equatorial, Calé Alencar lançou uma caixinha com cartões postais de fotografias dos maracatus da década de 50. Outro trabalho realizado no formato cartões apresenta o cortejo talhado no taco da xilogravura (parte deles ilustra esta edição). ''Tô inaugurando uma nova etapa desta minha participação no mundo do maracatu.

Estamos lançando este ano o Nação Fortaleza, que vai se apresentar pela primeira vez.
Não é apenas um trabalho pra desfile, mas com a consciência de um grupo de dança de maracatu, em todos os vetores que isto pode ser compreendido, a cidadania, o exercício da arte, da capacitação, do design, do artesanato, a costura, pintura, a musicalização, a compreensão da dança e da sua história, origem e evolução'', conta Calé, atual presidente da Federação das Agremiações Carnavalescas do Ceará.

O Nação Fortaleza, formado basicamente por crianças e jovens, traz um ''batuque bastante singular'', diz Calé. ''Fizemos o desenho das caixas, dos surdos e bumbos, dos chocalhos. Conservamos a batida dos ferros. É uma contribuição minha a uma identidade rítmica do maracatu Nação Fortaleza, inspirado nos ferros do Az de Espadas, que surgiu aí no início do anos 50.
Mas dei mais valocidade ao batuque, inclui ganzás. No tema da nossa loa, pensamos em realçar a figura da rainha Ginga.
Ela é símbolo de resistência, de heroísmo, de bravura, da mulher guerreira, personificada na rainha do maracatu. Na loa 'Ginga, rainha da gente', é como se chamássemos a rainha pra ver o figural que vai homenageá-la''.

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Nota - O material desta publicação é bastante extenso e ilustrado com fotos e desenhos de xilogravuras, mereceu um caderno inteiro do Jornal O POVO de Fortaleza. Para os que quiserem acessar o teor completo, a melhor forma é entrar em contato com com o setor deste jornal, responsável pelo armazenamento destas informações.
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Cumplicidade nas Políticas Culturais

Victor Hugo, o escritor francês, traduziu para a sua língua a obra do maior dramaturgo inglês e, de arremate, o homenageou com o mais poético e sensível ensaio humanístico que já tive a oportunidade de ler: Shakespeare. Um gênio reconhecendo o outro.

Assim procedendo, o autor de ´Os Miseráveis´ mostrou-se coerente com um dos pensamentos desenvolvidos no escrito, ao comparar as dinâmicas de avanço das ciências e das artes, segundo o que podia observar na metade final dos anos 1800.

Para ele, a lógica de progresso das ciências estaria na superação; a das artes na acumulação. Queria dizer: um cientista se firma quando desconstitui o que outro elaborou, como aconteceu gritantemente com Copérnico e Ptolomeu, quando aquele, desvelando adequadamente o sistema solar, implodiu a tese de que a Terra era o centro do universo.

No âmbito das artes, este sentimento de destruição do anterior, se existe, não tem cabimento, porque, por exemplo, o florescimento de Shakespeare não reclamou a superação de seu contemporâneo Cervantes, de seu antecedente Sófocles ou de seu póstero Machado de Assis.

O campo da cultura é, por excelência, o ambiente da pluralidade e do acúmulo.
Na atualidade de nosso país, os valores referidos, aliás, foram formalmente adotados pela Constituição da República, não apenas para as artes, mas para todo o campo cultural, ao assegurar ´a todos´, ´aos grupos participantes do processo civilizatório nacional´, ´aos diferentes segmentos étnicos´, o pleno exercício dos direitos culturais que, em considerável dimensão, são de responsabilidade do Estado, o qual deve atuar, no cumprimento de seu papel, em ´colaboração com a comunidade´.

Vê-se que Estado, sociedade e comunidade são responsáveis solidários pelas políticas públicas de cultura, merecendo esclarecimento a diferença entre as duas últimas: sociedade como o conjunto de todos os indivíduos; comunidade como grupo que possui laços de proximidade e integração, incluindo relações de afeto.

A Constituição ao integrar os três atores referidos no processo de promoção e proteção do patrimônio cultural brasileiro ensejou uma revolução democratizante no âmbito da cultura, historicamente admitido como espaço reservado, na melhor das hipóteses, à aristocracia pensante e intelectual do país.

Mas o sentido da integração em apreço extrapola em muito a simples técnica da decisão pelo critério da maioria, que é o ícone mais simples e acessível do regime democrático. Estado/Sociedade/Comunidade(s) dividem não apenas poderes, mas responsabilidades, pelos rumos da cultura; fiscalizam-se mutuamente para que as práticas culturais cumpram os objetivos de aprimorar a alma, as práticas e os valores humanos, questionem as coisas postas e proponham novos rumos, quando necessário.

As políticas públicas de cultura, seguindo o raciocínio, não podem ser apenas resultado de planos de governos, mesmo que investidos pelo voto popular, mas devem se submeter a uma dupla legitimidade de caráter constante: a dos anseios gerais da sociedade e das comunidades especificamente afetadas.
Não se trata apenas de atender as aspirações declaradas ou colhidas em função de técnicas de marketing, mas as que possibilitam ao cidadão e às coletividades situarem-se historicamente, vivendo o aqui e o agora e tendo, ao mesmo tempo, referenciais do passado e responsabilidades para com o futuro.

Muitas autoridades responsáveis pela gestão cultural não têm este entendimento, e disto resulta que a partir de seus gabinetes lançam planos, projetos e idéias de ações, preocupados, muitas vezes, apenas em deixar uma marca pessoal. Ofertam, não raro, aquilo de que já se dispõe, sob novo rótulo.
Buscam aceitação por meio de práticas feéricas, repleta de luzes artificiais, repetidoras da política do pão e circo, e até do circo sem pão, muito apropriada a manter as coisas do jeito que sempre estiveram. Tudo isso geralmente à custa da omissão com as obrigações outras, inclusive as cotidianas e indispensáveis, como a de conservação de estruturas e acervos culturais historicamente consolidados.
Quem assim procede, comete a inconstitucionalidade de deixar de ouvir e integrar os destinatários e co-responsáveis pelas ações culturais.

E mais que desrespeitar um formalismo jurídico, abre mão de suas cumplicidades em favor da luta pela concretização dos planos traçados, ficando frequentemente assemelhado àquele que faz pregações no deserto.As políticas culturais, historicamente praticadas nos moldes das ciências concebidas no século XIX, vêm, portanto, regendo-se pelo critério da exclusão, seja das práticas antecedentes, seja dos demais legitimados sociais.

Os gestores culturais prestariam grande serviço aos seus administrados se observassem a sugestão de Victor Hugo de homenagem às lógicas da pluralidade e do acúmulo, que fazem a regência e a riqueza das expressões culturais.


HUMBERTO CUNHA

Especial para o Caderno 3
O autor é professor de Direito Constitucional e Direitos Culturais nos cursos de Graduação, Mestrado e Doutorado em Direito da Unifor. Advogado da União.

Jornal Diário do Nordeste - 15 de Fevereiro de 2009
http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=615278

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Maracatu Estrela Brilhante



Artigo escrito por Ednardo para o Jornal O Povo - Fortaleza - Ceará, publicado em parte condensada em 2005, e agora enviado na íntegra em 2009 pelo autor.





Zeca Zines publica com prazer esta contribuição de Ednardo sobre o Maracatu Cearense.






MARACATU ESTRELA BRILHANTE
Ednardo

Maracatu Estrela Brilhante
Maracatu o teu brilho errante
Gamela da nossa mistura
Tão linda tão mista e tão pura
Maracatu

Garra maracá já guerreiro
Batuque ferro e ganzá
A flexa cravada no céu brasileiro
Infinitamente Cantar
Cantar
Cantar
... ... ...

Uma vez, quando menino, ví o Maracatu Estrela Brilhante, e nunca mais esquecí sua energia e força, faiscante ele veio pela rua. Naquele tempo todos os Maracatús se reunião no Parque da Liberdade, também chamado Parque da Criança, no centro de Fortaleza, e percorriam a chamada "Maior Rua do Mundo", que começa na Beira da Praia e em linha reta passa pela Cidade e se transforma numa estrada e adentra o interior do Estado de todos nós.

E eu do alto dos cinco anos de idade me perguntei - Que coisa linda é esta?
E saí pela rua, entre braços e pernas dos adultos.
Eu, no estado de pessoa acompanhando o ritmo e música do Maracatu.

A visão pra mim, coisa mágica, os lampiões que abrem o desfile e que preservam o espaço sutil e perfeitamente delimitado do bloco, a ala dos indios, com suas vestimentas de penas coloridas seus Cantos Indígenas e rítmos marcados pelos maracás e estalar das cordas bramindo contra os arcos, perfeitamente entrosados com os tambores, lançando as setas imaginárias em direção ao infinito que na minha mente de criança continua a existir.

Logo a seguir os pagés, os morubixáuas, reis de nações, as índias suas companheiras fiéis, rainhas, príncipes e princesas, e tudo isto verdadeiro, e cantando, em harmonia com o canto dos negros que na ala seguinte entoam os Cantos Afros, o espaço se abre com a presença do Pagé junto ao Rei e Rainha, a corte Real, envolta em luzes de candelabros, feitos de rústicos lampiões envoltos em fino pano vermelho, e grandes abanos coloridos que sinalizam sutilmente o espaço limítrofe entre os participantes do bloco e os assistentes.

Em seguida, os Tambores, que a gente já escutava em suas repercussões, ressoando nas paredes das casas de Fortaleza à mais de trezentos metros de distância, junto as marcações do contra tempo que no Maracatú do Ceará é especial pela presença do Ferro, ( um triângulo especialmente construído para esta finalidade do repinique no grau mais amplo das tonalidades metálicas), depois mais perto o xik-xik dos Ganzás, os Tambores- Grandes e médios, as caixas, fazendo o Rá-Tá-Tá-Tá - da puxada, e logo em seguida o BOMM do Baque do Maracatu.

E depois compreendí que aquela força tinha mais de 100 Anos de Solidão, Macondo é perto de Fortaleza, do Maracatú, quem já percorreu a excelente viagem, vai entender o que estou descrevendo.

E eu estava lá, e quem é criança, como eu, continua sabendo que todas as explicações não bastam, os Reis e Rainhas são perenes em suas sutis fragilidades, e em seus Arquétipos, são bastantes fortes. A explicação de que eram a representação da Côrte Européia, com os Índios e os Negros, cada qual colocados "em seus devidos lugares", parece equívoco, diante de tantas evidências.

A alma do Maracatu, tem talvez o tempo da civilização brasileira, é fruto da vivência, da sabedoria, do sofrimento, e também da alegria e beleza da saga humana, em nossa terra.

O Maracatu, está colocado como um dos prismas de visão, em uma parte de minhas músicas sobre este tema, ritmo e identidade cultural, traduzidas para o universo artístico, em um espaço todo especial.

Especial porque o Maracatú do Ceará é único nesta forma no Brasil, suas raízes mais longínquas vêm diretamente dos arquétipos e dos arcanos culturais de nossa miscigenação.

Das terras então (naquelas eras) recém "descobertas" do Brasil, a junção com as Nações Indígenas Brasileiras, principalmente do Nordeste: Tabajaras, Tremembés, Carirís, Pitiguaras, entre muitas outras; Da África, as Nações : Nagô, Bantu, Ijexá, Congo, e também muitas outras; Dos Europeus em suas diversas Nações, castas e extratificações sócio-culturais, Portugueses, Franceses, Espanhóis, Holandeses.

O Conceito Ritual da Civilização dos habitantes desta Terra, (chamados de índios, equívoco do cálculo dos navegadores, quando ainda se pensava que o Brasil era a Índia ou uma Ilha), incluia o respeito pelo encontro entre as raças dos povos que aquí aportavam.

Ao se encontrar com a consciência do povo africano, sequestrado como escravos pelos europeus, (e também vendidos aos brancos pelos próprios africanos em guerras tribais), fez aflorar a consciência deste povo refém, em suas purezas e custumes, o Reino daquí, ainda não tinha a informação do que havia acontecido nos Reinos vizinhos das Civilizações Maia e Azteca, entre outras.

MARACATU AZ DE ESPADA

Existem registros nos escritos originais de Hans Staden e Jean de Lery - NAVIGATIO IN BRASILIAM AMERICÆ, e VIAGEM À TERRA DO BRASIL que relata o tráfico de selvagens brasileiros em navios franceses, para serem vendidos como escravos aos Mouros brancos da Barbaria, como também faziam os navios portugueses com o aval do Rei de Portugal para este tipo de tráfico.

Também existem registros da contra partida onde as Nações ao Sul do Brasil praticavam a antropofagia- aquí incluída num contexto de guerra e vigança, com seus rituais de comer a carne do inimigo para ganhar suas forças:

- "Ndê t'mberaba shermiurama mae amboe" (A tí sucedam todas as desgraças, minha comida)
- "De kange yuca cypota kurine" (Eu quero ainda hoje cortar a tua cabeça)
- "Che y anama pepike ki chaicu" (Para vingar a morte dos meus amigos, estou aquí)
- "Yande sso che mocken sera quora ossorime rire (Tua carne será hoje, antes que o sol entre, o meu assado).

Com gritos de guerra bradavam os índios, e se prisioneiros fossem feitos, continuavam o ritual, onde "aquele que deve matar", pega a clava e diz - "Aqui estou, quero te matar, porque os teus também mataram a muitos dos meus amigos, devorando-os" e segundo o relato o outro, responde: - "Depois de morto, tenho ainda muitos amigos que me vingarão"

Tudo isso regado pela bebida feita pelas virgens da tribo ao mastigarem a raiz da maniva (mandioca), após fervida, que em contato com a saliva humana gera a fermentação - depositada em um pote e após o tempo de curagem e diluição com água é bebida por todos os que vão comer a carne do inimigo.

Nota - Esta versão parece ser a visão européia da época sobre os conflitos gerais ocasionados pelo estado guerreiro então estabelecido entre as partes, levando em conta os ânimos daqueles momentos, lembra também um pouco a sintomática justificativa para o extermínio dos contrários, a inquisição queimava bruxas, as cruzadas matavam os infiéis, as virgens, seus antecedentes e ascendentes, talvez tivessem o mesmo destino comum, de serem em seguida, também devorados pela vingança futura.

CAUIM
Ednardo

Rainha Preta do Maracatu
Nesse teu rosto de falso negrume
Morre de gozo da renda do sol
Na renda feita pelos bilros d'água
Desse véu de noiva Bica do Ipú

E eu um índio pronto para as flexas
Dos arcos tesos de uma caçada incerta
Monto no sopro do Aracatí
Tonto de espanto de amor e cauim
Sou nau sem rumo
Em teu ardor imerso
... ... ...

Depois vem a síndrome do conquistador se sentir exilado de sua terra natal, após território ocupado, ter que continuar residindo e resistindo em território alheio, o que também significa estabelecer vínculos integral com tudo, natureza, nativos, escravos, povo, Reis e Rainhas depostos, e com seus próprios propósitos de conquista.

Nesta nova ordem estabelecida em uma terra, que inicialmente seria o paraíso terrestre e que a partir de então mostra o seu lado selvagem, o Enigma se estabelece e esta Terra, somente será de todos, após a decifração: A Junção das Raças e as distribuição das riquezas entre as mesmas, conforme seus trabalhos.

13 DE MAIO - Libertação de Que?

Ou então coberta pelo manto de uma realeza equivocada que aquí se instalava, junto aos povos viajantes, em suas naves de madeira, (a tecnologia de ponta daquela época), e no caldeirão explosivo da carga humana dos escravos, (indios, negros e brancos), alijados de suas próprias realezas, esta Terra seria o eterno campo de batalhas inglórias, sem vencedor ou vencido, ou guardaria em suas entranhas o absurdo de se viver em meio a fartura e não se ter comida, viver em terras de dimensões continentais e não se ter espaço e liberdade para ver os filhos crescerem, e onde as árvores não dariam sombras nem frutos, os caminhos utilizados para levar nada à muitos e tudo à poucos, e as mãos que construíssem as habitações e fortificações do invasor, não tivessem como abrir a porta de sua própria morada, pois estariam ocupadas sempre em produzir riquezas e garimpar o ouro, para o pagamento da conta da empreitada da conquista de novas terras, irônica e cruel realidade dos escravos de então.

Como se a força dos elementos da natureza tivessem mudado das mãos do Superior e a Luz não mais banhasse as Almas.

É do conhecimento de todos, por maior que seja a maquiagem histórica, o "desconhecimento" que até os tempos de agora nos empurram como fatos oficiais nos bancos das escolas, que Nações Inteiras com seus "Reis, Rainhas e Povos", ao longo deste tempo, foram manietados e subjugados pelas forças das armas, da grana, do poderio da tecnologia. Dizem os sábios que: quem não aprende com o passado, muitas vezes se vê colocado em situações idênticas no presente ou futuro.

Assim, todos vieram, e chegaram com seus custumes, religiões, leis, e as extratificações de sociedade, dividindo os povos, às custas das "pacificações" que na verdade eram genocídios. Não houve o convite para uma participação harmônica, cada qual, com suas sabedorias e civilizações da inauguração de uma nova casa, a América (do Norte e/ou do Sul).

O extermínio de indios e negros não é somente filme de faroeste e de tarzan, onde o epicentro da ação, está em épocas passadas no cenário do oeste norte americano, ou das savanas africanas, isto sem esquecer as indias orientais, ocidentais e acidentais, onde todos os mocinhos, matavam os bandidos e terminavam o orgásmico e sangrento festim aos beijos, no final feliz do "the end" do filme.

A selva geral se deu e se dá no Brasil também, a época é variável , 1500 à 1900, e devemos todos nós querermos uma outra realidade diferente para depois dos anos 2000.

O Que têm esta História a ver com o Maracatu? - O MARACATU é tudo isto ai junto.

A hospitalidade nordestina reconhecida como um dos pontos fortes dos traços de nossos custumes, marcadamente vem de nossos indios, que receberam os brancos europeus e os negros africanos, que por sua vez também devem ter recebido a civilização branca com a altivez natural de habitantes legítimos destas regiões, e também em suas consciências cósmicas, dirigidas para o destino atual do Brasil que ao entrar neste terceiro milênio, se mostra como o verdadeiro "melting point" da miscigenação racial de todo o planeta.

Hoje em dia, já temos, nossos japoneses, nossos chineses, nossos alemães, nossos ingleses, nossos franceses, nossos holandeses, nossos americanos do norte e do sul, nossos espanhois, nossos portugueses, nossos mouros, nossos muçulmanos, nossos tuaregs, nossos indús, nossos africanos, nossos bárbaros e nossos doces, etc., etc., enfim somos os representantes mais ricos em termos desta mistura humana, por favor não esqueçam os indios, pois realizamos o projeto talvez mais amplo da humanidade.

A saudação usual da Hospitalidade entre as nações de nossos indios e as outras nações que chegavam após vários períodos e fases, tinham inicialmente o espanto e respeitosa aproximação, depois escravizados, o da revolta e guerra, e ao histórico domínio pela superioridade das armas, riquezas exploradas, movimentação e tecnologia, e etc., E inicia-se a fusão destas raças , e o nascimento do ser brasileiro.

-"Ere iobê" (Tu vieste?) dizia o Cacique Morubixáua da Nação visitada.
-"Pa-aiotu" (Vim, sim) dizia o o representante da Nação visitante.
-"Auge-be" (Bem dito) respondia o "Rei e Rainha e o Povo" da nação visitada. E os visitantes ficavam à vontade, com as palavras de recepção emitidas que valia como: bem vindo, ou diz bem o que tu fala, e nós te recebemos.

Não deve passar desapercebido, nem aos olhos mais desatentos, o simbologismo do Maracatu em suas cargas conceituais: Artes plásticas, roupas e adereços, pinturas; Expressões Corporais, diversos modos de danças, posturas representativas; Ritmos, Músicas, Vocabulários. E como espetáculo transcendental de nossa cultura viva.

A realidade do Teatro, somente para citar alguns, o Teatro Kabuki (japonês) pela utilização das máscaras que define expressões estáticas e posturas miméticas, o Grego quando um homem representa personagem mulher, a Rainha, (tradição do Maracatú do Ceará) e ainda incorporando as raízes negras, brancas e indias, e o Teatro Romano, por sua tradição de encenação pública e itinerante, sujeitas a modificações conforme a platéia, como nas Arenas.

Se todos estes pontos de identificação do Maracatu, fosse fruto de um produto artístico racionalizado e realizado grupalmente, com o tempo definido de uma companhia teatral, ou seus sucessores, já seria um grande fato. Mas ao constatarmos que esta função existe ao longo de décadas e mais décadas, (os estudiosos podem relatar sua durabilidade, especificidade e importância), e além de tudo, levada em frente por grupos populares, em expontânea e transcendental informações de arquétipos estrutural de nossa cultura , é óbvio e ululante, "que eles, somos nós".

Com suas alas de indios, negros e brancos, a abertura de leques de informações, a representação das nações com seus Reis e Rainhas, que significativamente podem ser representados simbólicamente por elementos de qualquer raça, ao pintarem seus rostos com a tinta preta , a fisionomia é anulado teatralmente pela máscara, e com ela, qualquer traço de identificação racial, permanecendo no entanto, qual o negativo de uma fotografia, a imagem íntegra de um ser humano no seu mais alto positivo. Por isto o sentido do Re-Ligari que o mesmo possui.

O Ritmo é Hipnótico, centraliza o estado natural das pessoas, a Música é composta por unidades Mântricas, de Auto-Concentração Interior.

A palavra é utilizada neste Ritmo e nesta Música com a finalidade mística e religiosa de fazer o Bem, e seus emitentes, devem estar aptos a concretizá-las em ações de equilíbrio com outras entidades e forças.

MARACATU AZ DE OURO

Curiosamente, o Maracatu desfila também durante o Carnaval, e seu ritmo, longe de ter os apelos frenéticos das bandas de frevos, escolas de samba, e agora dos carros de axé músic, também consegue arrastar multidões aos seus desfiles, similar fenômeno também existe na Bahia, com os afoxés, só que aquí no Ceará, os maracatus estão sendo incompreensívelmente colocados em escaninhos folclóricos, e sendo distanciados da festa popular por todas as formas e meios, o que é um gritante equívoco, como resultado eles se tornam progressivamente longínquos da identificação das novas gerações cearenses, que perdem este precioso referencial próprio, para em seu lugar, adotarem o referencial cultural de outras regiões.

Isto é no mínimo uma política cultural suicida, em relação à autonomia cultural, artística e de custumes popular que está sendo praticada contra o sincretismo de uma manifestação espontânea e abrangente, sem o aval do povo cearense.
A consciência, do conteúdo desta resistência, é fundamental para que possamos conhecermos a nós mesmos.

Esta realidade é tão estranha e contudente, que talvez existissem parâmetros de comparações, se pudermos imaginar alguém pensando em acabar, ou colocar em gavetas classificatórias menores, distanciando de festas populares, manifestações como: os Afoxés na Bahia, as Escolas de Samba no Rio de Janeiro, os Blocos de Frevo em Pernambuco, os Bumba Boi do Maranhão, por exemplo.

O raciocínio de que o Maracatu, possui um andamento muito diferente do que alguns elegem por conta própria para o padrão do carnaval cearense, é no mínimo, ingênuo, desinformado, ou interessado em limpar espaços em nossa própria terra, para que depois a monocultura sistemática e controlada seja realizada.

Queremos ver e saber de tudo, não somos xenófobos, gostamos da diversificação e democracia sonora, visual, da informação das várias maneiras de ser brasileiro, mas também estamos atentos as tentativas de nos tornarem apenas consumidores do modelo dos outros, e a preservação de todos os prismas de nossa identidade é vital para que possamos ser e estar.

SER E ESTAR
Ednardo

O imenso brilho do sol que explodiu nesse céu
Fotografou você
Sua sombra no ar a bailar, virou um louco maracatú
Sua dança a dançar, babel de som da cidade
Gente é preciso se dar valor, para ser e estar
Nesse rio real da existência
Além da dor, mêdo, violência
Existe o prazer de querer e ser querido
Revelar o precioso ser, habitante em nós
Vestindo o azul do espaço, e rasgando a mordaça da voz
Sonhar plural, acreditar estar com todos
Na solitária sina, solidariedade ao povo
De qualquer lugar, múltipla fantasia
Tudo é, foi, e será, escrito está
Solar expressso solar, tão cheio de gente a viver
Desabrochando aquí, no chão do planeta
Uma aura de um ôvo de luz, daonde nasce outra terra
Não fazendo de sí alimento, dos senhores da guerra
Olhar pro Aquarius no céu, vê se vê
Vê se vem, já não dá pra esperar

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Foto Para Pensar


Foto ganhadora do primeiro lugar na categoria "Notícias Gerais" do World Press Photo of the Year. De autoria do brasileiro Luiz Vasconcelos, do jornal "A Crítica", a imagem mostra uma mulher tentando impedir o despejo de seu povoado em Manaus, no Brasil, dia 10 de março de 2008

Luiz Vasconcelos/A Crítica/Zuma Press/EFE

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

O Tamanho da Estrada de Santana

- Sobre o ‘Pessoal do Ceará’

Ruy Vasconcelos


Naquele tempo e por uma série de razões a canção popular era um veículo opulento. O mercado ainda não estava tão estruturado. E havia um limite, um constrangimento à criação, que, paradoxalmente, a desafiava: a falta de liberdade de expressão. Mas havia também o fato mais ou menos cru de que os consumidores de disco eram quase que exclusivamente de classe-média. E, claro, de uma classe-média que pela primeira vez na história do país se beneficiava de uma educação universitária massificada.
A década de 70, no rescaldo dos inquietos 60, viu surgir pólos de criação onde houve universidade forte fora do eixo Rio-Sampa: na Bahia, em Minas, no Recife e em Brasília. Mas Fortaleza também esteva presente e de forma marcante.

O que se convencionou chamar de Pessoal do Ceará não é uma ficção. Mas um grupo que de forma mais ou menos organizada soube repartir tarefas. Entre intérpretes, compositores, letristas, instrumentistas, produtores, vimos surgir nomes como os de Raimundo Fagner, Belchior, Ednardo, Petrúcio Maia, Fausto Nilo, Brandão, Téti, Rodger Rogério, Ricardo Bezerra, Manassés de Sousa, Cirino, Augusto Pontes, Marta Lopes e tantos outros.

Em particular, salta aos olhos a inata qualidade literária do texto de certas canções. Brandão, Belchior e Fausto Nilo contribuíram bastante neste sentido. As letras de Brandão são como poemas autônomos que por acaso foram musicados, tal sua excelência. Belchior foi, então, um atento ouvinte de Dylan e de outras grandezas do universo pop. E Fausto Nilo, uma mente arejada o suficiente para pensar a palavra em música como uma amplidão de espaço que vaza para fora do som.
A diferença aqui é que todos os três não pensavam apenas em música. Pensavam mais longe, em algo que sendo uno é diverso, e responde pelo nome de arte. Como a vida.

Por seu turno, há um aperreio e um improviso muito grande em certas gravações se contrapostas à assepsia sonora de hoje. Quando se escuta coisas como “Estrada de Santana” dá para perceber o quanto há de bricolagem nessas sessões de estúdio.

Algo que está sendo resgatado, no momento presente, pela pesquisa esquizofrênica e ousada de Dustan Gallas: soar artesanal dentro de um estúdio digital. No caso dessas sessões de estúdio nos 70 eram quase gravações ao vivo. Ou pouco mais que isto. Havia uma comovente simplicidade e falta de atavios, que faz lembrar velhas (e doces) senhas: “da rodoviária para o estúdio”, “arrumar o cabelo e seguir”, “meu corpo, minha embalagem, todo gasto na viagem”.

Sofisticada artesanalidade. Tempos de constrangimento geram uma arte exigente assim. Há algo de muita emergência em canções como "Estrada de Santana". Algo que nos compele a percorrê-la de novo a cada vez que a escutamos. O lirismo misterioso, tenso e brilhante desse texto vale por dias bonitos de chuva: "Quem ouviu passarinho cantar,/ao meio dia, no silêncio de um lugar,/sozinho e sozinho esperou/que a noite trouxesse a esperança do sonho/ e a companhia do luar".

O que seduz nessa canção não é apenas sua vivaz referência à paisagem de um interior qualquer do Ceará. Mas o modo como ela nos instala lá: os passarinhos, o riacho temporário, a mata, o pequeno cemitério rural, etc. E, no entanto, escutando-a com melhores fones-de-ouvido, percebemos que essa vivacidade vem menos por conta da descrição da paisagem e mais pelo fato de ela ser evocada por um exilado: "Mas sou eu que não posso voltar//Não, não, não corro a Estrada Velha de Santana [...]". Essa impotência de estar nos lugares da eleição pesa nas carnes do cearense como uma maldição de proporções devastadoras, bíblica mesmo.


Em "Estrada de Santana" o migrante exilado mal dimensiona, de fato, o pedaço de vida que lhe foi roubada - embora sinta na carne que o foi: "Sem jamais entender o que alguém perdeu./ E perdeu, e ficou assim." Este "assim" ganha uma função adjetiva, como na fala popular. Algo que se aproxima de "desalento", "desesperança". Segue para além de uma simples e casual troca de estado de humor. Implica algo mais fundo: uma mudança na personalidade por razões de saudade de casa.

Ora, nenhum outro povo do Brasil, como o cearense, é mais especialista nisso: saudade de casa. E porque vivemos no mundo. E, claro, nem sempre por escolha. Assim "Estrada de Santana" assoma como mais uma das grandes canções de exílio que povoam o cancioneiro cearense. Um ilustre conjunto que vai de Catulo da Paixão Cearense (que era filho de cearense migrado para o Maranhão) ["ah, que saudades do luar da minha terra!"] e passa pelo ciclo de letras composto por Humberto Teixeira para músicas de Luiz Gonzaga e que incluem clássicos como "Asa Branca".

No início de "Tudo Outra Vez", Belchior nos diz: "Há tempo, muito tempo que eu estou longe de casa". É claro que estas palavras possuíam, à época, uma ressonância e uma urgência política mais vasta, mas não menos radicam nessa tradição do exílio. A mesma cantada por Ednardo ("Eu venho das dunas brancas/ Pr'onde eu queria voltar"). É apenas notório que, por razões óbvias, os duros anos de ditadura tenham acerado ainda mais essa condição de exilados.

Mas também em “O Astro Vagabundo” há inquietações de sobra para traduzir esse período. Qualquer coisa de muito sombrio e belo habita nessa canção. Nela o exílio para uma espécie de apocalipse ao mesmo tempo iminente e cotidiano – ou seja, feito daquelas simultaneidades possíveis só em sonhos – é a clássica imagem dos trovadores para o órgão sexual feminino: o pequeno jardim cercado, o Éden.
Dormir nesse jardim é o lenitivo. Esquecer por um lapso o pesadelo da realidade. O arranjo de cordas (que é de Wagner Tiso), os teclados, a amargura, o dilaceramento da voz de Fagner, exaltando-se na segunda parte, tornam a canção de uma sinceridade irresistível.


A lista é longa e a letra é breve. Se pode falar desse período como daquela “noite posta sobre a mesa” de “Asa Partida” – onde, aliás, há este verso que praticamente resume tudo: “eu não queria a vida desse jeito”. Ou seja, essa saudável inquietação diante de uma realidade extremamente defeituosa.
O Pessoal do Ceará pôs essa noite sobre a mesa com uma impressiva nitidez. Há o magistral (e majestoso) final de “Pavão Mysteriozo” ("Eles são muitos/ Mas não sabem voar"), carregado de utopia como nuvens densas num sertão de muitos meses de estio.
Quer dizer, "eles" - todos que não os migrantes - são muitos, também no sentido de poderosos. Mas não tem a dimensão do vôo, do sonho, alimentados por essa torturante saudade de casa que ensina mais do que qualquer escola, porque constitui em si uma odisséia.

O tema também reincide na delicada geografização de “Pequeno Mapa do Tempo”, de Belchior, com seus requintes de analogia entre a sonoridade das palavras e a concreção dos lugares citados. E em que tudo segue em suave crescendo até se chegar à "estrela do norte/Paixão, morte é certeza", que repõe Fortaleza no seu devido lugar - como uma espécie de Jerusalém. Ou, ainda antes disso, claro, essas velas do Mucuripe saindo para o risco e para uma intemporalidade maior do que a morte.

Quase como último espasmo coletivo, houve o disco-coletânea Massafeira. O disco surgiu como o registro e o subproduto mais notável de um evento mais amplo, envolvendo artes plásticas e performances que ocuparam o Theatro José de Alencar e marcaram época em Fortaleza.

Um empenho pessoal de Ednardo, com co-produção de Augusto Pontes, que sempre foi uma sorte de coringa ou eminência parda da galera. Massafeira, o álbum duplo, marcado pela diversidade, é uma espécie de limiar entre gerações. Hoje, um notável cult. Em “Frio da Serra”, a interpretação de Marta Lopes é preciosa. Vívida. Cheia de frescor: "Lá embaixo, no espaço/ as casas estão com frio". Há algo mais cearense do que o modo como ela pronuncia palavras como “poste” [pósti], com esse "s" tendendo a 'sh'; ou, sobretudo, “dinheiro” [dim-êro], onde o "h" é quase supresso, na bela letra de Brandão? [Coisas assim são de grande vigor cultural, embora passem longe do estereótipo ou do sotaque da telenovela].

Outros destaques vão para a barroca balada “Atalaia” ("paisagem de agreste clarim") interpretada à Fagner por Ferreirinha [Francisco Casaverde]; o bandolim do multinstrumentista Zé Maia em faixas como “Vento Rei”; o espontâneo talento de Wagner (depois Tazo) Costa - à época pouco mais que um menino - em "Isopor" ("Eu vou sair desse jogo malvado,/ Você só quer me ganhar"); e a copla medieval “Aurora”, cantada por Ednardo e Belchior, onde ocorrem versos como “sonhos de aurora eu sonhava/ no colo de minha irmã”, ou ainda: “abre as janelas, manhã”.

Aqui, a manhã entra em vocativo. Conversa-se com ela. E essa prosa parece remeter para uma daquelas casas sertanejas: brancas alpendradas, de pé-direito baixo, perto de um açude. Casas de onde nunca deveríamos ter saído, fosse este mundo mais justo. Ou nossa república menos imperfeita.

A importância de Massafeira, tanto enquanto evento como em seu registro fonográfico, ainda resta por ser dimensionada. A impressão, para quem a testemunhou, era a de uma tempestade pop, que até então só víamos no cinema, desabando ao vivo e em cores, durante quatro dias, em Fortaleza. Para descrever o evento, usou-se no encarte do álbum duplo a expressão "carnaval fora de época". Até entende-se o que se quer dizer com isso. Porém Massafeira foi muito além do que esta expressão tenta traduzir. Afinal, carnaval fora de época - hoje em dia - está mais para algo como a micareta, o Fortal ou alguma estupidez do gênero.

O que seduzia na imensa festividade, no exótico, na diversidade, naquele sobejo de contracultura - o fetiche das guitarras e amps, a tal "velha roupa colorida", os cabelos invariavelmente longos, desgrenhados - era a atmosfera em si.
E isso tudo numa acanhada capital do subúrbio, em plena linha do Equador. Na periferia da periferia do mundo. Aquelas guitarras rascantes ecoando pelas galerias e entornos de seu pequeno e charmoso teatro. Era algo de uma notável sugerência de novidade e vida. E, melhor, de novidade na diversidade. E num tempo em que, por mordaças várias, estávamos apenas começando a saborear a delícia de expressar-nos sem censuras. Inclusive as das patrulhas ideológicas de esquerda.

Para um povo, como o cearense, tão pouco afeito a manifestações assim - mais gregárias, em que o herói são todos e nenhum - o evento resta quase como um marco, nota dissonante. Mas de uma dissonância alegre, espontânea e promissora. O que Massafeira legou foi uma enorme fé na capacidade de elocução coletiva a partir de uma Fortaleza, convenhamos, bem mais provinciana que hoje. Não por acaso, chegou a despertar ciúmes em outros estados. Daí que não poucas matérias ao se referirem ao evento, ou a seu registro em disco, insinuarem que a gravadora CBS - a hoje Sony Music, uma das mais poderosas multinacionais da indústria fonográfica - ser acrônimo de Cearense Bem Sucedido, em referência ao poder de barganha do grupo (em especial de Fagner) junto à direção da empresa.

Em tempo, há dois discos que decretam o ponto final desse impulso: o próprio Massafeira, no plano coletivo; e o álbum Beleza (1979), de Fagner, na esfera mais individual. O álbum é de uma formosura dilacerante. Poucas composições. Arranjos opulentos, sob a supervisão de João Donato. Um time de músicos estelar.
Não há uma única faixa onde não reincida o título do disco. Inclusive a própria faixa título, com letra de Brandão que é verdadeiro achado ("e quando se vê o arame/ que amarra toda gente/ pendendo das estacas/ sob um sol indiferente"). A plangência da voz de Fagner chega a seu paroxismo. Guarda mesmo algo de indizível, limítrofe. Em todas as trilhas, tudo é asa partida, dor. Por exemplo, em uma canção (por sinal subestimada) como "Quer Dizer".

Pode-se sentir a cinco quadras de distância a potência elegíaca desse conjunto de canções tristes. A suíte de um trabalho de luto. Luto individual, mas que também se pode entender como canto de cisne ou estender como mortalha dessa fase heróica do Pessoal do Ceará.

Não é nehum segredo de estado, aliás, que os três nomes mais rutilantes do grupo não são propriamente os melhore amigos na face da terra. Mas é ao menos um consolo relembrar que, em tempos idos, eles já se envolveram em colaborações mais estreitas.
Desde então, Belchior tem trabalhado anos a fio na estrada, em turnês - sobretudo pelo interior de São Paulo e pelo Sul. Ednardo exerceu trabalhos diversos a partir do Rio, sua base. E Fagner, após um começo fulgurante - a exemplo dos dois outros - em que teve discos tão experimentais como Orós, com colaboração de Hermeto Pascoal - cortejou o mercado de forma mais agressiva e popularesca.

Mas o tempo passou. Será que hoje ainda seria possível produzir, por acaso, um disco conceitual com a contundente amargura de Beleza? Ou um exeperimental com as mirabolâncias de Orós?
Difícil responder. Os tempos são outros. A própria noção de disco é já tão outra.
A importância das grandes gravadoras foi alvejada em cheio pelas novas mídias digitais. O que era um sonho distante, remoto, só possível no Rio ou em São Paulo lá pelos já distantes anos 70, é algo que está ao alcance de qualquer cantor de banheiro: gravar um disco.
Levas de cd's produzidos e gravados em Fortaleza são despejados no mercado mês após mês. Mas qual de fato à importância da primeira geração que, de modo coletivo, dotou o Ceará de uma voz e de um sotaque bastante distintos?

O tamanho dessa Estrada de Santana é uma boa medida para se sair atrás de uma resposta. Daquelas capazes de preencher a moral de uma história. O momento foi ímpar. E eles eram jovens.
Não houve solução de continuidade. Ou sequer uma geração subseqüente que soubesse abiscoitar essas finezas. Dialogar com elas. Como quase tudo neste país, esse momento não se desdobrou para fora de si. Cristalizou-se.
E claro, a vida não estava ganha. E era preciso ganhá-la. Nesse processo, se foi um pessoal. Alguns devotaram-se a um sucesso um tanto tacanho. Outros desapareceram dentro daquela noite.
E a mesa em que ela estava posta, por um mau agouro, talvez se tenha convertido apenas num balcão para negócios sortidos e bem menos espontaneidade e arte.

Quantos de fato souberam do tamanho dessa estrada?


Nota - artigo originalmente publicado no jornal O Povo, em 2003, em versão abreviada. Dica: é possível baixar na íntegra o álbum duplo Massafeira (1980) pela internet.

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Blog de Ruy Vasconcelos - AFETIVAGEM
http://afetivagem.blogspot.com/2008/12/o-pessoal-do-cear-um-encmio.html

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Ruy Vasconcelos é Jornalista, Escritor e Tradutor.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Poesia em Prosa

Calíope - A Musa
São Paulo / SP





Ele fez uma poesia em prosa no meu corpo.
Desenhou as linhas em minha pele com o calor de seus beijos.
E com a ponta da língua escreveu cada palavra com os fluidos do seu corpo,
E eles transbordaram em mim, quentes e macios.
E eu me afoguei naquele rio de luxúria.
E fui resgatada por aquele abraço sensual.
Levou-me ao delírio


Depois se deitou ao meu lado com todas aquelas palavras doces,
O afago no lugar certo
Me deixou descansar em seu colo.
Me deixou sonhar em seus braços
Me deixou sorrir naquele gozo intenso.
Éramos um mistério um para o outro.
Sabíamos breves linhas das crônicas da vida de um e do outro
Mas ali, o paraíso era ali
Meu paraíso de sensações confortáveis,


O incenso de rosa branca, o lençol de seda, o espumante.
E tivemos uma vida que durou uma noite.
Não houve vida mais pulsante que a vida vivida nos braços dele...
Emoções intensas em curto prazo.
Meu desejo mais ardente.


E no dia seguinte eu era apenas a “ página virada, descartada do seu Folhetim”.
Então ele acordou
E engolimos apressadamente o nosso café e o amor,
Eu procurava o seu olhar, e ele, a chave do carro.
Enfim, a despedida:- “A gente se fala linda, nos encontramos em algum bar da vida”.

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Texto publicado com Autorização da Autora
Calíope - A Musa

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Objetores de Consciência

Vídeo dos objetores de consciência que se recusaram a servir o exército de ocupação de Israel. Jovens secundaristas de 18 e 19 anos que discordam da política de ocupação da Palestina. Foram presos. Vídeo remete a uma carta de apoio a ser enviada ao ministro da defesa de Israel.

Post do orkut por João Bani

domingo, 11 de janeiro de 2009

IMAGINE - PAZ PARA TODOS

Estava a imaginar como abriria os posts neste ano de 2009.

Diante de tantas coisas, algumas boas, mas muitas outras não, do que acontece no mundo, cheguei a conclusão do que é necessário, com estas canções, uma de Jonh Lennon - Imagine e outra de Louis Armstrong - What a Wonderful World

É necessário abrir portas e janelas da percepção para ver o que acontece ao nosso redor.